Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: RODRIGO MARANHÃO
CD: “ITINERÁRIO”
Selo: MP,B Discos

A sanfona executada com a costumeira maestria por Marcelo Caldi é o tempero especial de “Fuzuê”, a simples e bem construída canção que abre “Itinerário”, o novo CD do cantor e compositor carioca Rodrigo Maranhão, o qual chegou há pouco às lojas através do selo MP,B Discos e deixa claro que continua intacto o talento do artista para, através de letras concisas e melodias palatáveis, construir sua obra de agradabilíssimos contornos.
Com canções já gravadas por gente da primeira linha da nossa MPB, a exemplo de Maria Rita, Roberta Sá e Zélia Duncan, Maranhão vem trabalhando em um tempo todo particular, construindo degrau por degrau uma carreira coerente e de inatacável qualidade. Sua música é plural, bebendo das fontes mais tradicionais do nosso cancioneiro. Um exemplo disso é a faixa “Iara” (parceria com PC Castilho) cujos versos passeiam pelo subúrbio carioca, acompanhando o trajeto da musa. Ou a bela e delicada “Eu Não Sei seu Telefone” que resgata as serestas, lembrando também o sempre inspirador Chico Buarque (e isso – tenha-se certeza – é um mérito e tanto!).
Maranhão é daquele tipo de intérprete que canta muito bem suas próprias criações. Embora não possua grande extensão vocal, seu timbre soa muito apropriado e não cansa o ouvinte. Ao contrário, fica até um gosto de “quero mais” quando se termina de escutar as onze canções autorais e inéditas que compõem o repertório desse recém-lançado álbum que foi produzido pelo próprio artista, contando com a assistência do violonista Nando Duarte, nome recorrente na ficha técnica ao lado do já citado Caldi e de Pretinho da Serrinha, responsável pela camada percussiva.
Gravado em apenas quatro dias em março próximo passado, o disco se faz revestido por uma sonoridade minimalisticamente acústica em que convivem harmonicamente tanto um preguiçoso afoxé (“Rua da Preguiça”, outra parceria com Castilho que, inclusive, surge em participação especial no vocalise) quanto uma suave bossa (“Maria da Graça”, cuja base se construiu tão somente com piano e violão). E se em “Maré” a poesia se revela como ponto maior, na canção-título é a repetida célula melódica que se consubstancia como a peça-chave da música que termina por reverberar insuspeitos ecos de Tom Zé.
Apaixonado assumido pelas coisas do além-mar, Maranhão compôs “Madrugada” e convidou o lusitano António Zambujo para dividir os vocais da faixa que ganha clima específico com a pertinente inserção da guitarra portuguesa executada por Bernardo Couto. Quanto aos melhores momentos do set list apresentado, estes ficam por conta da pueril “Chapeuzinho Amarelo”, do bonito coco “Flor do Cajueiro” (forte candidata a hit) e da direta e etérea “Mantra” (feita ao lado de Pedro Luís).
Um CD para ser descoberto e curtido devagarzinho, o qual cresce a cada nova audição, ratificando o porquê de tantos considerarem Rodrigo Maranhão um dos maiores expoentes da atual geração musical brasileira. Super aconselhável!

