MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A     1

Artistas: JOYCE MORENO e JOÃO DONATO
CD: “AQUARIUS”
Gravadora: BISCOITO FINO

Uma cantora afinadíssima que compõe muito bem se une a um grande pianista que igualmente cria com rara inspiração. O que se poderia esperar de um encontro desses? No mínimo, um disco bacana que é o que acontece com "Aquarius", título que ratifica os talentos da carioca Joyce (que agora assina artisticamente Joyce Moreno) e do acreano João Donato.
Posto nas lojas recentemente pela gravadora Biscoito Fino, o álbum traz, no seu repertório, treze faixas assinadas pelos artistas em dupla, sozinhos ou com os respectivos parceiros. No primeiro caso, encontram-se três boas canções resultantes da parceria entre eles: "No Fundo do Mar", "Luz da Canção" e "E Passa o Carrossel".
Tanto Joyce quanto Donato são artistas que possuem assinaturas musicais bastante pessoais. E tal característica é facilmente constatada nesse disco que foi lançado primeiramente no Japão em 2009 e, no ano seguinte, na Europa. A canção "Amor nas Estrelas" (de Donato e Lysias Enio), um dos melhores momentos do set list (ao lado da suingante "Guarulhos Chá Chá Chá", de Joyce), é um desses exemplos: ainda que o canto sempre límpido e bonito da afinada intérprete tente imprimir um viés interpretativo particular, torna-se fácil a um ouvinte atento sacar na hora que se trata de um tema donatiano.
Produzido por Kazuo Yoshida, o CD traz, como curiosidades, uma nova letra para a conhecida "Amazonas" (de Donato com Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antunes), além da inspirada faixa-título instrumental, assinada apenas por Donato. Joyce – é fato – domina os vocais do trabalho, mas Donato faz interseções preciosas em algumas passagens.
Como compositora, ela homenagem tanto sua terra natal em "Terras Cariocas" como alguns dos seus mais caros mestres em "Caymmi Visita Tom", além do próprio Donato em "Procura o Donato" (parceria com o baixista Jorge Helder) e revisita um de seus primeiros sucessos, a atemporal "Feminina". Por sua vez, Donato traz a lume um ponto afro ("Xangô É de Baê", dele ao lado de Rubem Confete e Sidney da Conceição) e uma oportuna canção de viés romântico ("E muito Mais", outra feita com o irmão Lysias Enio).
Um álbum agradabilíssimo que transcorre macio em qualquer cd player que se preze!

R E S E N H A     2

Cantor: ROGÊ
CD: “BRENGUELÉ”
Gravadoras: COQUEIRO VERDE RECORDS/BOLACHA DISCOS

Em seu quarto CD, o cantor e compositor Rogê tenta ocupar um espaço experimentado com sucesso por Seu Jorge, o do samba com fortes pegadas de funk, pop e rock, o qual foi aberto, lá atrás, por Jorge Ben Jor. Basta que se ouçam canções como "Deixa Ela Sambar", "Presença Forte" e "Minha Glória", por exemplo, para que isso salte aos ouvidos.
Cantor de timbre agradável e dono de forte sotaque carioca, ele chega a dividir com o citado Seu Jorge a autoria de três das doze canções que fazem parte do novo álbum intitulado "Brenguelé" (há mais duas faixas que surgem, ao final, como bônus: "Lagoa" e "Mais Um Mais Uma") que acaba de chegar às lojas através da parceria entre as gravadoras Coqueiro Verde Records e Bolacha Discos.
Produzido pelo cultuado Kassin e idealizado por Rogê ao lado de Francisco Bosco, o trabalho prima por arranjos azeitados com metais que conferem balanço e suingue adequados a canções como "Olê Olê" e “Rema”, dois dos destaques do repertório apresentado. Quase todas as faixas são inéditas e autorais: Rogê apresenta criações suas com diversos parceiros, tais como Marcelinho Moreira, Pretinho da Serrinha e Gabriel Moura, abrindo-se também, no recém-lançado projeto, a outros inspirados colaboradores, a saber: Alvinho Lancelotti, Wilson das Neves e Arlindo Cruz. Os dois últimos, aliás, comparecem respectivamente como convidados especiais nos interessantes temas "Depurando Ideias" (belíssima música!) e "Na Veia" (um samba ao estilo mais tradicional).
De seara alheia, Rogê resgatou o soul "Over Again", composto em inglês por Tim Maia, e trouxe para o seu universo a afro "Efun-Oguedê" (de Nei Lopes e Wilson Moreira). Ainda nesta praia, ele encontrou um apropriado espaço para destilar certo ar de baianidade tanto na ótima faixa-título como em "Tem Tambor".
Quanto aos músicos presentes, um time de primeira linha pode ser encontrado na ficha técnica do disco: há desde os renomados Lincoln Olivetti (teclados), Zé Bigorna (sax tenor) e Paulo Braga (bateria) até nomes emergentes da cena indie atual como Alberto Continentino (baixo), Marlon Sette (trombone) e Felipe Pinaud (flauta).
É um CD bacana que se consolida como um passo adiante na discografia de Rogê, artista que se encontra pronto para ver reconhecidos o talento e a persistência.

N O V I D A D E S

* Seguindo nas merecidas comemorações do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, a gravadora Sony Music anuncia que, ainda este ano, reeditará a discografia completa do Rei do Baião. Os cerca de sessenta títulos serão vendidos de forma avulsa e conterão quase toda a obra musical gravada pelo artista.

