Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Cantora: MARIA BETHÂNIA

CD: “AMOR FESTA DEVOÇÃO” – AO VIVO

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Intérprete das mais viscerais, daquelas que realmente entendem o que está cantando e se entregam com vontade e verdade às emoções mais profundas das canções, a baiana Maria Bethânia vem, ao longo dos anos, suavizando o seu canto. E isso fica claro através do lançamento do projeto que acabou de chegar às lojas, através da gravadora Biscoito Fino, nos formatos CD duplo e DVD. Intitulado “Amor Festa Devoção”, trata-se de registro ao vivo do espetáculo oriundo de seus dois mais recentes discos de estúdio (“Tua” e “Encanteria”, lançados concomitantemente no ano passado). Gravado durante a realização de espetáculos em março deste ano na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro, o trabalho é de uma qualidade técnica fora do comum, o que na realidade nem pode se traduzir em qualquer novidade, posto que uma das características mais conhecidas de Bethânia é a busca pela perfeição.

Nascida em Santo Amaro da Purificação, em pleno recôncavo da Bahia de Todos os Santos, e filha de uma família católica que tinha como hábito ouvir diariamente as músicas executadas pela rádio local, ela, desde cedo, mostrou propensão para as artes. Batizada por conta de sugestão do irmão mais velho, Caetano Veloso, Bethânia logo demonstrou um gênio pouco convencional. Quando seguiu para o Rio de Janeiro para substituir Nara Leão em um musical, deixou claro que suas interpretações seriam pessoais e que ninguém esperasse dela cópia de quem quer que fosse. Passou ao longo dos festivais que assolaram o final da década de sessenta e catapultaram a carreira de grandes nomes da nossa MPB, não se filiou a Bossa Nova nem à Jovem Guarda nem tampouco ao Tropicalismo (muito embora sempre tenha se mostrado admiradora de João Gilberto, Roberto Carlos e dos conterrâneos-contemporâneos Gilberto Gil e Gal Costa). Tida como uma cantora de elite, ela conheceu o sucesso popular quando gravou “Olhos nos Olhos”, em 1976, de Chico Buarque, alcançando, em seguida, o seu período de maior reconhecimento (o final dos anos setenta e começo dos oitenta), quando chegou a vender mais de um milhão de cópias do seu álbum “Álibi”, lançado em 1978, uma verdadeira obra-prima da discografia nacional.

Nos últimos anos, mostrando realmente saber conduzir sua carreira com mãos de ferro e correndo à contramão da cartilha fonográfica atual, Bethânia vem produzindo muito. Lança discos gravados em estúdio, geralmente temáticos (como “Que Falta Você Me Faz”, de 2005, dedicado ao cancioneiro de Vinicius de Moraes, ou “Mar de Sophia” e “Pirata”, ambos de 2006, voltados respectivamente para as águas doces e salgadas), e sai em turnê em seguida com shows cujo repertório se mostra milimetricamente costurado, terminando por fazê-los ganhar registros ao vivo, como o que ora se faz recém-lançado.

