MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A    D E    C D    1

 

Cantora: MART’NÁLIA

Título: “MENINO DO RIO”

Gravadora: BISCOITO FINO / QUITANDA

 

Cantora que nasceu para o palco, posto que é lá que seu talento se mostra por inteiro, transparecido através de sua alegria contagiante e de uma qualidade inata para hipnotizar platéias, a carioquíssima Mart’nália está lançando um novo CD, através do qual tenta exaltar a beleza e malandragem de sua terra natal, o que já se explicita através do título escolhido para o trabalho: ”Menino do Rio”, uma das mais belas e inspiradas canções do mago Caetano Veloso, imortalizada pela gravação impagável de Baby Consuelo feita em 1979.

O disco recém-lançado chega ao mercado através de uma parceria entre a gravadora Biscoito Fino e o selo Quitanda, de propriedade de Maria Bethânia. Esta se mostra uma grande admiradora de Mart”nália, cantora que carrega o samba literalmente nas veias (como, aliás, atesta na faixa de abertura “Pra Mart’nália”, inspirado partido alto de Fred Camacho e Jorge Agrião), já que é filha de Martinho da Vila. Bethânia é a responsável pela direção e produção artística do CD, permitindo-se dividir a produção musical com o seu maestro de há anos, o competente Jaime Alem.

O Brasil inteiro conhece Bethânia e a forma vigorosa como conduz o seu trabalho. Sabe do extremo zelo que tem para com tudo o que faz. Famosa por suas interpretações viscerais, a baiana vem, contudo, ao longo da última década, domando o seu canto e gravando canções de uma maneira mais delicada. Esta nova postura terminou sendo repassada para o disco de Mart’nália e se por um lado abre possibilidades, por outro, em alguns momentos, termina por aprisionar Mart’nália e a podá-la naquilo que de mais interessante ela possui: a sua espontaneidade. Isso fica claro inclusive na foto escolhida para a capa. Ali, vê-se uma artista sisuda, o que lhe é totalmente distante da personalidade.

Todavia, não se trata de um disco ruim. Pelo contrário. Mart’nália tem timbre muito bonito com uma voz sensualmente rouca e vem crescendo enquanto compositora (“Sem Perdão, a Vida é Triste Solidão”, parceria com Ana Costa e Zélia Duncan, “Pretinhosidade”, com Mombaça, e “Pára Comigo”, com Paulinho Black, são bons exemplos disso).

Além disso, soam acima da média as regravações de “Só Deus é Quem Sabe” (de Guilherme Arantes) e de “São Sebastião” (de Totonho Villeroy). Isso para não falar o quão é curioso escutar a cantora cantar, de forma deliciosamente marota, o verso “mulher de amigo meu pra mim é homem” de “Casa 1 da Vila”, canção pouco conhecida de autoria do mestre Monsueto (em parceria com Flora Matos). Afora isso, há de se destacar os dois melhores momentos do CD que são, de longe, “Cabide”, insuspeitado e inspiradíssimo samba inédito de Ana Carolina, e “Soneto do Teu Corpo”, de Moska e Leoni, mostrando uma segura Mart’nália que pode vir a surpreender em terreno pop.

Logicamente não dá para prever como teria sido esse novo álbum se Mart’nália tivesse seguido o caminho do anterior (o elogiado e excelente “Pé do Meu Samba”), mas é inconteste que, ao optar por colocar o seu trabalho nas mãos de Bethânia, a cantora tenta tornar-se mais chique aos olhos do público. Em curto prazo, parece uma razoável estratégia de marketing. Se vai funcionar além disso, só o tempo dirá…

 

R E S E N H A    D E    C D    2

 

Cantora: ANA PAULA LOPES

CD: “MEU”

Gravadora: TRATORE

Uma voz. E que voz! Doce, educada, afinada. Técnica e emoção reunidas numa só artista. E na medida certa. Quem curte o melhor da música popular não pode deixar de conhecer a cantora Ana Paula Lopes. Paulista de São Bernardo do Campo, a morena bonita que trocou a carreira publicitária pela vida de artista está pondo no mercado, através da Tratore, o seu primeiro CD intitulado sugestivamente de “Meu”.

