Musiqualidade

0

R E S E N H A

Cantora: MARIENE DE CASTRO
CD: “SER DE LUZ”
Gravadora: UNIVERSAL

A baiana Mariene de Castro tinha, na infância, o sonho de ser bailarina, mas, no começo da adolescência, decidiu aprender violão. Daí para se apaixonar pelo canto foi só um pulo e ela, assim, começou a se apresentar em diversos locais de sua cidade. Profissionalmente, sua carreira teve início como vocalista dos conterrâneos Carlinhos Brown, Márcia Freire e da banda Timbalada. O primeiro show solo aconteceu em 1996 no Pelourinho, e foi o que lhe possibilitou, logo em seguida, uma turnê pela França. Em 2004, gravou o CD de estreia, “Abre Caminho”, muito bem recebido pela crítica especializada, e despertou o interesse da gravadora Universal que a contratou. Através da multinacional, Mariene pôs nas lojas mais dois discos (“Santo de Casa” e “Tabaroinha”) com os quais começou de fato a ser conhecida por um público maior, objetivo principal de todo artista, e também o projeto “Ser de Luz” (em parceria com o Canal Brasil), o qual acaba de ser lançado nos formatos CD (com dezesseis faixas) e DVD (este com cinco números adicionais).
Trata-se uma merecida homenagem à cantora mineira Clara Nunes, uma das maiores vozes da história da nossa música popular, que nos deixou de forma precoce há trinta anos. Assim como Clara, Mariene também não compõe e como ela tem o samba como base para o seu trabalho. Mas o samba de Mariene é mais regional: egressa do samba-de-roda do recôncavo e enamorada dos sons afro-brasileiros e do forró, ela faz questão de deixar isso claro através dos novos arranjos dados às canções escolhidas para compor o recém-lançado álbum, dos quais se destacam um apropriado acordeão e uma bem-vinda cama percussiva.
Produzido pelo experiente Alceu Maia (que dá o ar da graça arrebentando no cavaquinho), destacam-se ainda, na sonoridade adotada, o baixolão (substituindo o tradicional baixo) e a viola caipira. Gravado ao vivo durante apresentação realizada pela cantora, em outubro do ano passado, no Espaço Tom Jobim (RJ), o projeto conta com as participações especiais de Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira (em “Coisa da Antiga” e “Juízo Final”, respectivamente), além de três pastoras da Velha Guarda da Portela (Tia Surica, Neide Sant'Anna e Áurea Maria).
Mariene – é fato – possui boa presença de palco, embora ainda se mostre um pouco tímida em algumas passagens. Dona de voz firme, seu timbre de contralto a diferencia da média atual das cantoras agudinhas que assolam o nosso Brasil tropical. A aposta em ligá-la à figura de Clara Nunes tem resultado imprevisível. Se, por um lado, torna-se claro que isso lhe proporcionará boa visibilidade, por outro pode cercear a sua identidade musical. Só o tempo dirá, portanto, se Mariene saberá usar a seu favor o fato de a indústria estar, a todo custo, querendo encontrar uma substituta para a Guerreira.
O repertório foi selecionado junto aos grandes sucessos colecionados por Clara durante sua vitoriosa trajetória (e olhe que não foram poucos!). E isso também é uma faca de dois gumes pois se por um lado desencavará emoções escondidas em toda uma geração com mais de quatro décadas de vida, por outro pode incitar a uma comparação instintiva entre os novos registros de Mariene e as gravações originais de Clara, quase todas antológicas. Entre os momentos mais interessantes das releituras apresentadas estão “Minha Missão”, “Feira de Mangaio”, “Coração Leviano” e “Portela na Avenida”.
O único ponto realmente incontestável e salutar é que os nossos jovens poderão tomar contato com pérolas como “Menino Deus”, “Morena de Angola”, “Canto das Três Raças”, “O Mar Serenou”, “Conto de Areia” e “Sem Companhia”, além do que os novos sambistas terão uma verdadeira aula de música ao se deparar com material de tamanha qualidade. Áh, que saudades, Clara!