Bethânia está cantando melhor que nunca. Seguríssima, ela faz de seus “companheiros de palco” (como chama os músicos que a acompanham) meros coadjuvantes de sua nova viagem musical que tem logicamente como base os repertórios dos dois já citados últimos álbuns de estúdio. E mister se faz ressaltar como, de fato, várias das canções crescem sobremaneira no palco! Ficando em alguns poucos exemplos, basta citar “Tua” (de Adriana Calcanhotto), “Você Perdeu” (de Márcio Valverde e Nélio Rosa) e “Estrela” (de Vander Lee), um dos números mais aplaudidos. E para fazer jus ao título do trabalho, ela dedica boa parte do set list às canções de amor, seara em que deita e rola soberana. Estão lá, entre outras, “Explode Coração” (de Gonzaguinha, a capella), “Fonte” (de Saul Barbosa e Jorge Portugal, em arranjo que remete à obra do Rei) e “Balada de Gisberta” (belo tema de Pedro Abrunhosa). A festa, por sua vez, surge quando ela mergulha nas reminiscências de um Brasil mestiço e tem o seu ápice no medley que reúne “Saudade Dela” (de Roberto Mendes e Nizaldo Costa) e “Ê Senhora” (de Vanessa da Mata). Já a devoção resulta do encontro entre o sagrado e o profano, fruto de um sincretismo religioso que se faz inerente à intérprete e aparece representado por músicas assinadas por Roque Ferreira (“Santa Bárbara”, “Feita na Bahia” e “Coroa do Mar”) e Paulo César Pinheiro (“Encanteria” e “Linha de Caboclo”). Bethânia abre espaço também para duas belas canções de autoria de seu mano famoso e que nunca foram gravadas por ela (“Queixa” e “Dama do Cassino”) e homenageia explicitamente sua centenária mãe Dona Canô através da releitura de “Não Identificado” (pérola também da lavra de Caetano). Por derradeiro, há, ainda, o resgate de compositores antigos (um hábito salutar da cantora e que já vem de muito tempo), tais como Herivelto Martins (“Bom Dia”), Sílvio Caldas (“Andorinha”) e Lamartine Babo (“Serra da Boa Esperança”).

É mais um projeto muito bem-vindo do maior nome feminino da nossa canção popular e que merece ser conhecido por todos!

 

 

N O V I D A D E S

 

· O terceiro CD de Diogo Nogueira (e seu segundo registro ao vivo) acaba de chegar às lojas

através da gravadora EMI (disponível também no formato DVD) e já é considerado como um dos produtos fonográficos que melhor deve vender neste final-de-ano. A carreira do rapaz, aliás, parece ter sido calculadamente projetada e os louros disso começam a ser colhidos, uma vez que ele se transformou em um dos nomes da nossa música jovem que vem se destacando com maior intensidade. Sambista inato, ele herdou do pai, o saudoso cantor e compositor João Nogueira, o talento musical e a voz grave e encorpada. Neste novo trabalho, aliás, o que mais se destaca é o fato de que Diogo está cantando muito bem, fazendo as pausas e as respirações com uma precisão ímpar, isso sem falar na capacidade (rara nos artistas atuais) de saber imprimir crescendos e recuos interpretativos nos momentos certos. O registro do trabalho foi feito durante show realizado um julho deste ano na casa carioca Vivo Rio e vem no esteio de seu último e ótimo álbum de estúdio (“Tô Fazendo a Minha Parte”). No repertório, ele alia boas inéditas (são quatro ao todo, com destaque para “A Vitória Demora, mas Vem”, de Juninho Thybau, Anderson Baiaco e Luiz Café, e “Razão Pra Sonhar”, parceria dele com Inácio Rios e Raphael Richard) com releituras de temas famosos gravados por Emílio Santiago e Agepê (“Pelo Amor de Deus” e “Deixa Eu Te Amar”, respectivamente), mas garante espaço para canções por ele lançadas anteriormente, como é o caso de “Malandro É Malandro, Mané É Mané” (de Neguinho da Beija-Flor) e “Sou Eu” (que, inclusive, dá título ao recém-lançado projeto, uma bela parceria de Chico Buarque e Ivan Lins). Os dois, aliás, surgem como convidados especiais nesta faixa (e Chico também em “Homenagem ao Malandro” e Ivan ainda em “Lembra de Mim”, esta constante apenas do DVD). A outra participação especial fica por conta de Alcione em “Amor Imperfeito” (de Leandro Fregonesi e Ciraninho). A primeira faixa de trabalho escolhida é o bonito samba romântico “Me Leva” (de Toninho Geraes e Serginho BH) e como bônus Diogo regravou em estúdio a canção “Pra Que Discutir com Madame?” (de Ary Vidal e Janet de Almeida).

 

·  E mesmo estando fresquinho nas lojas o seu mais recente álbum, “Nas Escritas da Vida”, recentemente lançado ao lado de Bruno Castro, a sambista Dona Ivone Lara já se prepara para pôr no mercado brevemente um outro CD, desta vez dividido com o parceiro Délcio Carvalho. Intitulado “A Festa”, o trabalho produzido por Paulão Sete Cordas apresentará algumas canções inéditas e contará com as participações de Alcione, Dudu Nobre, Mart’nália e Wilson das Neves, além da Velha Guarda do Império Serrano. A base do disco foi a gravação ao vivo feita em março de 2008 no Teatro Municipal de Niterói (RJ) durante shows realizados pelos dois artistas.