N O V I D A D E S

* Eternamente presa à estética da Bossa Nova (movimento que teve à frente seu pai, o conhecido temperamental João Gilberto), ainda que tente revesti-la com aura de modernidade, a cantora Bebel Gilberto acabou de lançar, através da gravadora Sony Music, “Tudo”, o seu mais novo CD, o qual, para não fugir à regra, traz, entre as suas doze faixas, regravações de representantes daquela onda musical que terminou por ganhar o mundo: “Saudade Vem Correndo” (de Luiz Bonfá e Maria Helena de Toledo) e “Vivo Sonhando” (de Tom Jobim), esta em versão bilíngue. Bebel, filha da também cantora Miúcha (irmã de Chico Buarque), possui voz miúda e isso fica claro em especial quando ela grava temas que necessitam de uma interpretação mais intensa, caso, por exemplo, de “Tom de Voz” (de Cézar Mendes e Quito Ribeiro) e “Harvest Moon” (de Neil Young). Como compositora, ela assina sete das músicas apresentadas, apenas uma criada solitariamente (“Somewhere Else”, a faixa de abertura). Vivendo há anos fora do Brasil e com razoável aceitação no mercado estrangeiro, torna-se perfeitamente justificável a inclusão de canções em inglês (“Lonely in my Heart”, parceria com Joey Altruda, é uma delas) e até em francês (“Tout Est Bleu”, de Andrew Anisere, Allioum Ba e Pascale Hospital). Mas os destaques do repertório ficam incontestavelmente por conta de “Novas Ideias” (feita com Gabriel Moura e Seu Jorge, este presente em participação especial), “Areia” (composta com Pedro Baby) e “Inspiração” (criada ao lado de Eddie Ruscharp e Mario Caldato Jr., este o responsável pela produção do álbum). Completam o set list outras duas parcerias: uma feita por Bebel com Adriana Calcanhotto (a canção-título) e outra com Maza Shimizu (“Nada Não”).

* O cantor e compositor pernambucano Silvério Pessoa anuncia ainda para este ano uma nova homenagem ao paraibano Jackson do Pandeiro (a primeira ele fez em 2003). Intitulado “Cabeça Feita”, o CD independente será produzido pelo próprio artista e terá arranjos assinados pelo violeiro Renato Bandeira. No repertório, entre outras, estarão: “Mãe Maria” (de Joca de Castro e Antônio Gonzaga), “1×1” (de Edgar Ferreira), “Mané Gardino” (de Ari Monteiro e Elias Soares), “Casaca de Couro” (de Rui Moraes e Silva) e “Coco Social” (de Rosil Cavalcanti).

* Lulu Santos vai lançar brevemente, em CD e DVD, mais um registro ao vivo de show calcado em seus sucessos. A gravação vai acontecer quando da apresentação do show “Toca + Lulu” em outubro próximo, na Fundição Progresso (RJ). Mas antes disso, ainda este mês, chegará às lojas o seu próximo álbum de inéditas, o qual se intitula “Luiz Maurício” (o nome de batismo do artista) e trará, no repertório, duas faixas instrumentais. Há as participações do funkeiro carioca Mr. Catra, do baixista Jorge Ailton e dos DJ’s Memê, Sany Pitbull e Batutinha.

* Ancorada pelo primeiro lugar conseguido no programa “SuperStar”, levado ao ar no primeiro semestre pela Rede Globo, a banda Malta acaba de fazer chegar às lojas o seu primeiro CD. Intitulado “Supernova” e produzido pelo baterista Adriano Draga, o álbum apresenta treze faixas, dez delas compostas solitariamente pelo vocalista Bruno Boncini (as três restantes são versões). São canções rasas, que surgem embaladas por arranjos pesados e interpretação over, o que termina por conferir, ao final, um gosto de “mais do mesmo”. Com a divulgação pesada que certamente terá e a boa pinta do band leader, deverá vender bem, mas para permanecer no mercado o quarteto paulistano terá que encontrar rapidinho um caminho mais consistente…

* Os cantores Renato Teixeira e Sérgio Reis realizaram recentemente apresentação na Quinta da Cantareira, em Mairiporã (SP), a qual foi devidamente registrada para se transformar em CD e DVD, os quais chegarão ao mercado ainda este ano. Há as participações de Amado Batista, João Carreiro e Toquinho.

* A cantora e compositora Tiê estará lançando ainda este mês seu terceiro álbum. Trata-se de “Esmeraldas”, que chegará às lojas através da gravadora Warner Music. Com a produção assinada por Adriano Cintra e Jesse Harris, o álbum contém as participações especiais de David Byrne (em “All Around You”) e Guilherme Arantes (em “Máquina de Lavar”).