N O V I D A D E S

* A cantora, compositora e violonista Badi Assad está lançando, através da gravadora YB Music, o CD intitulado “Amor e Outras Manias Crônicas”, após um hiato de seis anos, período em que teve a filha Sofia e fez questão de acompanhá-la nos primeiros tempos de vida. Nascida em uma família de exímios músicos, a artista paulista enveredou, ainda na infância, pelo caminho das artes, tendo chegado a se formar em violão já no Rio de Janeiro. Foi a vencedora, em 1984, do Concurso Jovens Instrumentistas e, a partir daí, passou a explorar novas possibilidades com a voz e a percussão do próprio corpo. Estreou no mercado fonográfico cinco anos depois com um elogiado trabalho instrumental e, em seguida, engatou uma carreira internacional de sucesso. O recém-lançado álbum é composto por quatorze faixas, treze delas autorais (a única exceção é a vinheta “Noite”, de Swami Jr.) e tem a produção dividida entre o baterista e percussionista Guilherme Kastrup e o baixista e guitarrista Márcio Arantes. Badi é afinada por natureza e possui bons lampejos como autora, a exemplo do que acontece com as faixas “Noite de São João”, “Mulheres e Cunhatãs”, “O Barco Daqui de Dentro” e “Saudade Verdade Sorte” (esta, uma parceria com Pedro Luís), os destaques do repertório. Os arranjos, por seu turno, valorizam o lado percussivo das canções e fazem com que a obra de Badi ganhe um peso a mais, o que só lhe beneficia. Vale a pena conhecer!

* A gravadora Universal vai fazer voltar ao catálogo, até o final deste mês, alguns álbuns da Nara Leão, talento que despontou na época dos festivais e teve seu nome associado tanto à Bossa Nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes quanto ao Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. A voz suave da saudosa cantora poderá ser relembrada através da caixa “Nara Leão – Samba, Festivais e Tropicália”, a qual condensa, devidamente remasterizados, os dez títulos por ela gravados durante a década de sessenta do século passado.

* Ainda neste primeiro semestre estará chegando ao mercado nacional um novo CD de Joyce. Intitulado “Tudo”, o álbum foi lançado no Japão no ano passado e traz, no repertorio, treze canções inéditas e autorais, algumas criadas com parceiros como Teresa Cristina, Zé Renato e Paulo César Pinheiro. Enquanto as faixas “Boiou” e “Claude et Maurice” contam com arranjos vocais de Maurício Maestro, o samba “Puro Ouro” recebe a adesão de Alfredo Del Penho, João Cavalcanti, Moyseis Marques e Pedro Miranda nos vocais.

* O primeiro DVD do bloco afro Ilê Aiyê foi gravado no finalzinho de janeiro durante show realizado na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Sob a produção musical do competente Arto Lindsay, a galera contou com as participações especiais de Daniela Mercury, Margareth Menezes e Carlinhos Brown. Em breve, nas lojas!

* E por falar em Brown, a troca de gentilezas entre ele e o cantor Daniel feitas durante o programa “The Voice Brasil”, exibido no ano passado pela Rede Globo, se concretiza agora com o fato de este ter regravado a canção “Tantinho”, de autoria daquele, e tê-la disponibilizado para download gratuito em seu site oficial. Muito massa esse intercâmbio de influências musicais!

* O tecladista carioca Mu Carvalho (ex integrante do lendário grupo A Cor do Som) encontra-se em estúdio gravando um CD dedicado à obra de Ernesto Nazareth, um dos pioneiros na criação de choros e maxixes.  Quem viver, ouvirá!

* Leo Russo é mais um cantor carioca projetado no circuito de samba do bairro da Lapa (RJ). Ele estará lançando, ainda neste primeiro semestre, o seu primeiro CD, o qual está sendo produzido pelo veterano Rildo Hora. O trabalho contará com as participações de integrantes da Velha Guarda da Portela, além de Beth Carvalho e Dudu Nobre.

* Chegará ainda neste primeiro semestre às lojas o quarto CD solo do paulista Sérgio Britto, integrante ativo da banda de rock Titãs.  Sugestivamente intitulado de ”Pura Bossa Nova”, o álbum foi produzido a quatro mãos por Emerson Villani e Guilherme Gê e apresentará uma dúzia de canções autorais e inéditas. Há as participações especiais das cantoras Alaíde Costa, Rita Lee, Roberta Sá e Marcela Mangabeira, além da argentina Eugênia Brusa.

* E para os muitos fãs de Seu Jorge aqui vai uma notícia muito bacana: o cantor e compositor carioca já se encontra em estúdio registrando as canções que comporão o seu próximo trabalho, o qual trará a assinatura do disputado Mario Caldato na produção. O repertório alinhará temas inéditos a algumas releituras. Haverá a participação do violinista e arranjador norte-americano Miguel Atwood-Ferguson, conhecido nos EUA por ter unido o mundo da música erudita ao universo do hip hop.

* Este blog se solidariza, como de fato assim o faz também o Brasil inteiro, com a família do artista Dominguinhos, o qual passa atualmente por uma fase muito delicada no tocante à sua saúde. Cantor, compositor e o maior sanfoneiro do País na atualidade, ele foi escolhido pelo próprio Luiz Gonzaga, nosso eterno Rei do Barão, como seu sucessor. Que o grande Domingos possa sair dessa o quanto antes para voltar a animar muitos arrasta-pés com seu talento e simplicidade ímpares!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

Comentários

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais