MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A

Cantores: TOQUINHO e PAULO RICARDO
CD: “TOQUINHO e PAULO RICARDO CANTAM VINICIUS”
Gravadora: BUILDING RECORDS

Não obstante aparentemente, levando-se em conta as trajetórias artísticas individuais, Toquinho e Paulo Ricardo pareçam ter pouco em comum, o fato é que eles resolveram unir os talentos e, juntos, acabam de lançar o CD intitulado “Toquinho e Paulo Ricardo cantam Vinicius”. Trata-se, evidentemente, de um mergulho nas criações de Vinicius de Moraes, o Poetinha da nossa MPB, o qual nos deixou em 1980.

Toquinho é um exímio violonista que estudou com professores consagrados de clássico e popular e possui parcerias com Chico Buarque, Carlos Lyra e Jorge Ben Jor, entre outros. Mas foi com as várias canções feitas ao lado de Vinicius que, na década de setenta, viu seu nome ser consolidado.

Paulo Ricardo, desde a infância, se interessou por música, especialmente a bossa nova e as canções associadas à Jovem Guarda. Veio a conhecer o sucesso quando do estouro do rock nacional na década de oitenta. À frente do RPM, ele se tornou o sex simbol maior de toda uma geração, consolidando o grupo como um dos grandes vendedores de discos da história da nossa música e enfileirando vários hits. O sucesso, contudo, não conseguiu impedir a dissolução da banda, motivo pelo qual Paulo Ricardo engatou, logo em seguida, uma carreira solo caracterizada por altos e baixos. Atualmente, depois de algumas idas e vindas, o RPM anuncia novo retorno com um CD de inéditas previsto para ser lançado ainda este ano.
Vinicius, o homenageado, nasceu em uma família amante das letras e da música e terminou seguindo as duas vocações, tendo também abraçado a carreira diplomática. Parceiro de feras como Tom Jobim, Edu Lobo e Baden Powell, ele foi o parceiro ideal para Toquinho: o então jovem músico encontrou no reconhecido poeta um nome de peso que viria a lhe abrir muitas portas.

O recém-lançado álbum traz, no repertório, treze canções de Vinicius em parceria com Tom, Baden, Chico e – lógico! – Toquinho, inclusive uma ótima canção inédita intitulada “Romeu e Julieta” que, de imediato, se transforma no chamariz para os aficcionados em música. Mas o fato é que, para os ouvintes mais puristas, uma primeira audição do disco deverá causar certo desconforto. Idealizado por Lilia Klabin, o álbum foi produzido por Waldo Dennuzo que optou por revestir os arranjos com programações variadas e uma multiplicidade de samplers. E se até para os trabalhos de Paulo Ricardo isso soa acima da média, imagine-se para a sonoridade característica de Toquinho, geralmente voltada para o tratamento acústico, e mais ainda para a obra de Vinicius cuja base maior se ancorou na tradição do nosso cancioneiro.
Ultrapassado o baque inicial e se esquecendo de preconceitos, outras audições terminam por fazer com que se chegue à conclusão de que se trata de um CD simpático. Excessos de modernidade podem ser percebidos em algumas passagens, mas nada que venha a comprometer o bom resultado. E, de mais a mais, se fosse adotada uma (des)esperada reverência, poder-se-ia cair em mais um dos milhares de tributos já feitos a Vinicius, os quais terminam pecando pelo ar monocórdio final.

O Quarteto em Cy aparece no coro das faixas “Eu Sei que Vou Te Amar” e “Carta ao Tom 74” (que traz citação da antológica “Águas de Março”), Lisa Kalil destaca-se nos contrapontos de “Sei Lá” e Olívia Tabet responde pelos ótimos vocais adicionais. Há ainda, conferindo um charme especial, a voz sampleada do próprio Vinicius em metade do disco.
O maior senão mesmo reside é no fato de que as músicas escolhidas recaíram sobre opções óbvias. Estão lá temas já revisitados à exaustão, a exemplo de “Tarde em Itapuã”, “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade”, quando se sabe que Vinicius possui muitas canções bem legais que ainda são pouco conhecidas. Já os destaques ficam por conta de “Canto de Ossanha”, “Água de Beber” e “Insensatez”. Completam o roteiro “Pra Quê Chorar?”, “Samba da Bênção” e “Samba de Orly”.

