Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: GUILHERME ARANTES
CD: “CONDIÇÃO HUMANA (SOBRE O TEMPO)”
Gravadora: INDEPENDENTE

O cantor, compositor e pianista Guilherme Arantes começou sua carreira, nos anos setenta do século passado, como tecladista e vocalista da banda Moto Perpétuo, um grupo de rock progressivo, mas antes dessa empreitada chegou a fazer parte do grupo que acompanhou Jorge Mautner. Paulista, Guilherme estudou arquitetura, mas a música lhe falou mais alto desde cedo, tanto que, em 1976, lançou o primeiro disco, o qual, de cara, estourou de norte a sul do Brasil com a canção "Meu Mundo e Nada Mais" que fez parte da trilha sonora da primeira versão da telenovela global "Anjo Mau". Em seguida, emplacou outros temas de sucesso e, em 1981, alcançou o topo das paradas com “Planeta Água”, compondo, ato contínuo, belas canções para especiais infantis também levados ao ar pela Rede Globo, a exemplo de “Lindo Balão Azul”, “Brincar de Viver” e “Xixi nas Estrelas”. Com vários hits em seu currículo (“Amanhã”, “Cheia de Charme”, “Coisas do Brasil”, “Fã Número 1”, “Aprendendo a Jogar” e “Deixa Chover”, por exemplo) e sendo gravado por grandes nomes da nossa MPB (Elis Regina, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Leila Pinheiro, Zizi Possi, Fafá de Belém, entre outros), Guilherme foi injustamente, nas últimas duas décadas, relegado a um segundo plano pelo mercado fonográfico nacional.
Residindo em Salvador (BA) já há alguns anos, o artista acaba de lançar um novo CD, inteiramente gravado em seu Estúdio Coaxo de Sapo, situado em Barra do Jacuípe (em Camaçari), o qual se fez concretizado de maneira independente. Trata-se de “Condição Humana (Sobre o Tempo)”, produzido por ele ao lado de Gabriel Martini e Pedro Arantes e que traz, no repertório, dez canções inéditas, todas elas criadas somente por ele.
A sonoridade escolhida para esse novo trabalho, o vigésimo sexto de sua discografia, remete o ouvinte a alguns de seus álbuns de maior aceitação lançados na fase áurea da carreira. Isso se faz por constatar logo na faixa de abertura, a interessante canção-título, através da qual o artista questiona equivocadas opções humanas em valorizar vaidade e luxo quando, por enquanto ainda sozinhos no universo, estamos é, na verdade, revestidos de grande fragilidade. Na pop “Onde Estava Você”, é trazida a lume a ausência de um amigo num momento necessário da vida, tema que contrasta com a quantidade considerável de colegas presentes nos vocais da faixa: quatorze ao todo, entre eles, Tulipa Ruiz, Duani, Curumin, Tiê, Thiago Pethit e Mariana Aydar. Aliás, aqui também o guitarrista Edgard Scandurra comparece, como convidado, executando com a costumeira maestria o seu instrumento.
Outros bons momentos do repertório ficam por conta de “Moldura do Quadro Roubado” (uma crítica voraz ao caos atual, especialmente na América Latina, que se faz adornado por corruptos e falsos pastores) e “O Que Se Leva” (que, ao tecer um inventário do passar do tempo, conta com a participação especial de Marcelo Jeneci nos vocais e também tocando acordeão).
Acompanhado por uma banda enxuta e competente composta por Luiz Sérgio Carlini (guitarra), Alexandre Blan (violão), Willy Verdaguer (baixo) e o já citado Gabriel Martini (beteria e percussão) e em boa forma vocal (bem melhor, aliás, do que vinha registrando em álbuns anteriores), Guilherme continua a exalar romantismo em baladas como “Tudo Que Eu Só Fiz Por Você”, “Oceano de Amor” e “Castelo do Reino”, as quais, se incluídas em trilhas de produções televisivas, certamente terão consideráveis chances radiofônicas. Completam o repertório as medianas “Cruzeiro do Sul”, “Olhar Estrangeiro” e “Você em Mim”.
O fato é que, em boa hora, Guilherme Arantes apresenta mais um CD que comprova que a chama de seu telento continua acesa. Oxalá seja o mesmo bem recebido pelo público que sempre ouve e canta suas canções mais conhecidas, mas que precisa também se abrir às mais recentes criações… Conheça!