* O grupo carioca Sururu na Roda registrou recentemente show de samba realizado no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, com vistas ao lançamento futuro de projeto em CD e DVD ao vivo. Formado por Nilze Carvalho (voz, bandolim e cavaquinho), Silvio Carvalho (voz, cavaquinho e percussão), Fabiano Salek (voz e percussão) e Juliana Zanardi (voz e violão), o Sururu reuniu sucessos dos quatro primeiros álbuns, além de temas inéditos e regravações alheias, contando com as participações especiais de Diogo Nogueira, Dona Ivone Lara, Monarco e Péricles.

* Maria Alcina despontou para o sucesso quando defendeu a canção “Fio Maravilha” (de Jorge Ben Jor), no Festival Internacional da Canção Popular, em 1972. Em seguida, engatou alguns outros hits (como “Alô, Alô” e “Kid Cavaquinho”, por exemplo), mas teve que enveredar, nos anos oitenta, por canções mais populares para não cair no ostracismo. Aproveitando a oportuna onda de revival pelo qual passa atualmente o nosso mercado fonográfico, ela vem participando, de uns tempos pra cá, de vários projetos especiais e planeja lançar, ainda este ano, um CD recheado de material inédito. Enquanto tal projeto não chega às lojas, seus fãs podem matar a saudade com a coletânea que reúne, dentro da série “Super Divas” (recentemente lançada pela gravadora EMI e idealizada pelo pesquisador musical Rodrigo Faour), dezessete faixas gravadas por ela entre discos de carreira e compactos avulsos. Estão lá desde as hilárias “Doida, Bonita e Gostosa” (de Jorge Alfredo e Chico Evangelista) e “Tum Tum” (de Rita Lee e Roberto de Carvalho) até as escrachadas “Bacurinha” (tema de domínio público recolhido por Gambier) e “Prenda o Tadeu” (de Antônio Sima e Clemilda), passando por regravações de músicas que ficaram famosas nas vozes de Carmen Miranda e Emilinha Borba (“Chica Chica Boom Chic” e “Escandalosa”, respectivamente). Alguns dos melhores momentos ficam por conta da deliciosa “Tutu à Mineira” (de Dedé Paraíso), da melosa “Quase” (de Mirabeau e Jorge Gonçalves), da atualíssima “O Aperto” (de Bráulio de Castro) e da sensual “Folia no Matagal” (de Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes, popularizada na voz de Ney Matogrosso). As novas gerações precisam conhecer Maria Alcina!

* Através da gravadora Fina Flor, o cantor e compositor Augusto Martins está lançando seu mais novo CD. Intitulado “Felizes Trópicos”, o álbum é composto por uma dúzia de faixas, metade delas composta pelo próprio artista ao lado de parceiros (apenas “Baobá” ele assina sozinho). Bom cantor, Augusto alcança os melhores resultados como autor com os temas “Acho que Esperei Demais” (dele, Guilherme Holanda e Sérgio Coelho) e “Ela É” (parceria com Paulinho Athayde). Produzido por Humberto Araújo e contando com a Orquestra Criôla na execução dos arranjos, o trabalho é dedicado a João Donato, presente ao piano em “Enquanto a Gente Namora” (feita por ele ao lado de Thalma de Freitas). O outro convidado do disco é o cantor Moska que divide os vocais de “Vai por Mim”. Outros destaques do repertório ficam por conta das faixas “Refém” (de Fred Martins e Marcelo Diniz) e “Bantu-Tupi” (de Francis Hime e Celso Viáfora).

* O PianOrquestra é um quinteto carioca formado por quatro pianistas brasileiros e uma percussionista japonesa e, em breve, estará lançando o projeto “Multifonias” nos formatos CD e DVD, o qual foi registrado durante show realizado em junho passado na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro. O repertório, recheado de ritmos brasileiros, conta com músicas de Milton Nascimento, Gonzaguinha, Edu Lobo, Chico Buarque e Dorival Caymmi. A cereja do bolo são as participações especiais das cantoras Maíra Freitas, Manu Santos, Mariana Baltar, Mônica Salmaso e Teresa Cristina.

* O selo Sesc está repondo em catálogo nova edição do belo CD “Chiquinha em Revista”, uma merecida homenagem à compositora e musicista Chiquinha Gonzaga. O álbum foi produzido pelo baixista Gilberto Assis com direção musical e arranjos assinados por ele e pela pianista Ana Fridman e traz, no primoroso repertório, treze faixas, sete delas temas instrumentais. As cantadas receberam as vozes de Ná Ozzetti, Vange Milliet, Rita Maria, Suzana Salles e Carlos Careqa. Luxo só!

* O registro ao vivo do show “Elétrico”, realizado em outubro do ano passado por Lobão em São Paulo, deverá chegar às lojas, nos formatos CD e DVD (sob o sugestivo título de “Lindo, Sexy & Brutal”), até o final deste ano. O repertório alinha diversas canções do próprio artista, inclusive algumas inéditas, e a sua personalíssima releitura para “Ovelha Negra”, grande sucesso de Rita Lee.

* Gravado em dezembro de 2008 na sala São Paulo, está chegando às lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o registro em CD do “Concerto Antropofágico”, o qual foi executado pela OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) ao lado do Quinteto Pau Brasil. Dividido em três movimentos (“O Estado Natural”, A Visão do Paraíso” e “Misturança das Três Raças”), o Concerto remete à época em que a OSESP tinha o maestro John Neschling como regente. Como convidada especial, a cantora Mônica Salmaso aparece à frente de algumas declamações e, em seguida, empresta sua sublime voz aos temas “Kaô” (de Rodolfo Stroeter e Gilberto Gil), “O Velho Francisco” (de Chico Buarque) e “Melodia Sentimental” (de Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcellos).

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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