MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A

Cantora: MARIA RITA
CD: “REDESCOBRIR”
Gravadora: UNIVERSAL

Ok, ninguém mais revestida de legitimidade para prestar merecido tributo pelos trinta anos de falecimento de Elis Regina do que sua filha Maria Rita! Por isso o estardalhaço em torno do lançamento do CD duplo intitulado “Redescobrir” (também disponível em DVD), o qual chegou recentemente às lojas, marcando a entrada da artista no cast da gravadora Universal. E certamente também porque, no início de sua carreira, ela propagava aos quatro cantos querer evitar qualquer comparação com Elis, a maior cantora da história da nossa MPB.
Derivado do projeto “Viva Elis” (patrocinado pela empresa de cosméticos Nívea), o novo trabalho foi gravado durante apresentação realizada em agosto deste ano no Credicard Hall, em São Paulo, e eterniza imagens de Maria Rita grávida de sua segunda cria. O pai, o guitarrista Davi Moraes (filho de Moraes Moreira), é agora o novo integrante da banda que a acompanha, composta ainda por Tiago Costa (piano), Sylvinho Mazzucca (contrabaixo) e Cuca Teixeira (bateria).
Maria Rita é uma pessoa corajosa. Enfrentar um repertório praticamente formado por clássicos do nosso cancioneiro, os quais mereceram registros antológicos de Elis, realmente merece farta dose de autoconfiança. Ela começou artisticamente com o pé direito, lançando, em 2003, um belíssimo CD homônimo que a apresentou com galhardia ao público. Mas depois de um segundo álbum morno (“Segundo”, de 2005), mergulhou precipitadamente no universo do samba de raiz (“Samba Meu”, de 2007) até que, somente para cumprir contrato com a gravadora anterior, a Warner, pôs nas lojas o seu disco mais insosso (“Elo”, de 2011).
Em entrevistas dadas visando à divulgação do atual projeto, Maria Rita já afirmou ter mais uma quantidade de canções gravadas por Elis que ficaram de fora do atual projeto e que gostaria de cantar. Seria um alerta para um “Redescobrir – Volume 2”? E vem alardeando também um desejo de visitar a obra de Caetano Veloso, um compositor de fato fenomenal, mas que – frise-se – vem tendo suas canções regravadas à exaustão. Seria um aviso para um “mais do mesmo”? Elis – sabe-se – foi certamente a intérprete brasileira que mais lançou valores novos. Infelizmente, Maria Rita parece não ter o mesmo tino ou vontade.
Não é que a atual homenagem feita à mãe seja ruim. Porém, se não fosse Maria Rita quem é, certamente não seriam jogadas tantas luzes. Não bastassem muitos dos arranjos das vinte e oito faixas soarem reverenciosos demais aos originais (caso, por exemplo, de “Águas de Março”, “Madalena”, “Maria, Maria” e “Alô, Alô, Marciano”), impossível não ligar alguns cacoetes (ainda que no bom sentido) coincidentes entre as duas e, para quem sempre informou odiar comparações, esses poderiam ter sido evitados (ou, na pior das hipóteses, amenizados). Em tempo: sabiam que Maria Rita não acha que sua voz lembre a da mãe? Pois é! Todavia reconhece que “a dela tem mais brilho e é mais cheia, uma coisa de garganta mesmo, de músculo”. Ainda bem!
A maior parte do repertório é formada pelos grandes sucessos da carreira de Elis (raríssimas são as exceções incluídas como “Imagem”, “Agora Tá” e “Bolero de Satã”, temas menos conhecidos). E se há a releitura da derradeira canção registrada por Elis antes de sair de cena tão precocemente (“Me Deixas Louca”, incluída na trilha sonora da telenovela global “Salve, Jorge!”), Maria Rita resgatou “Doce de Pimenta”, música nunca de fato gravada pela mãe em sua discografia oficial, mas que foi composta especialmente para ela por Rita Lee, numa alusão ao apelido “Pimentinha” que remetia ao gênio supostamente difícil de Elis.
Há momentos, sim, em que Maria Rita se mostra segura e à vontade (“Ladeira da Preguiça”, “Como nossos Pais” e “Fascinação” estão entre eles), mas em outros não dá para deixar de constatar a superioridade vocal inequívoca de Elis (“Arrastão”, “Se Eu Quiser Falar com Deus” e “Onze Fitas” ilustram bem isso). Alguns dos destaques do set list ficam por conta das novas versões de “Vida de Bailarina” (em clima bluesy), “Saudosa Maloca” e “Menino”.
Passada a fase de homenagens, tomara que Maria Rita possa seguir em frente, doravante “descobrindo” ao invés de “redescobrir”…