Trata-se de um CD gerado na entressafra das carreiras de Toquinho e Paulo Ricardo, que, muito embora pouco venha a acrescentar às mesmas (que certamente seguirão seus próprios caminhos), termina soando tanto exótico como interessante. Vale a pena conhecer!

 
N O V I D A D E S

* Composto por treze faixas, chegou recentemente ao mercado o CD intitulado “Jogo de Palavras”, o ótimo trabalho de estreia do jovem cantor e compositor Vinicius Castro. Trata-se de um projeto independente que se destaca pela qualidade das composições. Com letras inteligentes e repletas de boas sacadas, Vinicius abre o painel de sua eclética obra, mostrando-se de fato um compositor inspirado que sabe criar refrões bem definidos no que se refere às estruturas gerais das canções. Como cantor, ele mostra personalidade com um timbre único e boa extensão de voz. Entre vários ritmos, o repertório passeia pelo samba (“Bala Perdida”), blues (“Blues da Solidão”), valsa (“Sangrando”) e rock (“Roque das Antigas”). O artista é o autor de todas as músicas apresentadas, abrindo-se a parceria com Danilo Mariano em apenas dois momentos: a balada pop “Marcas” e o maracatu “Carcaça”, esta indubitavelmente o maior destaque desse bem-vindo álbum que traz ainda, entre os seus melhores momentos, o tango “A Sentença”, a caribenha “Casa ao Revés” e a circense “Dos Pés à Cabeça”. Corra e ouça!

* E prossegue, aqui em Aracaju, o Projeto Grandes Nomes, desta feita com o show de Ângela Maria que acontecerá na próxima sexta-feira (dia 29) a partir das 21 horas no Teatro Tobias Barreto. A famosa Sapoti certamente arrebentará ao interpretar, do alto de sua maturidade, vários de seus grandes sucessos. Imperdível, viu?

* Sem lançar discos há exatos dez anos, a Banda Black Rio anuncia, inicialmente com lançamento agendado somente para o mercado europeu, a disponibilização do CD “SuperNovaSambaFunk”. Composto por dezesseis faixas, o álbum conta com participações especiais estelares, tais como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elza Soares, Seu Jorge e César Camargo Mariano.

* O compositor Candeia vê três dos cinco discos que gravou ao longo de sua carreira (aqueles lançados originalmente em 1970, 1971 e 1975) voltar ao catálogo no formato CD. Trata-se de uma louvável iniciativa da gravadora Discobertas. Foi depois de levar um tiro que terminou por lhe tirar os movimentos das pernas que o artista deixou de ser policial e passou a se dedicar inteiramente ao mundo do samba. Sambista venerado por grandes intérpretes nacionais que gravaram suas composições, a exemplo de Clara Nunes (“Senhora das Candeias”), Elizeth Cardoso (“Minhas Madrugadas”), Alcione (“Dia de Graça”) e Marisa Monte (“Preciso me Encontrar”), ele assina sozinho a maioria das canções. As exceções se abrem para poucos parceiros, como Paulinho da Viola (“Coisas Banais”), Casquinha (“Outro Recado”), Arthur Poerne (o belo chorinho “Saudade”), Aldecy (a insuspeita romântica “Imaginação”), Wilson Moreira (“Alegria Perdida”) e Netinho (“Sinhá Dona da Casa”). Essas citadas canções se consubstanciam como os destaques dos repertórios dos álbuns em tela, ao lado de “Viver”, “Samba da Antiga”, “Filosofia do Samba”, “Quarto Escuro”, “De Qualquer Maneira” e dos medleys que reúnem partidos altos e motivos folclóricos baianos. Essencial em qualquer cedeteca que se preze! Em tempo: a cantora Teresa Cristina tenciona gravar um disco em breve somente com canções de Candeia…

