Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: ALCIONE
CD: “ETERNA ALEGRIA”
Gravadora: BISCOITO FINO

Esperar que Alcione grave discos como os memoráveis “Pra Que Chorar”, “Alerta Geral” e “Gostoso Veneno” (lançados na segunda metade da década de setenta do século passado) parece mesmo querer muito. Os tempos são outros e compositores de samba da cepa daqueles de outrora parecem se escassear. A cantora também já não é mais a mesma pois, para sobreviver em um mercado cada vez mais competitivo e sujeito a modismos como o fonográfico, teve que mesclar sua trajetória de sambista com a de intérprete de baladas desbragadamente românticos. E era, assim, nessa alternância que ela vinha baseando seus últimos trabalhos.
Nesse sentido, “Eterna Alegria”, o seu mais recente CD, produzido por Jorge Cardoso e que acaba de chegar às lojas através da gravadora Biscoito Fino, soa como um ponto acima da média. Alcione continua mandando muito bem no quesito voz. E não obstante se constate, em alguns momentos, determinados “arranhamentos” (certamente fruto de anos de estrada), a potência e a extensão continuam praticamente intactas. A diferença é que ela optou, no recém-lançado trabalho, por um repertório praticamente voltado para o samba.
A carta de intenções se faz revelada logo na primeira faixa (a boa canção-título, cujo pecado reside no fato de ter sido gravada no masculino, música de autoria de Júlio Alves, Ramirez, Carlos Jr. e Alex Almeida, também os autores de “Conversa Fiada”) e se estende a várias outras que têm tudo para cair no gosto popular. É o caso da deliciosa “Produto Brasileiro” (de Xande de Pilares, Gilson Bernini e Brasil do Quintal), da animada “Bate Palma Aê” (de Paulinho Carvalho e Cacá Franklin) e do contagiante tema de gafieira “A Dona Sou Eu” (de Paulinho Rezende e Nenéo), grandes destaques do set list apresentado, as quais, se bem divulgadas, podem se transformar em algumas das músicas mais executadas deste ano.
O Brasil parece ter realmente redescoberto o samba e Alcione captou isso. Selecionar um repertório de ponta – parece – não está sendo uma coisa fácil para aquelas que são somente intérpretes, porém o mais salutar nisso tudo é o fato de a Marrom não ter se acomodado, deitando e adormecendo no berço esplêndido dos vários sucessos colecionados ao longo da vitoriosa carreira. Ela segue em frente e, vez por outra, arrisca algumas extravagâncias, quase sempre bastante salutares à obra de todo artista. Entende muito do seu riscado, mas quando sai da zona de conforto igualmente manda muito bem, conforme já ficou provado em trabalhos anteriores quando mergulhou com propriedade ímpar no terreno da MPB.
Com ótimo trânsito no meio musical, Alcione ganhou inéditas de Ana Carolina (o pseudo-blues “Pontos Finais”, composta com Dudu Falcão e Chiara Chivelo) e de Francis Hime (a bela “Sem Palavras”, letrada por Thiago Amud), sem deixar de falar em “Êh, Êh”, primeira e insuspeita parceria entre Djavan e Zeca Pagodinho. E – é claro – compositores frequentemente presentes nos discos da artista novamente demarcam território: é o caso de Jorge Aragão (em “Por Ser Mulher”), Arlindo Cruz (em “Difícil de Aturar”, criada com Max Vianna e Fred Camacho) e Altay Velloso (em “Magia do Palco”). E se é fato que há algumas recaídas que terminam por soar “déjà vu”, caso das passionais “Sentença” (de Serginho Meriti, Claudemir e Ricardo Moraes) e “Direitos Iguais” (de Sereno e André Renato), estas são momentos isolados que não comprometem em muito o resultado geral.
Sem se esquecer da cultura popular de seu querido Maranhão, Alcione incluiu ainda o tema “Chapéu de Couro”, adaptado por Papete e Manuel Pacífico, e resgatando suas origens, pinçou da influência afro a interessante “Ogum Chorou que Chorou” (outra de Arlindo Cruz). Fechando o CD e alocada como faixa-bônus, surge a exacerbada “Amor Surreal”, cuja presença se justifica por ter sido exaustivamente executada na trilha da modorrenta telenovela global “Salve Jorge”.
Enfim, trata-se de um CD bacana que mostra Alcione em um ótimo momento. Merece, portanto, ser conhecido!