N O V I D A D E S

* Já pode ser adquirido, embora apenas diretamente através do site oficial do artista, “Sei”, o novo CD do cantor e compositor Nando Reis que traz a banda Os Infernais, que o acompanha há alguns anos, participando ativamente dos arranjos. Totalmente inédito e autoral, o álbum, gravado em Seattle (EUA), foi produzido por Jack Endino. São quinze canções que denotam o momento pessoal pelo qual Nando vem passando, além de mostrá-lo revolvendo sentimentos e assumindo preferências. Já na primeira faixa, “Pré-Sal”, ele traz a lume imagens soltas em uma quilométrica letra que causa inveja à melhor das memórias. Se a homenagem à esposa (que já foi ex e é mãe de quatro dos seus cinco filhos), expressa no rock “Back in Vânia”, serve para apresentar um relato praticamente autobiográfico, a balada “Luz Antiga” parece ter sido composta especialmente para ser interpretada pela saudosa Cássia Eller. E enquanto a pop “O Que Eu Só Vejo em Você” reproduz, no refrão, famoso verso propagado por Lulu Santos, a bonita faixa-título já começa a ser conhecida do grande público uma vez que faz parte da trilha sonora da ótima telenovela global “Lado a Lado”. Ela é, de fato, um dos destaques do repertório, juntamente com a romântica e bem-construída “Declaração de Amor” e a interessante e corajosa “Zero Muito” (ambas candidatas a hits). A cantora Marisa Monte (que já flertou com Nando em tempos pretéritos) é a convidada especial da bonita e soturna “Pra Quem Não Vem”, mas é uma pena que, em momento algum, ela tome a linha de frente. No geral, um CD bacana que vale a pena ser conhecido!

* Já se encontra disponível o álbum instrumental “CosmeDamião” que une os talentos do pianista Fernando Moura e do percussionista Ary Dias (ex A Cor do Som). Do repertório constam, além de canções autorais, temas assinados por Chick Corea, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

* A gravadora Deck está lançando o CD em que a cantora Teresa Cristina abandona temporariamente o samba para mergulhar no universo de Roberto Carlos no início da carreira. Trata-se de “Teresa Cristina & Os Outros Cantam Roberto Carlos” que traz, no repertório, canções conhecidas como “Proposta”, “Sua Estupidez” e “As Curvas da Estrada de Santos”.

* O novo CD de Marcelo D2, que se intitula “Nada Pode me Parar”, está chegando ao mercado contendo dezesseis faixas. Há as participações de Sain & Hélio Bentes em “Eu Já Sabia” e da rapper norte-americana Joya Bravo em “Feeling Good”.

