Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: RENATA JAMBEIRO
CD: “FOGARÉU”
Gravadora: FINA FLOR

Se há tempos muitos queriam alguém para ocupar o espaço deixado por Clara Nunes (e já foram várias as cantoras que tentaram), isso parece agora ter se concretizado com o lançamento do terceiro CD de Renata Jambeiro, brasiliense radicada na cidade do Rio de Janeiro desde 2013.
“Fogaréu”, que sucede os álbuns “Jambeiro” (de 2007) e “Sambaluayê” (de 2012), é um dos daqueles discos que cativa o ouvinte pela miscigenação contida no canto da intérprete (pronta) e no repertório (coeso) que passeia com maestria pelas mais variadas vertentes do samba, denotando a pluralidade de um Brasil sofrido, mas que não se abate facilmente.
Como fazia Clara, Renata escolheu canções que têm tudo a ver com ela e, assim, o ouvinte a sente presente, inteira, nas doze faixas que compõem o recém-lançado disco, o qual chega às lojas através da gravadora Fina Flor.
A voz de timbre forte e bonito, sob a produção conjunta de Leandro Fregonesi e Nicolas Krassik, empresta sentido a conhecidos temas de Toquinho com Vinicius de Moraes (“Canto de Oxum”, ora revisitado com as adesões vocais de Fabiana Cozza e Nilze Carvalho) e de João do Vale com Luiz Wanderley (o arretado baião “Coroné Antonio Bento”, em registro que conta com a participação especial de Chico César). São, contudo, instantes pontuais de um roteiro que se faz majoritariamente formado por canções que soam como inéditas (ou porque, na realidade, são, ou pelo fato de terem, até agora, passado batidas junto ao publico em geral).
O citado Fregonesi contribui com a ótima faixa-título e com a contagiante “Vovó Teté”. A própria Renata se mostra inspirada como compositora em outras duas boas passagens: a afro “Pra Curar Dor de Amor” e “Levanta”, esta composta com João Martins.
Entre os destaques, figuram desde um samba de primeira linhagem que une o folclórico ao religioso (“O Tocador é Bom”, de Moacyr Luz) até uma marcha de belas células melódicas (“Cantiga pra Ninar meu Namorado”, de Carlos Nasser e Elias Jabur), passando por música de interessante contorno rítmico (“Migalha”, de Rafael dos Santos). Completam o set list apresentado “Xequerê” (de Magnu Sousa, Maurílio de Oliveira e Nei Lopes), “Amor Brasileiro” (de Ciraninho) e “Dança de Oyá” (outra de João Martins, desta feita em parceria com Raul DiCaprio).
Um álbum e uma cantora que merecem a atenção dos apreciadores da música brasileira de qualidade!

N O V I D A D E S

* Poucas artistas têm sabido se utilizar do poder da imagem junto à mídia como Alice Caymmi, angariando, assim, espaços importantes para mostrar e disseminar o seu trabalho. Ainda em formação, a neta de Dorival Caymmi (ela é filha de Danilo, o mais novo dos três rebentos do Buda Nagô) deu um importante salto do primeiro para o segundo disco, o aclamado “Rainha dos Raios”, o que fez seu nome passar a ser bastante comentado no mundo artístico-musical. Dona de personalidade forte e voz grave (talvez heranças genéticas da tia Nana), ela realizou, em dezembro de 2014, no Teatro Itália, em São Paulo, uma apresentação especial que, registrada, se transformou em seu primeiro DVD (“Rainha dos Raios – Ao Vivo”), o qual termina de chegar às lojas através da gravadora Universal. Com destaque para a direção, assinada por Paulo Borges (o idealizador do SPFW), o show impressiona, à primeira vista, pela estrutura hi-tech, posto que recheado de painéis de led, exibindo interessantes videocenários criados por Richard Luiz. O único músico em cena é o multi-instrumentista Diogo Strausz, também o responsável pela direção musical. No entanto, ele, pilotando programações eletrônicas e à frente de sua guitarra e dos teclados, enche o ambiente com uma sonoridade pesada, a qual ressalta as interpretações de Alice, sempre carregadas de intenções e subtextos. O eclético repertório, com canções de diferentes épocas e artistas, é baseado no do álbum que lhe deu origem (“Iansã”, “Como Vês”, “Meu Recado”, “Meu Mundo Caiu”, “Sou Rebelde” e “Homem”, por exemplo), mas há espaços para releituras de sucessos dos Rolling Stones, de Tim Maia, de Donna Summer e de Cher (“Paint in Black”, “Joga Fora”, “I Feel Love” e “Bang Bang”, respectivamente). Legal pra caramba!

* Já gravado há dois anos, finalmente deverá chegar às lojas neste primeiro semestre o terceiro CD da cantora Marya Bravo. Trata-se de “Comportamento Geral – Canções da Resistência”, um lançamento da gravadora Joia Moderna cujo repertório resgata treze canções propagadas nacionalmente durante os anos de chumbo (elas foram originalmente lançadas entre 1968 e 1978). Vale a pena conferir!

* Melhor dos três trabalhos lançados pelo cantor e compositor capixaba Silva, o CD “Júpiter” aportou recentemente no mercado através do selo Slap, integrante da gravadora Som Livre. São onze faixas autorais (incluindo a instrumental “Io”, criada solitariamente pelo artista), nove delas compostas em parceria com o irmão Lucas Silva. Há uma regravação de “Marina”, antológica criação de Dorival Caymmi, mas o melhor momento do repertório é, de longe, a canção-título, pérola pop da melhor qualidade, demostrando o amadurecimento artístico de Silva. Outros destaques ficam por conta de “Se Ela Voltar”, “Sufoco” e “Deixa Eu te Falar”.