N O V I D A D E S

* Registrado em setembro do ano passado em Fortaleza, com a maior parte gravada ao vivo durante apresentação realizada no Teatro José de Alencar, o novo projeto do cantor e compositor Jorge Vercillo chegou recentemente às lojas nos formatos CD (com dezoito faixas) e DVD (com vinte e cinco números mais um bônus e três extras), este produzido em parceria com o Canal Brasil. Intitulado “Jorge Vercillo – Luar de Sol – Ao Vivo no Ceará”, é puxado pela inédita canção “Face de Narciso” (parceria do artista com Jota Maranhão), propagada com frequência quase que diária na atual telenovela global das seis, a mediana “Flor do Caribe”. Trata-se de uma edição da Posto 9 distribuída pela Microservice que conta com as participações especiais de Fagner (em “Homem Grande”, parceria de Vercillo com Sérgio Souto), Paulo Façanha e Adelson Viana (em “Apesar de Cigano”, de Altay Velloso e Aladim Teixeira Filho) e da dupla Ítalo e Renno (em “Nos Espelhos”, de Vercillo e Dudu Falcão). Vercillo canta bem e, se no começo da carreira, foi bastante associado a Djavan (inclusive na parte das composições), hoje já se pode denotar um estudado e bem-vindo distanciamento. O repertório prioriza os maiores sucessos da carreira do artista, os quais são acompanhados por um coro formado pelo público presente, tais como “Memória do Prazer” (dele e Gabriela Vercillo), “Sensível Demais”, “Me Transformo em Luar”, “Praia Nua” “Olhos de Ísis” e “Fácil de Entender” (as cinco assinadas por ele sozinho). Alguns dos melhores momentos ficam por conta da faixa-título, do sambinha “Raiou” e da pungente “Oração Yoshua” (parceria com Paulo César Feital e cantada em falsete). Somente no DVD pode ser ouvida “Coragem”, parceria de Vercillo com Dona Canô, canção desenvolvida a partir de frase dita pela mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia ("Ser feliz é pra quem tem coragem"), além de outros temas como, por exemplo, “Rio Delírio”, “Como Diria Blavatsky”, “Ventos Elíseos”, “Há de Ser”, “Vento Ventou” e “Eu Quero a Verdade”.

* E seguindo com a ideia de CDs em homenagens a grandes compositores nacionais, a gravadora Joia Moderna, após lançar os álbuns em que cantoras da nova geração emprestaram suas vozes a músicas de Marina Lima e Péricles Cavalcanti e que cantores da cena indie jogaram luzes sobre temas criados por Ângela Ro Ro, anuncia ainda para este ano mais um projeto nesse sentido: trata-se do disco “Agenor- As Canções de Cazuza” que contemplará dezessete temas do irrequieto e saudoso artista em releituras feitas por nomes do pop brasileiro.

* O selo Discobertas está pondo nas lojas um box do qual fazem parte os primeiros títulos do cantor e compositor paulista Sérgio Ricardo (“Dançante nº 1”, que ressurge com seis faixas-bônus, “A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo – Não Gosto Mais de Mim” e “Depois do Amor”, este um álbum de intérprete, os três lançados original e respectivamente em 1959, 1960 e 1961), além de dois discos contendo as trilhas sonoras compostas pelo artista para os filmes “Deus e o Diabo na Terra do Sol (de 1963) e “Esse Mundo é Meu” (de 1964).

