Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Artistas: VIRGÍNIA ROSA & GERALDO FLACH

CD: “VOZ & PIANO”

Gravadora: LUA MUSIC

 

Um dos formatos mais elegantes em disco é, sem sombra de dúvida, o de piano e voz. Instrumento tradicional de fartos recursos sonoros, o piano bem tocado pode proporcionar momentos ímpares de emoção tanto para o intérprete quanto para o público ouvinte. É assim, somente se fazendo acompanhar pelas majestosas teclas do gaúcho Geraldo Flach, que a excelente cantora paulistana Virgínia Rosa acaba de fazer chegar às lojas, através da gravadora Lua Music, o álbum “Voz & Piano”, produzido por Fernando Cardoso e Roberto Monteiro e composto por quinze faixas (onze delas trazendo Virgínia e Flach em momentos de rara cumplicidade musical).

Ela é filha de mineiros e bisneta de índia. Sua mãe amava música e seu pai tocava sopro em bandas de coreto do interior. Seu ingresso, de forma profissional, no mundo da música ocorreu nos anos oitenta, quando começou a cantar como vocalista da banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção. Em seguida, integrou o grupo Mexe com Tudo, com o qual trabalhou por sete anos e excursionou com sucesso pela Europa. Foi no início da década seguinte, no entanto, que ela mergulhou de cabeça na carreira solo e, de lá para cá, vem lançando bons trabalhos sempre em busca de um (merecido) reconhecimento de seu talento.

Já ele iniciou a carreira aos quatorze anos de idade, tocando em conjuntos de baile. Na década de sessenta, formou um trio (piano, baixo e bateria), com o qual se apresentou em vários espaços, recebendo, em 1964, o prêmio de Melhor Solista no II Festival de Jazz e Bossa Nova, evento de caráter nacional. Como compositor, participou de diversos festivais, geralmente posicionando-se entre os melhores colocados, e, ao longo de sua trajetória, atuou junto a dezenas de movimentos musicais. Excursionou ao lado de grandes nomes, tais como Nana Caymmi, Ivan Lins, Wanda Sá e Roberto Menescal, entre outros, e teve canções suas gravadas por gente do porte de Elis Regina, Taiguara, Emílio Santiago, Eduardo Conde, Jerônimo Jardim e Renato Borghetti.

O encontro entre Virgínia e Flach se deu em 2005 num evento idealizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O resultado mais que satisfatório do espetáculo criou a possibilidade para novas apresentações e a ideia de registrar essa parceria em CD logo ganhou espaço, embora tenham se passado cinco anos para o seu efetivo lançamento. O bonito e intimista álbum (gravado em um único dia de estúdio) se abre com Virgínia entoando a capella o belo tema “O Meu Amor Chorou” (de Luiz Marçal Neto), logo confirmando que se trata de uma cantora especial: dona de técnica irrepreensível e afinada ao extremo, ela se mostra também uma intérprete inteligente, daquelas que sabem dizer o que as canções lhe pedem.

O repertório apresentado passeia sem pudores pelo nosso cancioneiro (abrindo espaço alheio somente para “Mercedita”, de Ramón Sixto Rios), aliando algumas canções bastante conhecidas (caso, por exemplo, de “Qui Nem Jiló”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “Dindi”, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, e “Upa Neguinho”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) a outras pérolas que ainda merecem reconhecimento urgente (nesta seara se inserem “Cacilda”, de José Miguel Wisnik, “A Flor”, de Fernando Figueiredo, e “A Voz do Coração”, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos). Pinçar os melhores momentos desse bem-vindo trabalho se torna, de fato, tarefa hercúlea, mas não se pode deixar de destacar o resultado primoroso alcançado com as releituras de “Amor de Índio” (outra de Ronaldo Bastos, desta feita em parceria com Beto Guedes) e “Maria Maria” (de Milton Nascimento e Fernando Brant). Completam o CD duas faixas bônus que surgem sob o subtítulo de “Outra Voz, Outro Piano”: é que em “Prenda Minha” Virgínia sai de cena, dando lugar à melodiosa voz de Lucinha Lins; já em “Ta-hi – Pra Você Gostar de Mim” é a vez de Flach ceder espaço para o também exímio pianista Ogair Jr.

Trata-se de um feliz encontro que resultou em um grande disco. É correr e ouvir!

 

 

N O V I D A D E S

 

 

· E surge, em Sergipe, um nome que certamente vai ser em breve muito comentado. Trata-se da cantora Carol Prudente, a qual acaba de lançar (ao lado do Pífano Zen) um CD promocional (promissora amostra do primeiro CD que já começa a ser formatado) que surge composto por três faixas, duas delas de sua própria autoria (a delicada “Corpo Invisível” e o bom blues “Sunday Blues”) e a outra (a bonita “O Bobo e o Rei”) composta pelo irmão Dudu Prudente, talentoso percussionista local e o responsável pela competente produção do trabalho. Carol canta bonito, de maneira suave e convincente. Vale super a pena conhecer! O CD está à venda no restaurante natural “Ágape”, localizado pertinho do Ginásio Constâncio Vieira.

 

· A cantora Gal Costa esteve contratada da extinta gravadora Philips (hoje Universal Music) entre 1967 e 1983 e foi durante tal período que ela lançou os melhores discos de sua vitoriosa carreira. É esse material de incontestável importância que compõe a caixa “Gal Total” que recentemente chegou ao mercado, organizada pelo pesquisador Marcelo Fróes.

