Musiqualidade

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R E S E N H A

Artistas: MARCELO PRETTO e SWAMI JR.
CD: “A CARNE DAS CANÇÕES”
Gravadora: BORANDÁ

Muito da boa música que se faz atualmente passa distante do grande público que, por vários motivos, prefere se refestelar com efêmeras novidades fabricadas pela grande mídia. Infelizmente, o conhecimento de nomes como o do cantor Marcelo Pretto e o do violonista Swami Jr. ainda fica restrito a um grupo que opta por correr atrás de uma música inteligente e aqui se entenda (e se estenda) o adjetivo tanto às melodias quanto às letras. É como um oásis no meio de uma grande deserto, então, que chegou recentemente ao mercado, através da gravadora Borandá, o CD sugestivamente intitulado “A Carne das Canções”, o qual, sob a produção musical de Beto Villares, une a trajetória daqueles dois grandes artistas.
Pretto é cantor autodidata, ator e arte-educador. Fundador do “A Barca”, grupo especialista na pesquisa da cultura popular brasileira, ele chega agora ao seu primeiro CD, depois de anos de carreira (até então tinha apenas um DVD, lançado em 2008, e acumulado participações em discos de artistas nacionais e internacionais, entre eles, André Abujamra, Andréia Dias, Zeca Baleiro, Carlos Nuñez e Sandra Nkake).
Swami, por seu turno, é violonista de mão cheia, já tendo trabalhado como arranjador e produtor em diversos trabalhos. Gravou e se apresentou com artistas das mais diversas vertentes, tais como a cubana Omara Portuondo e o congalês Lokua Kanza, além dos nossos Chico César, Elba Ramalho, Elza Soares, Tom Zé e Zélia Duncan, entre outros, e tem canções registradas por Vânia Bastos, Virgínia Rosa e Zizi Possi. Possui dois belos trabalhos solo, ambos instrumentais.
O CD recém-lançado une a bela, potente e afinada voz de Pretto (que, com a experiência adquirida em outro grupo, o Barbatuques, empresta efeitos percussivos feitos com a boca e o corpo a grande parte dos arranjos, imitando até o som de um baixo) ao violão de 7 cordas (nylon) de Swami. Em raros momentos, os dois recebem músicos amigos como o já citado Villares e Kiko Dinucci (violões) e Vincent Segal (violoncelo).
Na realidade, o álbum soa como um duo de voz/vozes e violão cuja sonoridade (ao mesmo tempo simples e requintada) encanta o ouvinte sensível desde a primeira audição posto que alia técnica primorosa com refinamento harmônico. O repertório se faz composto por quinze faixas, grande parte inédita e assinada por compositores ligados à cena paulistana contemporânea. Há os de fato nativos, caso de Douglas Germano (“Ratapaiapatabarreno” e “Guia Cruzada”), Fábio Barros (“Nessa Cidade”), Luiz Tatit (“Iara”, composta com Antonio Loureiro) e o retromencionado Dinucci (“Olhos da Cara” e “Esqueci de Ficar Triste”, parcerias com Sinhá e  Jonathan Silva, respectivamente) e também alguns que não nasceram na capital paulista mas que, de alguma maneira, estão identificados com a música que se faz ali, a exemplo de Chico Saraiva (“Araripe Ararat”, feita com Mauro Aguiar), Leandro Medina (“Pretinha”) e Rodrigo Campos (““Paisagem na Neblina”). Até o paranaense Arrigo Barnabé é lembrado e entra no projeto com “Vai, Menina, Vai”. Pretto assina apenas a onomotopeica “Tupepe” e Swami mostra o seu lado autor (e cantor!) também em um único momento, a canção-titulo, uma parceria com o poeta português Tiago Torres da Silva. 
Plural na diversidade de gêneros e estilos, o disco cresce quando mescla sotaques urbanos e regionais, intercalando músicas mais ritmadas com outras revestidas de lirismo e delicadeza. Alguns de seus melhores momentos (embora não seja tarefa fácil destacá-los) ficam por conta de “Abre a Casa” (de Beto Villares), “Pixãim” (de Walter Freitas e Joãozinho Gomes) e “Labirinto Azul” (Lincoln Antonio e Walter Garcia).
Um CD acima da média que se consubstancia como um dos melhores lançamentos deste ano, terminando por expor muito mais do que o seu título explicita, mas também (e principalmente) a alma das canções e o talento desses dois grandes amantes da música que merecem os mais efusivos aplausos. Corra e ouça!