* Mais um integrante do clã dos Adnet está a lançar CD. Desta feita, trata-se de Chico Adnet, cantor, compositor, pianista e ex integrante do lendário grupo vocal Céu da Boca que, através da gravadora Repique Brasil, pôs no mercado recentemente “Alma do Brasil”, um trabalho composto por quatorze faixas autorais, sendo uma delas instrumental (“Choro para Luiz Eça”). A ficha técnica agrega vários membros da família (Maúcha Adnet, inclusive, divide os vocais de “Olha Só”) e muitos dos melhores músicos da atualidade, como Jurim Moreira (bateria), Jorge Helder (baixo), Marcos Esguleba (percussão), Luís Flávio Alcofra (violão) e Hamilton de Holanda (bandolim), entre outros. As criações do carioca Chico Adnet não são fáceis de serem assimiladas: seus fios melódicos são geralmente complexos e algumas das obras não seguem o formato tradicional da canção popular, mas o resultado é bem legal, muito por conta dos belíssimos arranjos. Os melhores momentos do repertório apresentado ficam por conta dos sambas “De Qualquer Maneira” e “Cabrocha Branquinha” e das sensíveis “Quem Não Quer Ser Feliz?” e “Arquiteto” (esta, uma parceria do artista com Pedro Caetano).

* A cantora e compositora Cris Braun anuncia para setembro próximo o lançamento de seu terceiro CD. Intitulado “Fábula” e com a produção a cargo do guitarrista Billy Brandão, o novo trabalho, que é composto por onze faixas (duas delas instrumentais), trará as participações especiais de Celso Fonseca, de Wado e da percussionista Lan Lan. O repertório será prioritariamente inédito e, além de temas assinados pela própria artista, conterá canções de autoria de Lucas Santtana e Quito Ribeiro (“Tanto Faz para o Amor”), Jr. Almeida e Zé Paulo (“Memória da Flor”) e Alvin L. e Marina Lima (“Deve Ser Assim”).

* O terceiro disco da cantora paraibana Sandra Belê já se encontra disponível. Intitulado “Encarnado Azul”, traz uma sonoridade que remete aos pastoris, conhecidos festejos religiosos nordestinos, muito embora a artista tenha procurado conferir um tom mais contemporâneo aos temas apresentados.

* “Um Labirinto em Cada Pé” é o sugestivo título do novo CD do cantor e compositor Romulo Fróes, nome emergente da cena independente paulista, o qual acabou de chegar ao mercado através da gravadora YB Music. Produzido pelo próprio artista ao lado de Maurício Tagliari, o disco majoritariamente autoral é composto por quatorze faixas, dez delas criadas por Romulo ao lado dos parceiros Clima, Guilherme Held (os dois autores da canção-título), Rodrigo Campos e Nuno Ramos (este assina sozinho três das músicas apresentadas). Um dos mais produtivos autores da nova geração, Romulo possui uma obra musical de catalogação complexa. Suas melodias são tortas e as letras nunca diretas necessitam de esmero para o necessário entendimento, o que decerto dificulta a aceitação delas por um público maior. Isso, contudo, não quer dizer que ele não possua os seus méritos, conforme se pode constatar, por exemplo, através das faixas “Ditado” e “Cilada”, dois dos melhores momentos do repertório ao lado de “O Filho de Deus”. Há as participações especiais de Arnaldo Antunes em “Rap em Latim” e de Dona Inah em “Olhos da Cara” (abrindo o álbum numa tocante interpretação a capella). A cantora Nina Becker é presença ativa, fazendo vocais em seis faixas.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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