Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantores: SUELY MESQUITA e EUGENIO DALE
CD: “DIO&BACO”
Gravadora: INDEPENDENTE

Suely Mesquita é cantora e compositora carioca com dois CDs solos lançados. Trabalha incansavelmente na música, dá aulas de canto e vem engendrando parcerias com vários nomes do cenário indie emergente ao longo de sua carreira. Criativa e dona de voz delicada de timbre bonito e afinado, ela tem certeza do que quer e dos caminhos que pretende trilhar.
Eugenio Dale é cantor, compositor e multi-instrumentista com trânsito livre na classe musical, já tendo tocado com vários artistas, além de ter produzido álbuns independentes nos quais sempre se denota a sua mão firme na condução dos mesmos. Polivalente e dono de voz potente de timbre grave e seguro, ele merece, há muito, maior visibilidade por conta do incontestável talento esboçado em várias frentes.
Juntos, os dois vêm desenvolvendo há cerca de quinze anos uma profícua parceria que resultou no vitorioso projeto “Dio&Baco”, o qual acaba de ser lançado, de maneira independente, no formato CD. Composto por onze faixas, trata-se desde já e indubitavelmente, de um dos melhores discos do ano. Muitíssimo bem concebido pelos dois, nota-se o esmero na escolha do repertório autoral e a maturação das canções apresentadas. Nada ali parece fora do lugar; pelo contrário, todas as coisas ali possuem um sentido, sejam os gemidos, os silêncios, as brincadeiras ou as múltiplas intenções que surgem faixa a faixa.
Produzido por Dale que também assina os arranjos (de sonoridade pop-acústica) e executa quase todos os instrumentos (a exceção é a presença, em alguns momentos, de músicos como Federico Puppi no violoncelo, Glaucio Martins na flauta, Délia Fischer ao piano, Sidney Santos no baixo e Thiago Silva na bateria), o CD deixa um gostinho de “quero mais” quando se encerra com vozes que se sobrepõem em citação de nomes de pessoas às quais os artistas são gratos.
Aberto com “Pactocombaco”, interessante canção onomatopeico-percussiva (assinada somente por Dale e gravada originalmente por Paula Lima) na qual se destaca explicitamente a homenagem ao deus romano Baco, desde sempre associado ao vinho, o roteiro segue com a inclusão de “Zona e Progresso” (de Suely, Pedro Luís e Arícia Mess, lançado pelo grupo Pedro Luís e a Parede), esta agora exaltando o grego Dionísio, outro deus que se eternizou pela paixão ao líquido derivado das uvas.
Entre sambas maneiros e deliciosos que trazem inteligentes tiradas em suas letras, tais como “Sem Capota”, “Saudade, Saudade” e “Fulana” (os três de Dale e Suely), surgem verdadeiras preciosidades como a obra-prima “Bora” (de Dale) adornada com bem-vinda aura lusitana (é um fado disfarçado, meio xote, quase reggae), “A Vela e a Chama” e “Cortina de Fumaça” (as duas de Suely e Dale e a última abordando uma conversa em banheiro público feminino). E se há canção que beira o sublime (“De Repente Te Amo”), há também música de irresistível pegada, pronta para levantar a galera nos shows (“Até que Chova Dinheiro”). O fato de também essas duas músicas serem resultado da parceria entre os dois somente comprova o quanto eles funcionam bem quando trabalham a quatro mãos. Tal constatação se explicita na bem bolada capa do disco onde as imagens deles formam uma só.
“Quero cantar no chuveiro pra sair com a alma lavada”, escancaram em irresistível verso. Só que mesmo são os ouvintes que, na verdade, saem com esse estado de satisfação após ouvir esse CD decerto abençoado pelos deuses. Corra, ouça e divulgue!

N O V I D A D E S

* Fafá de Belém está a comemorar quarenta anos de trajetória musical. Nessas quatro décadas, ela já enveredou por vários caminhos: mergulhou fundo na MPB, gravando temas atemporais de Chico Buarque, Milton Nascimento e Gonzaguinha, transformou-se em musa da campanha das Diretas, eternizando sua versão emocionada do Hino Nacional Brasileiro, registrou temas de cunho religioso, embriagou-se pelas baladas desbragadamente românticas e se embrenhou nas entranhas do Pará, seu Estado de origem. Assim, não seria de se estranhar que, para comemorar essa data fechada, ela lançasse um disco em que pudesse resgatar todos esses seus lados. Diferentemente disso, ela preferiu se voltar para a nova onda musical do Norte do país e se entregou à produção de Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro, filho e pai, nomes bastante conhecidos naquelas paragens, para fazer chegar ao mercado, através da gravadora Joia Moderna, o CD intitulado “Do Tamanho Certo para o meu Sorriso”. Com voz em plena forma, ela apresenta ao seu público fiel um novo trabalho composto por dez faixas. E se é verdade que, no geral, ele flerta descaradamente com a chamada música brega (assumida com a inclusão, no repertório, da faixa “Meu Coração É Brega”, de Veloso Dias, a qual, há de se reconhecer, possui grandes chances radiofônicas), também o é que não reside aí o maior problema do disco. Este se faz nos arranjos e na sonoridade adotada que, ao beirar propositalmente as simplórias gravações feitas para tocar em feiras e ambientes similares, terminam por retirar a beleza harmônica de algumas canções. A própria mixagem também não contribui quando deixa a voz da cantora um tanto baixa com relação às bases, todas elas executadas pelos Cordeiro. “Asfalto Amarelo” (parceria dos dois com Zeca Baleiro) aparece como canção de abertura de um disco que alcança bons momentos com a inédita “Pedra Sem Valor” (de Dona Onete) e com os resgates de “Usei Você” (de Silvio César, pescada do repertório de Ângela Maria). Os melhores momentos ficam por conta de “Volta” (de Johnny Hooker), recolhida da trilha sonora do filme gay “Tatuagem”, e da releitura de “O Gosto da Vida” (de Péricles Cavalcanti), canção lançada pela própria Fafá em 1982 no álbum “Essencial”.