O recém-lançado disco tem onze faixas e leva a assinatura do competente Celso Marques na bem conduzida produção e nos inspirados arranjos. Já no encarte, Ana Paula informa que optou, para o seu trabalho inaugural, por um repertório clássico, com músicas que fizeram parte de sua formação musical. Se algum senão há nesse disco, é justamente a ausência de canções mais atuais, quem sabe até de novos compositores, o que facilitaria a sua ingestão por um público mais jovem, até porque Ana Paula tem muito de interessante a mostrar nessa seara, o que fica claro através da faixa “Sereia, Amor d’Água” (de Suba, Cibelle Cavalli e Beco Drannoff), a única praticamente inédita presente no repertório.

Mas o fato é que Ana Paula é daquele tipo de cantora que surpreende a cada nova audição. Canta muito bem, mas não faz isso tão somente. Sente verdadeiramente o que canta e a isso se qualifica de uma intérprete inata. Bebe na vertente da mais pura MPB, mas seu canto flerta descaradamente com o jazz.

O maestro soberano Tom Jobim domina o álbum com cinco canções. Mas há espaço também para Chico Buarque e Djavan, este o autor da pouco conhecida faixa-título do CD. Nela, Ana Paula se mostra contida, deixando para mostrar de fato a que veio a partir da quarta faixa que é justamente uma das mais felizes parcerias de Tom com Vinicius de Morais, a malemolente “Água de Beber”, própria para o virtuosismo vocal de grandes cantoras. Já em “Águas de Março”, Ana Paula beira o impossível: acrescentar tintas novas à extraordinária gravação da canção feita por Tom e Elis Regina. A batidíssima “O Morro Não Tem Vez” (outra de Tom com Vinicius) é desconstruída e o belo arranjo a faz um dos pontos altos do CD ao lado de “A História de Lily Braun” (de Chico e Edu Lobo), que termina por ganhar seu registro definitivo, e da americana “What’s New?” (de Johnny Burke e Bob Huggart).

Um excelente começo que merece os mais efusivos aplausos! Corra e ouça!

 

 

N O V I D A D E S

 

·               O novo disco de Arnaldo Antunes já está sendo gravado e a exemplo dos dois novos álbuns de Marisa Monte, deverá conter parcerias dos dois artistas com o baiano Carlinhos Brown.

 

·               Acaba de chegar ao mercado, através da gravadora EMI, a terceira caixa de DVD’s referentes à obra de Chico Buarque, originados de especiais dirigidos por Roberto de Oliveira para o canal DirecTV. São mais três DVD’s contendo o registro integral dos novos episódios da série. Um deles enfoca a visão do amor na obra do compositor e apresenta uma música inédita (“Outros Sonhos”). Outro episódio versa sobre a paixão do artista pelo futebol e conta com números musicais gravados especialmente para o especial (“Conversa de Botequim” e “O Juiz Apitou”). Já o derradeiro se foca na obra literária de Chico e no processo criativo de suas letras.

 

·               E falando em Chico, continua a todo vapor, nos estúdios da gravadora Biscoito Fino, o processo de finalização do seu novo e esperado CD que chega às lojas ainda neste primeiro semestre. Uma das canções já confirmadas é “Imagina”, valsa que é considerada a primeira composição de Tom Jobim (escrita em 1947) e que só foi letrada por Chico quase quatro décadas depois (em 1983) a fim de fazer parte da trilha do filme “Para Viver Um Grande Amor”. No registro recém-gravado, Chico divide os vocais com a cantora Mônica Salmaso, intérprete bastante elogiada pela crítica, mas ainda quase que desconhecida pelo grande público.

 

·               Com o objetivo de reembalar músicas associadas à folia carnavalesca com arranjos mais intimistas e vocais menos esfuziantes, a cantora Vânia Abreu (irmã de Daniela Mercury) põe nas lojas o CD “Pierrot & Colombina”, dividido com o marido, o compositor Marcelo Quintanilha. Do repertório constam, entre outras, as músicas “Camisa Amarela” (de Ary Barroso), “Retalhos de Cetim” (de Benito di Paula) e “Máscara Negra” (de Zé Kétti).

 

·               Marcelo D2 convidou Alcione para fazer uma participação especial em uma das faixas de seu novo CD. Em retribuição ao convite, a cantora maranhense fez questão de contar com a presença do rapper no show ao vivo que realizou recentemente no Rio de Janeiro e que vai resultar em um DVD que estará chegando ao mercado muito em breve.

 

·               Estará nas lojas, no comecinho de abril, o novo disco de Francis Hime. Intitulado “Arquitetura da Flor”, o álbum traz como destaque a canção “Sem Saudades”, uma letra inédita de Cartola que foi dada para Francis musicar pela neta do compositor mangueirense. A onipresente Zélia Duncan participa da faixa como convidada especial.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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