Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: DANILO CAYMMI
CD: “DON DON”
Selo: DISCOBERTAS

Embora disponibilizado na web desde o segundo semestre do ano passado, somente agora chega às lojas em formato físico, através do selo carioca Discobertas (capitaneado pelo pesquisador musical Marcelo Fróes), o novo CD de Danilo Caymmi, o filho mais novo de Dorival, ele que tantos bons serviços já prestou à música popular brasileira, especialmente como compositor, posto que possui ótimas canções de sua autoria gravadas por gente do primeiro time do nosso cancioneiro.
Danilo, que vem, há algum tempo, junto com os irmãos Dori e Nana, realizando shows com vistas a comemorar o centenário de nascimento do pai (efetivamente completado em 2014), fecha com chave-de-ouro as homenagens com o lançamento de “Don Don”, álbum produzido com galhardia por Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, o qual condensa, no seleto repertório escolhido a dedo, doze grandes temas compostos pelo Buda Nagô.
Caymmi, é verdade, já teve sua obra festejada pelos mais diversos artistas (nomes como Gal Costa, Cláudio Nucci, Jussara Silveira e o grupo carioca Casuarina, por exemplo, já lhe dedicaram discos inteiros) e é uma unanimidade nacional no quesito qualidade artística. Tendo composto razoavelmente pouco ao longo de décadas de carreira, ele possui canções que já se enraizaram no inconsciente coletivo brasileiro, transformando-se praticamente em hinos de emoções tupiniquins, a exemplo de “Nem Eu”, “O que É que a Baiana Tem?”, “Só Louco” e “Vatapá”, todas elas revisitadas nesse recém-lançado título.
Já no texto de apresentação, escrito por Júlio César Diniz, conceitua-se de forma concisa e exata o projeto como “o encontro da tradição com a inovação”. Entenda-se, aqui, a tradição por conta das antológicas canções de Caymmi, as quais perpassam gerações sem se mostrar datadas, e a inovação devido à sonoridade abraçada pelos dois produtores que conseguiram criar um ambiente sonoro contemporâneo através de harmonias singulares e criativos arranjos, alguns deles contando com o auxílio luxuoso, na orquestração das cordas, do maestro Arthur Verocai.
Danilo, com sua voz grave, segura bem a onda como intérprete, suavizando a impostação em “Dora” e se mostrando à vontade em “Lá Vem a Baiana”, dois dos destaques do disco ao lado da inédita faixa-título (parceria de Dorival com Assis Chateaubriand). E como cerejas do bolo, há as participações especiais de duas cantoras da novíssima geração que vêm conquistando cada dia mais espaço: a filha Alice Caymmi (apropriadamente sofrida, solando “Canção da Noiva”) e Ana Cláudia Lomelino (suavemente correta em “Nunca Mais”).
Flautista de primeira hora, Danilo pontua o CD inteiro com o seu instrumento, fazendo com que ele venha a se transformar em um dos pontos altos de sua coerente discografia. Corra, ouça e espalhe!

N O V I D A D E S

* Gravado ao vivo durante apresentação realizada em agosto do ano passado no Cine Theatro Brasil em Belo Horizonte (MG), acaba de chegar às lojas, nos formatos CD e DVD, o aguardado projeto que reúne duas gerações de mineiros famosos. Trata-se de Samuel Rosa (o vocalista da banda Skank) e Lô Borges (egresso do lendário Clube da Esquina) que, à frente de uma pequena e coesa banda formada por Alexandre Mourão (no contrabaixo), Robinson Matos (na bateria), Telo Borges (ao piano e teclados) e Doca Rolim (na guitarra e violão nylon) dão vida a canções propagadas por eles ou por outras vozes, caso de “Te Ver” (de Samuel e Chico Amaral) e “Resposta” (de Samuel e Nando Reis) e de “Feira Moderna” (de Lô, Beto Guedes e Fernando Brant) e “Um Girassol da Cor do seu Cabelo” (de Lô e Márcio Borges). Os artistas já haviam composto juntos anteriormente (“Dois Rios”, que conta ainda com a colaboração do citado Nando), mas nesse recém-lançado encontro, o qual aporta no mercado através da gravadora Sony Music, não apresentam novas parcerias. As duas músicas inéditas (que foram gravadas em estúdio) são: “Lampejo” (de Samuel e Nando) e “Dupla Chama” (de Lô e Chico Amaral). Há as participações especiais de Fernanda Takai e Milton Nascimento, respectivamente em “Balada do Amor Inabalável” (de Samuel e Fausto Fawcett) e “Para Lennon e McCartney” (de Lô, Márcio Borges e Fernando Brant).

* No dia 5 de junho, a cantora Wanderléa estará completando sete décadas de vida. Sempre associada à Jovem Guarda, ela tenciona lançar, para comemorar essa data redonda, um novo disco e um livro, os quais deverão chegar ao mercado até o final do ano. No CD, ainda a ser gravado, a Ternurinha interpretará somente canções da compositora Sueli Costa. Já o livro, uma biografia não convencional, está sendo escrito por ela com a colaboração do jornalista mineiro Renato Vieira.