Trata-se de um lançamento imperdível para os aficcionados pela nossa MPB, posto que mostra a baiana em suas diversas fases e no auge de sua forma vocal. Álbuns como “Água Viva”, “Gal Tropical” e “Fantasia”, por exemplo, verdadeiras obras-primas da indústria fonográfica nacional estão lá e devem ser reverenciados pela geração atual. Como complemento, a coleção inclui uma coletânea dupla (devidamente intitulada “Divina, Maravilhosa”) composta por vinte e oito faixas pinçadas de gravações avulsas feitas por Gal.

 

· O Roupa Nova festeja as três décadas de carreira com o lançamento do CD “30 Anos ao Vivo”, também disponível em DVD. O repertório de cunho popularesco contempla os maiores sucessos do grupo, dentre eles “Linda Demais”, “Volta Pra Mim”, “A Força do Amor”, “Canção de Verão” e “Coração Pirata”. As participações especiais ficam por conta de Milton Nascimento (em “Nos Bailes da Vida”), Sandy (em “Chuva de Prata”), Padre Fábio de Melo (em “A Paz”) e a banda Fresno (em “Show de Rock and Roll”). De fato, um presente e tanto para os fãs!

 

· Quem, de passagem, escutar “Frio”, a primeira canção de trabalho do terceiro CD de Monique Kessous, certamente achará que está ouvindo alguma nova música de Marisa Monte. De fato, os timbres das duas cantoras são parecidíssimos e Monique, que também é compositora (ela assina sozinha ou ao lado de parceiros nove das onze faixas que compõem o novo e homônimo álbum, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Sony Music), apresenta canções com melodias que remetem em demasia às de Marisa e inclusive faz uso, em várias passagens, de vocalises característicos da musa tribalista. Coincidência ou certa forçação de barra, o fato é que isso, embora num momento inicial possa lhe abrir portas, a médio prazo deverá também trazer um tanto de descrédito. Várias são as cantoras que, após o estouro de Marisa, surgiram em seu encalço. Nenhuma delas, logicamente, se fez melhor que a original e, mesmo reconhecendo que Monique compõe legal e canta afinada, espera-se que, dentro em breve, ela possa vir a conquistar uma digital própria. Esta observação, contudo, não retira por completo o mérito do disco que, sob a produção esperta de Rodrigo Vidal (o responsável também pelo super bem sucedido CD de estreia de Maria Gadú), traz duas boas regravações, não obstante de canções pra lá de surradas: “Bloco do Prazer” (de Moraes Moreira e Fausto Nilo, num andamento suave e com o arranjo ancorado somente em baixo e bandolim), e “Sonhos” (de Peninha, que ganhou ares de tango). Na seara autoral, os destaques ficam incontestavelmente por conta de “Levo a Vida Assim”, “Coração” e “Tempo”. Ao final, o ouvinte encontrará a faixa-bônus “Pitangueira”, a canção que obteve maior receptividade no álbum anterior da artista e que ora apropriadamente ressurge.

 

· A primeira composição do grande compositor e poeta Paulo César Pinheiro foi “Lapinha”, criada em parceria com Baden Powell e imediatamente imortalizada pela interpretação definitiva de Elis Regina. À época, tinha Pinheiro tão somente dezesseis anos de idade e fez a canção em homenagem a Mestre Besouro Mangangá, um dos capoeiristas mais famosos da história da Bahia. Em 2006, foi montado o musical “Besouro Cordão de Ouro”, espetáculo premiado e muito elogiado pela crítica, o qual teve toda a sua trilha musical criada por Pinheiro que teve a iniciativa de compor uma cantiga para cada toque de capoeira. Quatro anos depois e amparado pela receptividade do selo Quitanda, de propriedade da cantora Maria Bethânia, chega às lojas o CD “Capoeira de Besouro”, contendo todas as músicas feitas para a aludida peça registradas na voz rouca de seu compositor. Trata-se de um trabalho bastante interessante que deve ser conhecido por todos não apenas por se tratar do segundo álbum em que Pinheiro (autor de pérolas gravadas por Simone, Clara Nunes e Roberta Sá e parceiro de João Nogueira, Dori Caymmi e Chico Buarque) aparece como cantor, mas também por conta de seu incontestável valor cultural e documental.

 

· Enquanto prepara o seu primeiro disco solo, o tecladista carioca Leo Fernandes participou, dividindo os vocais de “I’d Have You Anytime” com Milton Nascimento, do projeto dedicado à obra do beatle George Harrison que o pesquisador musical Marcelo Fróes produziu e fez chegar esta semana às lojas através do seu selo Discobertas. Outros artistas participantes foram, entre outros, Fafá de Belém, Zé Ramalho, Sérgio Reis, Maria Gadú, Rodrigo Santos e Mu Carvalho.

 

· Pescando canções dos repertórios de artistas e bandas da cena indie nacional, aqueles correm à margem do marketing musical das gravadoras e da grande mídia (a exemplo dos grupos Vanguart, Ludov e Numismata), o cantor André Frateschi e a cantora Miranda Kassin lançaram, há poucas semanas e de maneira independente, o divertido CD intitulado “Hits do Underground”. Trata-se de um álbum muito bem idealizado e concebido (a produção ficou sob a responsabilidade de Plínio Profeta) que apresenta dois artistas perfeitamente antenados com o momento contemporâneo. Embora André cante muito bem, é justo ressaltar que o destaque fica por conta de Miranda que mostra uma voz poderosa e de timbre belíssimo, não se calcando em nenhuma das grandes divas nacionais. Os melhores momentos desse trabalho composto por onze faixas ficam por conta de “Magrela Fever”, “Dê”, “Fita Bruta” e “Artista É o Caralho” (que foram lançadas por Curumin, Cérebro Eletrônico, Wado e Rubinho Jacobina, respectivamente).

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br  

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