Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: PAULA TOLLER
CD: “TRANSBORDADA”
Gravadora: SOM LIVRE

Em meio ao boom das bandas de rock nacional que monopolizaram as paradas de sucesso de norte a sul do Brasil na década de oitenta do século passado, as quais traziam à fente vocalistas do sexo masculino, tais como Cazuza (Barão Vermelho), Herbert Vianna (Os Paralamas do Sucesso), Renato Russo (Legião Urbana) e Paulo Ricardo (RPM), uma se diferenciava por destacar uma bela loirinha que despertava a atenção dos marmanjos de plantão: tratava-se de Paula Toller que dava voz às canções do Kid Abelha. Os anos foram passando, os sucessos se acumulando e o fato é que até hoje a banda sebrevive, mas sua vocalista já há alguns anos vem desenvolvendo paralelamente carreira solo. Para ela, inclusive, parece que o tempo não passou, pelo menos no que se refere à sua beleza e jovialidade. Incontestável, no entanto, que os anos de estrada concederam-lhe segurança e afinação, requisitos que, lá no começo, não se faziam de todo presentes.
Após sete anos do lançamento de seu terceiro CD (“SóNós”), Paula fez chegar ao mercado, no finalzinho do ano passado, o álbum “Transbordada”. Composto por dez músicas, inéditas e autorais (todas compostas com colaboradores dos quais se destaca Liminha, também o responsável pela produção do disco que surge com uma sonoridade emimentemente pop, recheado de programações eletrônicas), o projeto se fez encampado pela gravadora Som Livre e conta com as participações especias de Hélio Flanders (voz na interessante “Será que Eu Vou Me Arrepender”, que tem Arnaldo Antunes como co-autor) e João Barone (bateria na contagiante “Ohayou”).
Tentando fugir das obviedades que geralmente assolam as músicas cujas letras relatam desilusões decorrentes de relacionamentos amorosos (e já tão cantadas por ela no Kid Abelha), Paula abre o leque de temas nesse recém-lançado trabalho (restringindo-se a essa seara somente na cinzenta “O Sol Desparece”). Já na primeira faixa, a radiofônica “Tímidos Românticos”, ela revela a felicidade de estar ao lado do ser amado em meio a imagens positivas e até bossa-novistas. De certa forma, o caminho se perpetua logo em seguida quando, em “Calmaí”, se vê ressaltada a necessidade de se respeitar o tempo certo para cada coisa acontecer.
Já a constatação de que a tão decantada liberdade feminina pode ter seus entraves quando esbarra na precisão de se sentir (e ouvir) amada é bem relatada em “Já Chegou a Hora”. E se os malefícios que as redes sociais podem causar são apropriadamente trazidos a lume em “Seu Nome É Blá”, na faixa-título a artista reverbera seu momento atual no sentido de querer ultrapassar limites vivenciais.
“Ele Oh Ele”, um roquezinho simples mas eficiente, tem grandes chances de se tornar uma das faixas mais aceitas por um público acostumado a apreciar refrões que se fixam facilmente à mente, assim como o pseudo reggae “À Deriva pela Vida” que traz, no arranjo, a inusitada presença de um cello.
A ficha técnica contempla alguns instrumentistas de ponta, a exemplo de Marcos Suzano (percussão), Mikael Mutti (teclados) e João Viana (bateria) e as cores fortes escolhidas para encartar o CD, bem como a foto selecionada para figurar na capa, refletem um trabalho pra cima que se configura como mais um importante passo na trajetória pessoal de Paula Toller. Vale a pena conhecer!

N O V I D A D E S

* Thiago Ramil (que vem a ser sobrinho de Kleiton, Kledir e Vitor Ramil) estará lançando o seu primeiro CD este ano. O repertório será primordialmente autoral. A conferir!

* Formado por Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni, o grupo 5 a Seco lançou recentemente o segundo CD (o primeiro de estúdio). Intitulado “Policromo”, o álbum, produzido por Alê Siqueira, foi gravado em menos de um mês no primeiro trimestre do ano passado e se faz composto por quatorze faixas, as quais foram criadas por seus próprios integrantes e alguns parceiros como Ricardo Teté, Rita Altério, Celso Viáfora e Lula Queiroga. Bem cantado e com arranjos inspirados, o disco comprova o talento desses cinco jovens que almejam a música de qualidade e vêm construindo, inclusive em carreiras solo, trajetórias coerentes. Entre os destaques do repertório apresentado estão as faixas “Épocas”, “Eu Amo Djavan”, “Você e Eu”, “Geografia Sentimental” e “Ninguém Nem Eu”. Super aconselhável para quem gosta de boas canções de verdade!

* O cantor e compositor Flávio Venturini prepara um livro que trará letras e partituras das sessenta músicas mais importantes do cancioneiro do artista. A intenção é que o songbook seja lançado ainda neste primeiro semestre.