* Outro que está a comemorar setenta anos é Jorge Ben Jor. E para homenageá-lo a gravadora Som Livre acabou de repor em catálogo dois de seus mais expressivos títulos. São os álbuns “A Banda do Zé Pretinho” e “Salve Simpatia” que foram lançados em 1978 e 1979, respectivamente (e, como os rótulos dos CDs foram pinçados dos selos dos discos originais, a curiosidade é que dá para constatar a mudança dos logotipos da gravadora ocorrida naquele período). O cantor e compositor encontrava-se, então, em seu apogeu criativo e várias das músicas presentes nos repertórios dos dois trabalhos se transformaram em hits que até hoje são executados maciçamente pelas rádios. Estão lá, entre outras interessantes canções, “Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite”, “Cadê o Penalty”, “Menino Jesus de Praga”, “Amante Amado”, “Boiadeiro”, “Adelita”, “Waldomiro Pena” e “Ive Brussell”, esta em antológico registro que conta com a participação de Caetano Veloso. Um verdadeiro presente para os fãs do artista!

* O Grooveria, grupo paulistano de samba-soul liderado pelo produtor, arranjador e baterista Tuto Ferraz, estará lançando em breve o terceiro CD, o qual vai contar com a participação especial da cantora Fernanda Abreu na regravação de “Berimbau” (de Baden Powell e Vinicius de Moraes). A conferir!

* Quarenta e cinco anos após o seu lançamento em vinil, aporta nas lojas, devidamente remasterizado e através da gravadora Som Livre, o segundo e homônimo álbum do cantor e compositor baiano Tom Zé. Ele, que foi um dos formatadores do movimento Tropicalista (mais associado, até hoje, a Caetano Veloso e Gilberto Gil), já se mostrava, à época, bastante inventivo e muitas das doze faixas que compõem o repertório do disco curiosamente resultam mais palatáveis que algumas das experiências sonoras que ele viria a criar a seguir. Entre as músicas ali apresentadas, podem ser destacadas “Lá Vem a Onda” (parceria com Anderson Benvindo), “Distância”, “Qualquer Bobagem” e “Me Dá, Me Dê, Me Diz”. Imperdível, especialmente para os aficcionados na obra do artista!

* Larissa Luz, a cantora baiana que foi vocalista do grupo baiano Ara Ketu, estará lançando, ainda neste primeiro semestre, o seu segundo álbum solo. Intitulado “Território Conquistado” e produzido pela própria artista ao lado de Jr. Tostoi, Pedro Tie e Pedro Itan, esse novo projeto vai contar com as cantoras Elza Soares, Thalma de Freitas e Manuela Rodrigues como convidadas. Quem viver ouvirá!

* Chegou recentemente às lojas o segundo e independente CD do cantor e compositor gaúcho Ian Ramil, ele que é filho de Vitor Ramil e sobrinho de Kleiton e Kledir. Intitulado “Derivacivilização”, foi produzido por ele ao lado do baixista Guilherme Ceron e se faz composto por dez músicas, todas autorais (seis delas compostas solitariamente pelo artista e as outras feitas com parceiros). Com sonoridade pesada (guitarras e bateria marcam presença, enamoradas com o chamado indie rock), o repertório se abre à suavidade em apenas dois momentos: “Devagarzinho” e “Quiproquó”, ambos bons momentos. As letras revelam as inquietudes, medos e insatisfações com um tempo cheio de desigualdades e injustiças. “Coquetel Molotov” e “Salvo-Conduto” são outros exemplos do trabalho de um bom cantor que, como autor, tem que tomar cuidado para, melodicamente, não se repetir nem se perder em temas tão somente experimentais (caso de “Rita-Cassete”). O conterrâneo Filipe Catto é o discreto convidado especial da canção-título, Gutcha Ramil surge, entre ruídos, em “Artigo 5º” e Alexandre Kumpinski, cantor do grupo gaúcho Apanhador Só, participa de “A Voz da Indústria”.

* “Anganga” é o título do disco que reúne os talentos da cantora paulistana Juçara Marçal e do artista carioca Cadu Tenório (e também o nome do Deus supremo do povo banto, Anganga Nzambi). O repertório contempla registros de tom contemporâneo de vissungos (cantos de trabalho dos escravos) e canções associadas aos congados de Minas Gerais, além de temas instrumentais compostos por Cadu ao longo do processo de criação do disco, os quais foram gravados com as vocalizações da cultuada Juçara.

* Surge, de vez em quando, no mercado fonográfico, um produto que realmente faz a diferença. No caso, está a se falar do duo formado pelo casal Vanessa Moreno e Fi Maróstica que acabam de lançar, de maneira independente, o segundo trabalho. Trata-se do CD “Cores Vivas”, cujo repertório recai sobre onze criações de Gilberto Gil. A voz bela e afinada de Vanessa surge emoldurada tão somente pelo virtuoso contrabaixo (ora acústico, ora elétrico) de Fi, comprovando que, com talento e criatividade, não se precisa de muitos aparatos para fazer brotar a beleza. O interessantíssimo projeto conta com a adesão das cantoras Fabiana Cozza e Rosa Passos, as quais se fazem presentes em “Lugar Comum” (parceria de Gil com João Donato) e “Preciso Aprender a Só Ser”, respectivamente. Entre os grandes momentos estão as faixas “Estrela”, “Extra”, “Toda Menina Baiana” e “Meio-de-Campo”. Vale a pena conferir!

* A cantora Ana Carolina disponibilizou recentemente na web quatro novas músicas, inéditas e autorais, as quais fazem parte de um projeto de caráter medicinal que se batiza “Music Experiment”. São elas: “Descomplicar”, “Outras Paisagens”, “Quer Saber” e “Ao Redor de Nós Dois”, sendo que as duas primeiras foram compostas pela artista mineira em parceria com o cantor e compositor carioca Edu Krieger, a terceira foi feita com o pernambucano Zé Manoel e a última criada com Mikael Mutti.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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