Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: CHICO BUARQUE
CD: “CHICO”
Gravadora: BISCOITO FINO

O lançamento de um novo CD de Chico Buarque é sempre um evento. E se assim o foi desde que o artista começou a se destacar com composições como “A Banda”, “Roda Viva” e “Construção”, ainda mais o é agora quando sua produção musical começa a escassear (o seu anterior CD de inéditas foi “Carioca”, lançado há cinco anos). Esse tempo considerável de lançamento entre dois discos, no entanto, não vem se cristalizando somente com Chico, mas com quase todos os grandes expoentes de sua geração como Gilberto Gil, Edu Lobo e Roberto Carlos, por exemplo, o que faz com que, desde quando anunciados, os novos lançamentos desses artistas se tornem bastante aguardados.
Tal não se fez diferente com “Chico”, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Biscoito Fino, após uma bem sucedida campanha de marketing que utilizou com esperteza a internet para ir revelando os “mistérios” em doses homeopáticas. Chico, que já foi considerado unanimidade nacional, em recente entrevista disse ter descoberto que há muita gente que não gosta dele. Se, como diz o ditado, nem Cristo agradou a todos, não poderia ser diferente com Chico, mas o fato é que – goste-se dele ou não – seu nome já está indubitavelmente incluído entre os cinco maiores compositores de toda a história da nossa música popular brasileira.
Com a produção sob a responsabilidade do violonista Luiz Cláudio Ramos, o qual ficou à frente também dos arranjos (simples e sofisticados ao mesmo tempo), o recém-lançado CD é composto por dez faixas, oito delas inéditas (apenas “Sou Eu” e “Se Eu Soubesse” já haviam sido gravadas por Diogo Nogueira e Thaís Gulin, respectivamente). Chico assina a autoria de todas as canções, abrindo-se a parcerias em “Rubatto” (com o baixista Jorge Hélder), “Sou Eu” (com Ivan Lins) e “Sinhá” (com João Bosco).
No geral, trata-se de canções curtas, mas bem resolvidas. Assim, não espere o ouvinte encontrar temas arrebatadores como as antológicas “Olhos nos Olhos”, “O Que Será” e “Vai Passar”. Deparar-se-á, sim, como nunca antes, com um Chico autobiográfico. Logo na toada “Querido Diário”, a faixa de abertura (que, por sinal, foi a última a ser composta), ele se entrega à constatação da piedade alheia sobre sua suposta solidão (essa música, inclusive, vem colecionando polêmicas por conta do verso: “Amar uma mulher sem orifício”). Nessa linha, surgem outros momentos como o blues “Essa Pequena”, um dos destaques do repertório, tema pontuado pelo violino mágico de Nicolas Krassik e através do qual Chico destaca as diferenças entre ele e a amada, enfatizando as questões temporais. Sua inspiração seria a já citada jovem cantora Thaís Gulin, presente como convidada especial na graciosa modinha “Se Eu Soubesse”, música que ressurge em nova versão (no CD dela, lançado em abril, há outro registro dessa mesma música que conta com a intervenção vocal de Chico). A letra inspirada que termina pondo em pólos opostos a opção individual e o destino ganha adorno especial com a sublime harpa executada por Cristina Braga. As demais participações especiais ficam por conta de Wilson das Neves no samba “Sou Eu” e de João Bosco nos vocais da afro “Sinhá”, outro dos melhores momentos. Nesta faixa, os versos contundentes de Chico narram o clamor de um negro que, acusado de ver sua patroa se banhando nua, sofre com as dores do inevitável açoite. O ponto mais alto do set list, no entanto, pertence à valsa “Nina” em cuja letra é retratado o desejo de dois amantes que, embora nunca tenham se visto antes (já que só se conhecem virtualmente), ficam a imaginar como seria o encontro real. Coisa de um gênio como Chico! Completam o repertório as canções “Sem Você 2” (que remete ao clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Barafunda” (sambinha-salsa sem maiores pretensões), “Rubatto” (que, em italiano, quer dizer: o roubo do tempo de uma canção) e “Tipo um Baião” (que se apropria com bastante pertinência de termos característicos da linguagem coloquial moderna).
Chico (que, de fato, nunca foi um cantor extraordinário, mas é dono de uma voz de timbre único que o fez se destacar pelo charme exótico) já sente atualmente o peso dos anos no que tange à potência vocal. Isso, contudo, é somente um detalhe quando se depara com sua monumental obra musical. O novo CD pode até não ser um dos melhores de sua discografia, mas merece um lugar especial posto que ratifica sua habilidade com as palavras e sua sensibilidade com as melodias. Vale a pena conhecer!

N O V I D A D E S

* Feito para exibição no Canal Brasil, o programa Zoombido tem como fio condutor o processo de criação da canção brasileira. Apresentado pelo cantor e compositor Moska, alguns dos registros já foram postos no mercado anteriormente. Mas o produto mais redondo deles acaba de ser lançado através da gravadora Biscoito Fino: trata-se do CD “Zoombido – Volume III”, o qual, composto por doze faixas, traz como convidados Gilberto Gil, Joyce, Sérgio Dias, Celso Fonseca, Zé Renato e Jorge Mautner. Cada um desses artistas se acompanha em duas faixas, sempre em uma delas dividindo os vocais com Moska. Uma ideia bastante interessante que resultou em momentos muito legais, dentre os quais se destacam as faixas “Ela”, “Monsieur Binot”, “Polaróides” e “Fuga nº II”.