* O carioca João Nabuco é polivalente na música: compositor, maestro arranjador, produtor e diretor musical, ele se formou em música para cinema na Berklee College of Music (EUA) e, durante alguns anos, trabalhou para a Rede Globo, criando temas para novelas e minisséries (uma de suas composições, aliás, a vinheta para a edição extraordinária do “Jornal Nacional”, está há mais de quinze anos no ar). São de sua autoria as trilhas sonoras dos filmes “Sonhos Roubados”, “Ônibus 174”, “Amores Possíveis”, “Os Carvoeiros” e “Pequeno Dicionário Amoroso”, entre outras. Já teve composições gravadas por vários artistas, dentre os quais Nana Caymmi, Seu Jorge, Ana Carolina, Maria Gadu e Moska. Em 2006, ele gravou o CD “CineSamba”, o qual contou com as participações, nos vocais, das cantoras Barbara Mendes e Paula Santoro (frise-se: Nabuco não canta). Sete anos depois, ele faz chegar às lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o autoral “CineSamba Volume 2” que se faz composto por treze canções embaladas pelas belas vozes de Barbara Mendes (mais uma vez) e Joana Duah. O trabalho de Nabuco se caracteriza por uma mistura de sons, influências e gêneros musicais (com mais especificidade para sambas e baladas), tornando, assim, complexa uma catalogação. Também um multi-instrumentista (ele pilota piano, teclados, violão e guitarra, além dos loops e samplers), o artista vê no disco uma continuidade do trabalho anterior, por ele tido como “uma mistura de samba, eletrônica e música clássica”. Isso de fato se explicita já na primeira faixa, “Bundalelê da Verdade”, que metaforicamente fala sobre as manifestações de rua ocorridas em junho do ano passado. Tema pouco abordado (a junção de um enrustido e uma periguete em “Casal Perfeito”) antecede outro mais convencional (a dualidade de uma metrópole em “Rio 360º”) e, entre músicas mais delicadas (caso de “Brasilianas”, “Marambaia” e “Cachaça de Luz”) e outras mais encorpadas (a exemplo de “Canção sem Fim”, “Vestida de Ontem” e “Contra-Mão”), os destaques do repertório terminam recaindo no pseudo-coco “Balanciar”, na contagiante “O Vento Vai”, no cortante blues “Cachaça de Luz” e no acalanto “Dona das Águas”.

* Está sendo aguardado com curiosidade o primeiro CD solo da cantora Ava Rocha, atualmente em fase de produção. Produzido por Jonas Sá, o álbum se chamará “Ava Patrya Yndia Yracema” (nome de batismo da artista que é filha do cineasta baiano Glauber Rocha).

* Algumas das mais expressivas canções da carreira do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença receberam tratamento erudito no concerto “Valencianas”, apresentado em novembro de 2012, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). O registro desse interessantíssimo espetáculo acaba de chegar ao mercado, nos formatos de CD e DVD, e se torna, desde logo, um item imprescindível na cedeteca de todos os amantes da nossa MPB. Sob a produção de Paulo Rogério Lage, o projeto mostra Alceu em grande forma vocal, acompanhado pela Orquestra Ouro Preto (regida pelo maestro Rodrigo Toffolo), e entoando temas de beleza ímpar (tais como “Sino de Ouro”, “Ladeiras”, “Cavalo de Pau”, “Junho” e “Tropicana”), arranjados por Mateus Freire, este o compositor da primeira faixa (a suíte “Abertura Valencianas”) que, de sofisticada consistência, reúne três movimentos inéditos, entremeados com fragmentos de “Anunciação”. Há também belos momentos instrumentais e dentre estes se destacam “Talismã”, “Porto da Saudade” e “Acende a Luz”. Realmente imperdível!

* A dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó encontra-se em estúdio gravando um álbum dedicado à obra de Tom Jobim. Quem (sobre)viver, ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o quadro "Musiqualidade" dentro do programa "Canta Brasil”, veiculado pela Aperipê FM todas as segundas-feiras, às 10 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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