N O V I D A D E S

* Inquestionável o salto qualitativo que o cantor e compositor Rubinho Jacobina deu do seu disco de estreia (“Força Bruta”, de 2005) para o recém-lançado segundo CD. Intitulado “Andando no Ar”, esse álbum chega ao mercado através da gravadora Joia Moderna e, sob a produção de Moreno Veloso e Pedro Sá, se faz composto por treze faixas, dez delas autorais. As exceções ficam por conta de duas oportunas inserções da dupla Haroldo Barbosa e Luís Reis (o inédito samba-canção “Virei Passarinho”, de cuja letra foi retirado o título do disco, e o samba de gafieira “Lamento Bebop”) e da quase lusitana “Onde Moras” (em que Rubinho se faz apenas acompanhado pelo violão do irmão, o saudoso Nelson Jacobina, autor da faixa, musicando poema de Antonio Feijó). O artista, que também integra a Orquestra Imperial, tem trânsito livre entre os nomes mais cultuados da atual cena indie nacional e, assim, encontram-se vários deles na ficha técnica do álbum, a exemplo de Bartolo (guitarra), Glauco Fernandes (violino), Iura Ranevsky (violoncelo), Bubu (baixo) e Domenico Lancellotti (bateria), este, aliás, o coautor da faixa de abertura, o haikai “Calma”. Quando se referem às suas possíveis limitações vocais, Rubinho mostra resolvido bom humor quanto a isso na deliciosa “Meio Tom”, música com insuspeita pegada nordestina e um dos melhores momentos do repertório, já lançada, há alguns anos, por Pedro Miranda. A sonoridade pop do projeto se abre a múltiplas possibilidades, o que confere um colorido todo especial ao trabalho (o que se faz inteligentemente ressaltado através da parte gráfica). Há desde o duplo sentido de “Marcha Lúbrica” até o suingante samba “Vento Lento” (composta com Pedro Canella), que tem toda a pinta de hit instantâneo. Trata-se, no geral, de um CD bem pra cima que certamente, em apresentações ao vivo, vai crescer ainda mais quando a galera se esbaldar ao som do rock “Clichê Colado” e do frevo “Peterpan”, por exemplo. Outros destaques ficam por conta da contagiante “Segue Esculachando” e da tropicalista “Bem a Sós”, já gravada por Roberta Sá. E é com delicada melodia que Rubinho reveste os conhecidos versos de Carlos Drummond de Andrade em “Cidadezinha Qualquer”, comprovando talento e versatilidade, os quais se fazem explicitados também na letra composta em francês da ótima “Ringard”, anteriormente registrada por Silvia Machete. Um dos mais legais lançamentos de 2014 que merece ser conhecido por aqueles que se abrem ao novo de real qualidade!

* O guitarrista carioca Pedro Baby, filho de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, está gravando seu primeiro disco solo como cantor, o qual será lançado no primeiro semestre de 2015. O repertório será primordialmente inédito e trará parcerias do artista com Edu Krieger, Arnaldo Antunes e Ary Moraes.

* O cantor e compositor carioca Diogo Nogueira se encontra em estúdio gravando as músicas que farão parte de seu próximo CD, a ser lançado em 2015. Produzido por Bruno Cardoso, o álbum, que chegará às lojas através da gravadora Universal, virá recheado de sambas inéditos.