* Mais coerente e bem elaborada que o recente tributo prestado por Mariene de Castro a Clara Nunes é a homenagem que a cantora baiana Carla Visi (que um dia já foi vocalista da banda Cheiro de Amor) está fazendo chegar ao mercado sob o título de “Pura Claridade”, a tempo de marcar os trinta anos que a mineira guerreira passou para o andar de cima. Carla é cantora de excepcional alcance vocal e dona de técnica irrepreensível. Seu timbre é límpido e muito bonito e ela sabe o que faz de verdade. O álbum tem a produção musical assinada por Izaías Marcelo e, além dele, também elaboraram alguns arranjos os competentíssimos Rildo Hora e Jota Moraes. Duas das dezessete faixas selecionadas são canções feitas explicitamente para homenagear o talento e a saudade que Clara deixou (“Mineira”, gravada com ela ainda viva por João Nogueira em 1975, e “Um Ser de Luz”, registrada em 1983, um ano após o seu falecimento, por Alcione). As demais músicas foram pinçadas, uma a uma, dos discos que Clara lançou ao longo do período compreendido entre 1966 e 1982. Há as participações especiais de Paula Fernandes (na pouco conhecida “Dia de Esperança”), Pinha (em “Ê Baiana”), Thiaguinho (em “Tristeza Pé no Chão”), Péricles (em “Canto das Três Raças”), Xande de Pilares (em “Coração Leviano”) e Daniela Mercury (em “Morena de Angola”). Tarefa hercúlea destacar faixas nesse projeto de fato muito bem realizado e que conta, além das canções já citadas, com pérolas como “Você Passa e Eu Acho Graça”, “Conto de Areia”, “O Mar Serenou”, “Portela na Avenida” e “Nação”.

* Nos shows que atualmente vem realizando fora do Brasil, Marisa Monte já está cantando a inédita “Dizem (Quem me dera)”, canção por ela composta com Arnaldo Antunes e Dadi, a qual remete às manifestações que têm mobilizado o Brasil nos últimos tempos. A mesma canção constará também do repertório do próximo CD de Arnaldo, o qual chegará em breve às lojas.

* A gravadora mineira Ultra Music Records está lançando, em homenagem ao saudoso cantor e compositor Marku Ribas, um box que contempla dois álbuns inéditos, os quais foram originalmente gravados pelo artista em 1970 e 1997 (“Batuki” e “Parda Pele”), além de um DVD intitulado “Atavu” que na verdade se trata de um filme em que o diretor Carlos França documenta a arte de Ribas a partir das imagens reunidas durante doze anos de shows e viagens.

* Criada por Humberto Araújo, a Orquestra Criôla está lançando “Subúrbio Bossanova”, o seu primeiro projeto em CD. Produzido pelo próprio Humberto ao lado de Rodrigo Campello, trata-se de um álbum que traz para a linha de frente a sonoridade dos metais (trompete, sax, flauta, flugelhorn, clarinete, clarone e trombone são mesmo o melhor dos azeitados arranjos). Oito das doze faixas que compõem o repertório são assinadas por Humberto ao lado dos parceiros Paulo César Pinheiro, Nei Lopes, Cláudio Jorge e João Cavalcanti, este presente como convidado em “Temporal, Atemporal”. Mas há outras participações especiais como é o caso de Verônica Sabino em “Favela” (de Padeirinho da Mangueira e Jorge Pessanha), Luiz Melodia (em “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro) e Wilson das Neves (em “Onde O Samba Nasceu”), três destaques do set list apresentado juntamente com “Bêbado” (de Wagner Dias e Márcio Resende) gravada pela bela voz de Simone Lial. Muito bacana!

* O Palavra Cantada (dupla infantil formada por Sandra Peres e Paulo Tatit) está lançando, através da gravadora MCD, o DVD “Pauleco e Sandreca”, composto por dez clipes. Há as participações especiais das cantoras Ana Cañas, Maria Gadú, Wanderléa e Zélia Duncan.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o quadro "Musiqualidade" dentro do programa "Canta Brasil”, veiculado pela Aperipê FM todas as sextas-feiras, às 10 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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