 

· A bem da verdade, Nando Reis já vinha dando pinta, de uns tempos para cá, de sua vontade em flertar com uma música de cunho mais popular, assumindo, em diversas entrevistas, o seu lado romântico. Mesmo assim, é de estranhar que este desejo resulte tão exagerado a ponto de descambar no projeto “O Bailão do Ruivão” que, encampado pela MTV, chega ao mercado nos formatos CD e DVD através da gravadora Universal. O registro ao vivo foi colhido durante duas apresentações realizadas no mês de agosto deste ano no Carioca Club, em São Paulo, e Nando conta com a participação de Os Infernais, a banda que o vem acompanhando há alguns anos. Como o próprio nome do projeto já entrega, trata-se de uma miscelânea sonora que alberga hits de diversas tendências, escolas e tribos. O resultado é uma salada musical assustadora que pouco se justifica na carreira de um artista que vem mostrando talento ascendente desde que se desligou dos Titãs. Assim, entre sucessos estrangeiros (“I Can See Clearly Now”, de Johnny Nash, e “You and I”, de Rick James) e canções que fazem parte do inconsciente coletivo nacional (“Frevo Mulher”, de Zé Ramalho, “Whisky a Go Go”, de Michael Sullivan e Paulo Massadas, “Severina Xique Xique”, de Genival Lacerda e João Gonçalves, e “Lindo Balão Azul”, de Guilherme Arantes), Nando se mostra bem empolgado com a receptividade de um público claramente ávido por festa. Pra completar, ele ainda recebe, como convidados especiais, Joelma e Chimbinha (da banda Calypso) em “Chorando Se Foi” e a dupla Zezé di Camargo & Luciano em dois momentos: na modorrenta “Você Pediu e Eu Já Vou Daqui” (de Antonio Marcos e Zairo Marinoso) e na alegrinha “Do Seu Lado” (grande sucesso do Jota Quest e de autoria do próprio Nando).

 

· A banda gaúcha Nenhum de Nós está lançando um novo CD. Intitulado “Contos de Água e Fogo”, o trabalho traz parcerias de seus componentes com o argentino Pablo Uranga e o uruguaio Sócio, além de Fábio Cascadura e de Leoni.

 

· Zeca Baleiro assina a produção de “Praça Tiradentes”, o CD que trará de volta ao mercado fonográfico o cantor Odair José. O repertório trará várias canções inéditas, dentre as quais “Vou Sair do Interior” (de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes) e “Como um Filme” (do próprio Baleiro).

 

· No finalzinho dos anos sessenta e começo dos anos setenta, com o vácuo deixado após as explosões da Bossa Nova e do Tropicalismo, surgiu na MPB, embora por um curtíssimo espaço de tempo, um período em que a chamada “toada moderna” capitalizou grande parte das atenções. Com empréstimos do pop e acento rítmico derivado do baião, canções como “Andança”, “Sá Marina”, “Menininha do Portão”, “Casaco Marrom” e “Viola Enluarada” se transformaram em grandes sucessos, até hoje executados com frequência por algumas de nossas melhores rádios. A gravadora EMI compilou quatorze desses fonogramas e os colocou recentemente no mercado, reunindo-os no CD intitulado “Toada Moderna”, uma coletânea realmente especial para os aficcionados em música de qualidade. As duplas Marcos Valle & Paulo Sérgio Valle e Antonio Adolfo & Tibério Gaspar são os autores que melhor representam o “movimento” que contou com a adesão de nomes à época em começo de carreira (como Milton Nascimento e Beth Carvalho) e artistas que já eram conhecidos pelo público (caso de Evinha, Wilson Simonal e Dóris Monteiro).  

 

· E já começa a ser formato o próximo CD de Marisa Monte. Chegará às lojas em 2011, devidamente acompanhado de turnê nacional e internacional…

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br  

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