* “Para Além do Muro do meu Quintal”, o CD gravado pelo cantor e compositor Fred Martins em Lisboa, Portugal, com produção do pianista e arranjador açoriano Paulo Borges, acaba de ser lançado no Brasil pelo selo paulistano Sete Sóis. O repertório traz novas versões para algumas das canções mais conhecidas do artista, a exemplo de “Novamente”, “Flores”, “Sem Aviso” e “O Samba me Diz”. Há as participações especiais de Renato Braz e da cantora cabo-verdiana Nancy Vieira.

* “Eu Amo a Vida” é o título do novo CD do sambista Leandro Sapucahy. Produzido por ele próprio, o álbum chega às lojas através da gravadora Deck e traz um repertório composto por quatorze canções a ele cedidas por compositores vários. A qualidade delas varia e é isso que faz com que o disco perca em qualidade em alguns momentos. Sapucahy é bom cantor, dono de voz de timbre seguro e bonito e fica claro que entende do riscado. Há nítida influência de Seu Jorge em músicas como “A Vizinha do Vizinho” e “Subindo a Audiência”, por exemplo. Os melhores momentos ficam por conta, além da faixa-título, de “Saudade”, “A Gente se Liga” e “Gosto Não se Discute”.

* “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” é o título do segundo CD do rapper paulistano Emicida, o qual, gravado entre África e Brasil, conta com as participações especiais de Vanessa da Mata e de Caetano Veloso. Chegará às lojas ainda este mês através do selo Laboratório Fantasma.

* Lançado recentemente, “Euforia”, o terceiro CD do cantor e compositor paulistano Pélico agrada desde a primeira audição. Trata-se de um salto qualitativo na carreira do artista que pôs o produto nas lojas de forma independente. Composto por quatorze faixas autorais (já que a canção-título surge em duas versões, uma delas acústica), o álbum, produzido por Jesus Sanchez, apresenta uma sonoridade bastante agradável. Já na faixa de abertura, a palatável “Olha Só”, que tem um clima que remete a Marcelo Jeneci, os ouvintes sentem que estão diante de um projeto de esmerada concepção. Há canções realmente interessantes, sejam voltadas para o lado dançante (caso de “Sozinhar-me”), sejam rascunhadas sobre um vértice mais intimista (a exemplo de “Escrevo”), e essa dualidade – frise-se – fez muito bem à obra do artista. Fica claro, no entanto, que várias das canções ganhariam em tintas em sendo revisitadas por intérpretes mais vigorosos. Não que Pélico fique a dever no quesito cantor, já que ele faz o dever de casa com competência, mas é que, em alguns casos, uma visão alheia realmente faz crescer determinadas músicas. Outros bons momentos ficam por conta do pop-rock “Overdose”, da pseudo indiana “Repousar” (que conta com as participações especiais da atriz Letícia Spiller e da cantora Caru Ricardo) e do insuspeito e bem construído samba “Você Pensa que me Engana”. E se na faixa “Meu Amigo Zé” Pélico homenageia o irrequieto Tom Zé, na delicada “Calado”, ele resvala para o mundo da imaginação, desiludido com o término de uma paixão. Um CD legal que vale a pena ser conhecido!

* A cantora e compositora Fátima Guedes encontra-se em estúdio gravando seu novo CD cujo repertório será inteiramente autoral e majoritariamente inédito. Mas haverá também espaço para uma releitura de “Condenados”, bela canção lançada por Simone em 1979 no álbum Pedaços.

* O músico Armandinho, lendário integrante do grupo A Cor do Som, estará se apresentando esta semana no Teatro Atheneu com o espetáculo “O Chorinho de Armandinho Macêdo e Brasileiríssimo”. Será na próxima sexta-feira, dia 04 de setembro, a partir das 21 horas. Uma excelente pedida para quem curte música instrumental de primeiríssima qualidade!

* Com repertório autoral e majoritariamente inédito, está chegando às lojas o novo CD do cantor e compositor paraense Vital Lima, o qual conta com parcerias do artista com Hermínio Bello de Carvalho e Nilson Chaves. Intitulado “O que Não Tem Fim”, o álbum traz as participações especiais dos conterrâneos Arthur Nogueira e Leila Pinheiro.

* E por falar em Leila Pinheiro, essa diva da nossa MPB estará aqui em Aracaju, realizando um show super bacana no próximo dia 10 de setembro, a partir das 21 horas, no Teatro Atheneu. O evento musical faz parte da turnê de lançamento de seu novo EP “Por Onde Eu For”, composto por quatro faixas assinadas por Adriana Calcanhotto (a canção-título), Guilherme Arantes (“Você em Mim”), Zélia Duncan (“Todas as Coisas Valem”, parceria com a própria Leila) e Marina Lima (“Chega Pra Mim”, feita com Márcio Tinoco). No repertório do show, a intérprete de voz privilegiada abrirá espaço para temas criados, entre outros, por Gilberto Gil, Nando Reis, Roberto Carlos, Alceu Valença e Milton Nascimento. Realmente imperdível!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o programa "Musiqualidade", veiculado pela 104,9 Aperipê FM, todos os sábados das 13 às 15 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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