N O V I D A D E S

* Maria de Medeiros é atriz portuguesa que também canta. Ela está lançando, aqui no Brasil, o CD intitulado “Pássaros Eternos” através de uma parceria entre a Genesis Music e a Tratore. Composto por dez faixas, o álbum mostra uma intérprete esperta que, ciente de suas limitações vocais (embora possua um timbre agradabilíssimo de ouvir), sabe fazer uso de vários artifícios para amenizá-las, inclusive um canto quase que falado em alguns momentos. A única canção brasileira presente no repertório, “Aos Nossos Filhos” (de Ivan Lins e Vitor Martins, consagrada nacionalmente por conta da gravação magistral de Elis Regina), por exemplo, se ressente, na releitura apresentada, de uma maior pungência, mas o arranjo ressalta interessantes contornos jazzísticos. Também compositora, Maria alterna bons momentos criativos (“Quem É Você?” e “Diz que É Fado”) com outros tão somente medianos (“O Canto da Pantera” e “Nasce o Dia na Cidade”). Entre os melhores momentos estão o blues “Noite” e as incursões da cantora por temas com letras em italiano (“24 Mila Baci”, de Celentano, Vivarelli e Fulci) e inglês (“Shadow Girl”, dela em parceria com o guitarrista Legendary Tigerman, o qual participa dos vocais da faixa como convidado especial). Há ainda poema de Sophia de Mello Breyner Andresen musicado por Maria (“Por Delicadeza”) e insuspeito samba (“Trapichana”) que, não obstante inspiradamente composto, comprova o quanto é difícil cantar o mais genuíno dos gêneros musicais brasileiros, ainda que misturado com toques flamencos.

* Produzido por Mario Caldato, o novo CD de Seu Jorge está sendo gravado nos Estados Unidos e trará diversos convidados que vão da nossa brasileiríssima Marisa Monte aos norte-americanos Erykah Badu, Mos Def e Miguel Atwood-Ferguson. Nas lojas no segundo semestre.

* A Cia. O Teatro Mágico está lançando “Recombinando Atos”, o terceiro DVD da aplaudida carreira, o qual traz, no repertório, quatro músicas inéditas. Trata-se do registro audiovisual do espetáculo baseado em “A Sociedade do Espetáculo”, o terceiro álbum do grupo paulista.

* E os fãs do Los Hermanos esperam com ansiedade o lançamento de “Cavalo”, o primeiro CD solo de Rodrigo Amarante, o que deverá se dar em junho. Enquanto isso efetivamente não acontece, ele já disponibiliza na internet mais uma canção que fará parte do aguardado álbum. Trata-se da melancólica “Tardei”, bem diferente de “Maná”, a primeira faixa divulgada.

* “Somos Tão Jovens” é o título do filme que conta a história de Renato Russo, desde sua adolescência até a formação da banda Legião Urbana. Já em exibição em circuito nacional, o longa-metragem possui, na sua trilha sonora também já disponível através da gravadora Universal, vários sucessos como “Ainda é Cedo”, “Tempo Perdido”, “Geração Coca-Cola” e “Que País É Esse?, todos nas vozes dos próprios atores, a saber: Thiago Mendonça (Renato Russo), Conrado Godoy (Marcelo Bonfá) e Nico Villa-Lobos (Dado Villa-Lobos).

* Caberá à gravadora Som Livre pôr no mercado, nos formatos CD e DVD, o novo projeto da cantora Roberta Miranda, um registro ao vivo de show feito sob a produção de Luiz Carlos Maluly. Entre inéditas e regravações (como “Café da Manhã”, hit setentista de Roberto Carlos, composta ao lado de Erasmo Carlos), a artista vai contar com a participação especial da colega Alcione.

* O DVD “Estrela da Canção Popular” chegou recentemente às lojas através da gravadora Lua Music mostrando o quanto o Brasil ainda precisa reverenciar Ângela Maria, uma das maiores vozes já surgidas em terras tupiniquins. Nele, a intérprete de grandes sucessos românticos recorda momentos marcantes de sua trajetória tendo como base o registro do show realizado em maio do ano passado no Teatro Fecap (SP). Do repertório fazem parte canções como “Gente Humilde” (de Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque), “Vida de Bailarina” (de Américo Seixas e Chocolate) e “Pra Você” (de Silvio César). Cauby Peixoto surge em algumas passagens como em “Brigas” (de Jair Amorim e Evaldo Gouveia), por exemplo. Há ainda clipes filmados em 1973 e 1975 (“Babalu”, para o programa “Fantástico” da Rede Globo, e “Mamãe”, para o especial da TV Cultura, respectivamente).

* “4 Elementos” é o título do novo CD do percussionista Naná Vasconcelos que estará disponível no próximo mês. As composições são inéditas e inspiradas nos quatro elementos fundamentais da natureza: água, ar, terra e fogo. Há faixas em homenagens ao também percussionista Airto Moreira e à cantora Clementina de Jesus. Legal!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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