* A cantora, compositora e fotógrafa paulistana Tarita de Souza, que é formada em licenciatura em Música pela Universidade de São Paulo e já participou de projetos em parceria com Zeca Baleiro, Antônio Nóbrega e Tiago Pinheiro, está lançando “A Árvore e o Vento”, o seu primeiro CD, o qual chega ao mercado como uma produção independente capitaneada por ela própria ao lado de Mario Gil. Dona de bonita e afinada voz, a artista assina cinco das onze faixas do álbum, duas delas ao lado de Zé Modesto e uma em parceria com Cristina Saraiva. Entre as duas de sua lavra solitária, há a instrumental “Girando” que ganha interessantes nuances através do piano de André Mehmari. De sonoridade acústica e minimalista, o disco conta com a participação especial de Renato Braz na faixa “Dedal”, um dos pontos altos do repertório. Outros momentos que merecem ser destacados, além da canção-título (de Elder Costa e Madhav Bechara), são: “Poema Velho” (de Fred Martins e Manoel Gomes), “Viramundo” (de Gilberto Gil e Capinan) e “Canavial” (de Ivan Lins e Vitor Martins).

* A gravadora Som Livre aproveita o ótimo momento da telenovela global “Império” e põe nas lojas o volume 2 de sua trilha sonora nacional. Na verdade, afora a regravação de “Dona” (de Sá e Guarabyra) feita por Alex Cohen e a inclusão de dois funks interpretados por Erikka e Ludmilla (“Cara de Rica” e “Hoje”, respectivamente), o álbum bem que podia ser catalogado como um produto de samba, uma vez que os outros nove fonogramas selecionados representam o mais genuíno dos gêneros musicais brasileiros em suas diversas vertentes. Há desde os tradicionais Cartola e Almir Guineto até grupos que dão as cartas atualmente no que se refere aos mais requisitados, caso do Sorriso Maroto e do grupo Revelação. Os onipresentes Thiaguinho e Péricles logicamente também marcam presença, este com a gravação da ótima “Se Eu Largar o Freio”, cantada em toda a sua primeira parte a capella (grande sacada!). Única representante da ala feminina do samba selecionada para o projeto, a baiana Mariene de Castro comparece com “Colheita”, dividindo os vocais com Zeca Pagodinho.

* “Olho Nu”, o documentário sobre Ney Matogrosso que foi dirigido e roteirizado por Joel Pizzini, acaba de ter sua trilha sonora editada em CD através de uma parceria entre o Canal Brasil e a gravadora Som Livre. São dezesseis faixas selecionadas pelo próprio Ney que, esperto, preferiu focar entre ótimos fonogramas gravados por ele ao longo da carreira, mas que por motivos inexplicáveis não se transformaram em sucesso. Estão lá, entre outros interessantes temas, “Açúcar Candy” (de Sueli Costa e Tite Lemos), “Fé Menino” (de Gilberto Gil), “O Doce e o Amargo” (de João Ricardo e Paulinho Mendonça), “Pedra de Rio” (de Luli e Lucina), “Quem Sabe?” (de Carlos Gomes) e “Preciso me Encontrar” (de Candeia). Há as participações especiais de Rita Lee em “Uai, Uai” (dela e Roberto de Carvalho) e de Fagner em “Ponta do Lápis” (de Rodger Rogério e Clodo).

* O primeiro CD do cantor e compositor carioca Sergio Pi chegará em breve às lojas através do selo carioca Lab 344 e se intitulará “Meu Pop É Black Power”. O repertório é majoritariamente autoral, mas há as regravações de “Girassóis da Noite” (de Lobão) e de “Barriga da Mamãe” (de Rita Lee e Roberto de Carvalho).

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o quadro "Musiqualidade" dentro do programa "Canta Brasil”, veiculado pela Aperipê FM todas as segundas-feiras, às 10 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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