* “Samba Original” é o título do terceiro álbum solo de Pedro Miranda, em breve aportando no mercado. O repertório contempla, por exemplo, criações de Elton Medeiros com Zé Kétti (a faixa-título) e Geraldo Babão com Zardino (“Mocotó com Pimenta”). Entre participações do baterista Domenico Lancellotti e do guitarrista Pedro Sá, o novo projeto conta com Caetano Veloso como convidado especial.

* Encantadas com a Era de Ouro do Swing, as cantoras e amigas Gabriela Catai, Giovanna Correia e Maitê Motta, que sempre tiveram uma queda pelo estilo ‘vintage’, resolveram criar o grupo vocal “Cluster Sisters”. Unindo as três diferentes vozes e as fazendo soar como uma só, aos moldes do que era comumente adotado nas décadas de trinta e quarenta do século passado, elas lançaram o CD homônimo que chegou às lojas através da gravadora Som Livre. Com influências que vão do swing ao bepbop, passando pelo blues e pelo folk, o álbum se faz composta por quinze faixas, sendo que somente duas delas são nacionais: “A História de Lily Braun” (de Edu Lobo e Chico Buarque) e “Tico-Tico no Fubá” (de Zequinha de Abreu e Aloysio de Oliveira), esta em versão incluída na trilha sonora da telenovela global “Eta Mundo Bom!”. Entre os melhores momentos do repertório estão as faixas “Tuxedo Junction”, “Hold Tight, Hold Tight” e “Mule Skinner Blues”.

* A compositora, pianista e arranjadora carioca Monique Aragão musicou oito poemas da conterrânea poetisa Cecilia Bastos e esse trabalho resultou no álbum “As Cores do Poeta – Um Olhar sobre a Poesia de Cecilia Bastos”, o qual foi recentemente lançado pelo selo Cendi Music. O CD conta com as participações de onze intérpretes, entre os quais Carlos Navas, Danilo Caymmi, Diogo Nogueira, Marcos Sacramento e Zé Renato. São dez faixas porque há duas delas que são resultantes da parceria entre Cecília e Fernando Moraes.

* Compositor em franca ascensão no mercado fonográfico, após ter músicas gravadas por Maria Bethânia e Beth Carvalho, o também (ótimo) cantor Leandro Fregonesi acaba de fazer chegar às lojas, através da gravadora Som Livre, o seu segundo projeto musical. Trata-se de “Vai Ter Fuzuê”, registro gravado ao vivo em estúdio, o qual se faz disponível nos formatos CD e DVD. Produzido por ele ao lado do maestro Ivan Paulo, mostra um artista inspirado que tem todas as chances de se transformar, muito em breve, em um dos grandes nomes do samba, gênero que, aliás, domina o repertório de dezesseis faixas (três delas reunindo, em medley, duas canções). Majoritariamente autoral, (há flertes com obras alheias somente em “Suíte dos Pescadores”, de Dorival Caymmi, “Sem Compromisso”, de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, e ”Sacode Carola”, de A. F. Marques e Helio Nascimento), o álbum apresenta algumas parcerias de Fregonesi com João Martins, Chico Donadoni, Helena Pinheiro, Rafael dos Santos, Guilherme Sá, Ciraninho e Ivor Lancellotti. Entre os destaques do roteiro, além da faixa-título, estão “Quando o Galo Cantou”, “Sinhá Maria”, “Guardiãs” e “Não me Chateia”. Há as participações especiais de Reinaldo, Rixxa, Monarco da Portela, Tantinho da Mangueira e também da já citada Beth Carvalho.

* A cantora Paula Santoro e o violonista Daniel Marques estarão gravando em maio próximo, em Bruxelas, na Bélgica, um CD em homenagem ao cancioneiro de Edu Lobo. Entre as músicas selecionadas estão “Canção do Amanhecer” (parceria com Vinicius de Moraes), “Lero-Lero” (feita com Cacaso) e “Na Carreira” (criada com Chico Buarque).

* Julião Pinheiro é filho de um dos mais profícuos e inspirados compositores de toda a história da nossa MPB: Paulo César Pinheiro. E é em parceria com o pai que ele assina as quinze canções que fazem parte de “Pulsação”, seu primeiro CD solo, o qual foi recentemente lançado pela gravadora Acari Records. Cercado por instrumentistas do primeiro time, a exemplo de Paulino Dias (na percussão), Cristóvão Bastos (no piano), Rui Alvim (no clarinete e clarone), Wilson das Neves (no tamborim) e Everson Moraes (no trombone), Julião construiu um correto álbum de sambas que o credencia para futuros voos mais altos. Embora não seja um intérprete efetivamente talhado para o canto, seus registros não chegam a comprometer as suas composições, as quais decerto encontrarão paragens mais seguras em outras vozes. Entre os melhores momentos estão “O Morro e o Samba”, “Quem É Aquela?”, “Bamba com Bamba”, “Tem Sempre Alguém” e “Esplendor”. O projeto conta com as bem-vindas participações especiais de Amélia Rabello, Ana Rabello, Gloria Bomfim e do grupo MPB-4, entre outros.

* A cantora Luciana Mello anuncia o lançamento, ainda para este ano, de um CD inteiramente voltado ao samba, o qual está sendo gravado sob a produção de Walmir Borges. Haverá a participação especial de Alcione (em “Somente Sombras”, de Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho). Quem viver ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

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