* Dona de bonita voz e presença vistosa, a cantora paulista Joyce Cândido pôs no mercado no final do ano passado, através da gravadora Warner Music, o CD “O Bom e Velho Samba Novo – Ao Vivo”, desdobramento do álbum homônimo e anterior de estúdio, o qual foi lançado em 2011. O registro aconteceu durante apresentação realizada no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro, e o produto também se faz disponibilizado na versão DVD. Entre a regravação de belos temas assinados por Chico Buarque (“Samba e Amor” e “Deixe a Menina”), Cartola (“Corra e Olhe o Céu”, parceria com Dalmo Castelo), Adoniran Barbosa (“Saudosa Maloca”) e Caetano Veloso (“Reconvexo”), a artista dá voz a duas canções autorais: uma composta ao lado de Guilherme Sá (“Joia Rara”) e outra criada solitariamente (“Pôr-do-Sol”). Há as participações especiais de João Bosco, Toninho Geraes e Elza Soares respectivamente em “O Rancho da Goiabada” (de João Bosco de Aldir Blanc), “Giramundo” (de Toninho Geraes e Toninho Nascimento) e “Espumas ao Vento” (de Accioly Neto). Dois dos destaques do repertório ficam por conta dos ótimos sambas “Cê Pó Pará” (de Ana Costa, Fred Camacho e Alceu Maia, este o produtor e diretor musical do projeto) e “Beleza Pura” (de Luiz Carlos da Vila e Cláudio Jorge).

* Suingante e elegante são os dois adjetivos que melhor qualificam o CD “Nossa Copacabana”, terceiro trabalho do cantor e compositor carioca João Sabiá (nas lojas através da gravadora Coqueiro Verde), ele que se fez revelado ao grande público quando participou, em 2004, da terceira edição do programa global “Fama”. Ótimo cantor, dono de voz firme e bem colocada, com um timbre bonito que passeia desenvolvo por graves e agudos, o artista assina, ao lado do irmão Guiga Sabiá e de Mu Chebabi, nove das dez inéditas músicas que compõem o agradável repertório (a exceção é o afoxé “Dona Mocinha”, composta solitariamente pelo já citado Guiga). Nas faixas iniciais, João mergulha de cabeça em tipos e situações características do mais famoso bairro do Rio de Janeiro. Há desde um passeio geral por ele (na música-título) até a periguete metida a esperta (em “Manéra”, que conta com a participação especial de Wilson Simoninha), passando pela esposa revoltada com a acomodação do marido (em “Ô Solange”) e pela homenagem explícita aos avós que estão juntos há mais de sessenta anos (em “Dona Diva e Seu Odilon). Entre os momentos mais interessantes encontram-se as interessantes “Biriba” (que se utiliza de termos do jogo para passar um recado bem direcionado) e “Carne de Sol” (que relata de forma bem-humorada o retorno de um casal brigado), além de “O Encontro do Seu Zé com a Mãe Alice” (refletindo melodicamente, a influência de Jorge Ben Jor no trabalho de João). Um CD cheio de sambalanço que se torna recomendado para quem gosta de música feita sem muita complicação!

* O segundo CD do cantor e compositor Dani Black já começa a ser formatado e uma das músicas é a autoral “Seu Gosto” que já pode ser ouvida em gravação inédita que gerou clipe em rotação no YouTube. Outro que se encontra preparando o segundo álbum de estúdio é Filipe Catto. O disco trará Kassin assinando a produção.

* O cantor, compositor e músico carioca Marcelo Caldi (ele é um ás no acordeom e no piano) está lançando um EP virtual intitulado “Maré Cheia, Maré Baixa”, o qual contém cinco músicas autorais: além da canção-título, fazem parte “Latino”, “Ê Moça”, “A Lenda de Maria Mariposa” e “Festa à Beira-Mar”.

* A cantora Wanda Sá é paulista, porém, como desde o início da Bossa Nova teve o seu nome associado a esse movimento musical, passou a ser vista como carioca. Na adolescência, estudou violão com Roberto Menescal e aos dezenove anos, em 1964, lançou o seu primeiro disco. Embora não seja tão conhecida por aqui como faz jus o seu talento, construiu uma carreira sólida com bem-sucedidas incursões, inclusive nos Estados Unidos, ainda que tenha dado um tempo para cuidar dos filhos e do casamento com seu ex-marido, o compositor Edu Lobo, só retornando à ativa na década de oitenta do século passado. Para marcar seus setenta anos e cinquenta de estrada, Wanda, no apagar das luzes do ano passado, pôs no mercado, através de uma parceria entre a gravadora Biscoito Fino e o Canal Brasil e nos formatos CD (contendo quatorze faixas) e DVD (com quatro números adicionais), um projeto que foi fruto de registro ao vivo ocorrido durante apresentação por ela realizada no Teatro Tom Jobim, no Rio de Janeiro, em novembro de 2013. Naquela oportunidade, ela revisitou (com sua voz macia ainda em forma) algumas canções que sempre cantou ao longo da trajetória, caso de “Vagamente” (do citado Menescal em parceria com Ronaldo Bôscoli), “O que É Amar” (de Johnny Alf) e “Discussão” (de Tom Jobim e Newton Mendonça) e recebeu os amigos Carlos Lyra, João Donato e Marcos Valle. Há que se ressaltar as duas músicas inéditas constantes do set list: “Pra Sempre” (de João Donato e Carlos Lyra) e “Novo Acorde” (de Wanda, Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle). Como bônus, foram incluídas três faixas gravadas em estúdio, as quais tiveram os arranjos escritos por Dori Caymmi e contaram com a participação especial da cantora norte-americana Jane Monheit, delas merecendo destaque a belíssima “Coração Sem Saída” (de Dori e Paulo César Pinheiro).

* O paraibano Chico César está gravando um novo disco ao lado de jovens músicos de sua terra natal. Certamente virá coisa muito boa por aí. Quem viver, ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o quadro "Musiqualidade" dentro do programa "Estúdio Aperipê”, veiculado pela Aperipê FM todas as segundas-feiras, às 11 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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