* Para marcar o centenário de nascimento do compositor Herivelto Martins, a gravadora EMI lançou recentemente o CD duplo intitulado “Faça de Conta que o Tempo Passou”, acondicionando trinta e seis canções criadas pelo artista ao longo da carreira. Autor inspirado, ele também protagonizou, ao lado da cantora Dalva de Oliveira (com quem foi casado e teve dois filhos), um polêmico relacionamento amoroso que terminou ganhando as manchetes dos jornais da época e resultou em várias canções onde ambos se alfinetavam mutuamente e expunham suas ironias, dores e decepções. Para o público de hoje em dia, trata-se de uma oportunidade excepcional de conhecer pérolas românticas do nosso cancioneiro, as quais ultrapassam gerações, a exemplo de “Caminhemos”, “Bom Dia”, “Cabelos Brancos”, “Pensando em Ti”, “A Camisola do Dia”, “A Bahia te Espera”, “Segredo”, “Atiraste uma Pedra”, “Praça Onze” e “Ave Maria no Morro”, cantadas por um time estelar de intérpretes da nossa MPB do qual fazem parte, entre outros, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Francisco Alves, Elza Soares, Maria Bethânia, Miltinho, Sylvio Caldas, Nara Leão, Linda Batista e Alcione. Um item realmente obrigatório em qualquer cedeteca que se preze!

* Gabriel O Pensador está lançando um novo CD que traz como destaque a faixa “Surfista Solitário”, gravada com a participação especial de Jorge Ben Jor.

* O selo carioca Discobertas está pondo no mercado dois boxes (cada um com sete CDs), os quais condensam canções que participaram de festivais históricos. O volume 1 dos “Festivais da Canção” abarca o período de 1966 a 1968 e traz, entre vários outros, temas que se tornaram clássicos do nosso cancioneiro, a exemplo de “Saveiros”, “Travessia”, “Carolina”, “Sabiá”, “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” e “Andança” nas vozes de importantes intérpretes tais como Elis Regina, Beth Carvalho, Clara Nunes, Nana Caymmi, Wilson Simonal, Maria Creuza, Miltinho, Milton Nascimento e Elza Soares. Já o volume 2 cobre de 1969 a 1972 e traz belas músicas como “Cantiga por Luciana”, “Sagarana”, “Gotham City”, “Se Todos Fossem Iguais a Você”, “Universo no teu Corpo”, “BR-3”, “Feira Moderna”, “Desacato”, “Casa no Campo”, “Let Me Sing, Let Me Sing”, “Fio Maravilha” e “Eu Quero É Botar meu Bloco na Rua” cantadas por gente do porte de Taiguara, Evinha, Alceu Valença, Martinho da Vila, Maysa, Cláudia, Jards Macalé, Toni Tornado, Wanderléa, Marlene, Alaíde Costa e Maria Alcina.

* E é também o selo Discobertas que está lançando o primeiro DVD de seu catálogo, até agora unicamente voltado para CDs. Trata-se do vídeo referente ao programa dedicado a João Donato na série MPB Especial da TV Cultura, o qual foi levado ao ar em 1975 sob a direção de Fernando Faro.

* Coube a David Corcos a produção de “Saturno”, o novo CD do Capital Inicial, já disponível nas melhores lojas. Com trinta anos de carreira, a banda (que tem Dinho Ouro Preto como vocalista) construiu um disco com som pesado, a exemplo de faixas como “O Lado Escuro da Lua” e “Sol Entre Nuvens”.

* “Água” (1977), “Banho de Cheiro” (1978) e “Estrela Radiante” (1979), os três melhores álbuns da carreira da vigorosa cantora paraense, estão voltando às lojas em um box intitulado “Três Tons de Fafá de Belém”, produzido pela Universal Music dentro da coleção de reedições de títulos do acervo da gravadora. O ouvinte poderá se deleitar com grandes interpretações da intérprete para músicas atemporais como “Raça”, “Pauapixuna”, “Ontem ao Luar”, “Foi Assim”, “Dentro de Mim Mora um Anjo”, “Maria Solidária”, “Moça do Mar”, “Gostoso”, “Sob Medida”, “Temporal”, “Pacará” e “Que me Venha Esse Homem”, entre várias outras. Trata-se realmente de um lançamento imperdível que pode servir como um belo presente para o Natal que se aproxima!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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