* A cantora Nina Becker está vendendo em seus shows o EP “Superluxo”, aquele que foi, de fato, o seu primeiro trabalho gravado. Produzido em 2007 por Kassin e Carlos Eduardo Miranda, o produto é composto por apenas quatro faixas, dentre as quais três assinadas pelo compositor Nervoso. A outra é uma parceria entre Adriana Calcanhotto e o citado Kassin.

* Leci Brandão é conhecida como uma das nossas mais queridas e talentosas sambistas. Dona de voz de bonito timbre e extensão admirável, a cantora, que começou sua carreira fonográfica em meados da década de setenta, flertou, no início, com a MPB em geral. Seus primeiros cinco discos, lançados entre 1976 e 1981, são muito bons e a gravadora Universal, atual dona do acervo da Polydor, ciente disso, acaba de lançar a coletânea “O Canto Livre de Leci Brandão”, CD que reúne dezoito canções lançadas naquele período, além de raridades e registros inéditos, dentre estes a gravação original (e até então nunca disponibilizada) de “Zé do Caroço”. O critério da seleção foram os temas de autoria da própria Leci. Entre os grandes momentos do material selecionado estão as faixas “Questão de Gosto”, “Ombro Amigo” e “Essa Tal Criatura” que figuram entre as primeiras músicas do nosso cancioneiro a abordar a temática gay. Mas há outros destaques, a exemplo de “Deixa, Deixa”, “Não Cala o Cantor”, “Ensopadinho”, “Vamos ao Teatro” e “Ferro Frio”. Imperdível!

* “Pra Desengomar” é o título do terceiro CD do sambista Moyseis Marques que estará sendo lançado em breve pela gravadora Biscoito Fino. Um dos mais bem sucedidos artistas da nova geração, ele mostrará, no novo álbum, composições inéditas suas feitas com Edu Krieger e Zé Renato. Moyseis compôs também “Como o Cravo Quer a Rosa”, música em tributo a Áurea Martins, veterana cantora que fez seu nome na noite carioca. O registro desse tema conta com a participação da homenageada. Outros convidados especiais do aguardado álbum são Leila Pinheiro, Ana Costa, Moacyr Luz e Tantinho da Mangueira.

* Produtor bastante requisitado no mercado fonográfico nacional, Kassin (que, anteriormente, desenvolveu trabalho em trio ao lado de Moreno Veloso e Domenico) está lançando, através da gravadora Coqueiro Verde, o seu primeiro CD solo. Trata-se de “Sonhando Devagar”, o qual foi produzido por ele próprio e contém dez faixas autorais entre parcerias com Alberto Continentino, Sean O’Hagan e o já citado Domenico. A sonoridade (onírica e psicodélica) parece ser propositalmente experimental, o que pode afugentar o ouvinte médio. Entre as faixas mais palatáveis estão “Quando Você Está Sambando”, “Sorver-te” e “Potássio”.

* O poeta André Morais está lançando, de maneira independente, o seu belo CD intitulado “Bruta Flor”. Trata-se de um trabalho voltado para a poesia, no qual os versos inspirados do artista receberam melodias de nomes como Chico César, Carlos Lyra, Sueli Costa, Edu Krieger e Giana Viscardi, entre outros. Citando trechos de textos de Paulo Leminski, Emily Dickson, Baudelaire e Caio Fernando Abreu, André se revela um ótimo cantor. Há as muito bem-vindas participações especiais de Ná Ozzetti, Ceumar, Mônica Salmaso e Tetê Espíndola (estas duas fazendo vocalises sobre os temas “O Canto do Cisne Negro”, de Heitor Villa-Lobos, e “Ave Maria”, de Bach e Gonnoud, respectivamente). Dentre os melhores momentos figuram as faixas “Do Amor”, “Desprimavera”, “Seio” e “Canção Meretriz”. Muito legal!

* A gravadora Som Livre pôs no mercado recentemente a compilação “Plural MPB”. Na verdade, é um CD que reúne, em quatorze faixas, bons encontros entre alguns dos maiores nomes da nossa música. Estão lá, entre outros, Luiz Melodia com Cássia Eller (“Juventude Transviada”), Ana Carolina com Seu Jorge (“Tanta Saudade”), Ana Cañas com Nando Reis (“Pra Você Guardei o Amor”), Marisa Monte com Ed Motta (“Ainda Lembro”) e Thaís Gulin com Tom Zé (“Ali Sim, Alice”).

* Se tudo der certo, grande parte do catálogo do selo Pointer, aberto pelo empresário José Maurício Machline na primeira metade dos anos oitenta, será em breve reeditado. Desta forma, o público atual poderá conhecer títulos como “Garra” (disco lançado por Rosa Maria em 1983) e “Saudade do Futuro” (trabalho de Joyce que chegou às lojas em 1975), além de dois álbuns de Leni Andrade e de “Entre Amigos”, coletânea lançada em 1985 e que contou com gravações inéditas de belas canções nas vozes, entre outros, de Gal Costa, Emílio Santiago e Lucinha Lins.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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