Musiqualidade

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R E S E N H A

Grupo: MPB4
CD: “50 ANOS – O SONHO, A VIDA, A RODA VIVA!”
Selo: SESC

Melhor quarteto vocal masculino da história nacional, o MPB4 completou meio século de estrada. Ainda que sejam outros os tempos e os compositores idem (os próprios componentes também agora são outros; dos quatro iniciais permanecem Aquiles e Miltinho; Ruy Faria saiu por vontade própria e Magro faleceu em 2012, tendo sido os dois substituídos por Dalmo Medeiros e Paulo Malaguti Pauleira), o amor verdadeiro à arte prevalece e isso fica claro com o recente lançamento do CD intitulado “50 Anos – O Sonho, a Vida, A Roda Viva!”, o qual chegou ao mercado através do selo SESC.
Adotando o nome que já o imortaliza, o grupo vocal iniciou sua trajetória em 1964 com a gravação de um compacto inaugural. O primeiro disco saiu dois anos depois, mas foi em 1967, ao ajudarem Chico Buarque a defender a canção “Roda Viva” em um lendário festival de música, que o quarteto ganhou, de fato, o Brasil.
O álbum recém-lançado se apresenta como um recomeço. Com a direção musical e os arranjos a cargo do pianista Gilson Peranzzetta, faz-se composto por treze canções inéditas, as quais foram submetidas (como de costume) a uma avaliação de seus componentes (entraram somente as que foram aprovadas à unanimidade ou por três deles). Em tempos onde se faz comum selecionar repertório entre canções já batidas à exaustão, torna-se extremamente salutar a ideia de recolher temas inéditos. E, ainda que nem todos cheguem à altura da história do MPB4, só o fato de se arriscar ao novo já faz desse título um importante passo na discografia do grupo.
O CD – é verdade! – começa um tanto morno, mas, quando chega à sua quinta faixa, o ouvinte se depara com uma grande criação do gaúcho Vítor Ramil. Trata-se de “Filigrana”, desde já um dos melhores momentos apresentados, e que traz, como destaque, o clarinete do sempre preciso Dirceu Leite. Irmãos de Vítor, Kleiton e Kledir (dupla que já contribuiu com alguns sucessos para a carreira do MPB4) presentearam o grupo com a interessante “A Ilha”, tema que cresce com o auxílio luxuoso do Quarteto de Cordas Radamés Gnatalli. Outras canções que merecem ser ressaltadas são a espirituosa “Ateu É Tu” (de Rafael Altério e Celso Viáfora) e a bem construída “Brasileia” (de Guinga e Thiago Amud). Nada, todavia, que supere o ápice de beleza que fica por conta de “Valsa do Baque Virado” (de Mário Adnet e João Cavalcanti). E mostrando como são admirados por gente grande, os integrantes do MPB4 também ganharam boas inéditas de gente do porte de João Bosco e Joyce Moreno (“Desossado” e “Jornal de Ontem”, compostas respectivamente com Francisco Bosco e Sergio Santos).
Enfim, um CD que merece ser conhecido por quem acompanha a coerente carreira do grupo que sempre esteve na linha de frente na música popular brasileira de qualidade. Corra e ouça!

N O V I D A D E S

* Depois de muitos adiamentos, chega enfim às lojas, em formato físico, “Comportamento Geral – Canções de Resistência”, o terceiro CD da cantora Marya Bravo. Filha de Zé Rodrix, ela possui uma bela voz de timbre potente e um alcance fora de comum, o que lhe permite se entregar de corpo e alma a contundentes canções compostas durante a ditadura, aqui no Brasil. Daí, bastante pertinente o subtítulo do trabalho, bem como sua capa na qual são perfiladas fotografias de desaparecidos políticos. Com pegada roqueira e arranjos pesados executados com destreza pelos músicos Bruno Pederneiras (guitarra), Daniel Martins (baixo) e Pedro Garcia (bateria), o álbum, que se faz composto por treze faixas, abrange canções criadas, em um período de dez anos (de 1967 a 1977), por nomes como Chico Buarque (“Roda Viva”, “Apesar de Você” e “Cálice”, esta feita com Gilberto Gil), Gonzaguinha (“Gás Neon”), Ivan Lins (“Cartomante” e “Corpos”, ambas compostas com Vítor Martins) e Paulinho da Viola (“Sinal Fechado”). Grandes momentos do repertório selecionado ficam por conta de “Pesadelo” (de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro), “Canção do Medo” (de Toquinho e Gianfrancesco Guarnieri) e “Meio-Termo” (de Lourenço Baeta e Cacaso). Essencial!

* O tema “Cor-de-Rosa-Choque”, composto por Rita Lee e Roberto de Carvalho para a abertura do “TV Mulher”, veiculado pela Rede Globo no início da década de oitenta do século passado, foi reaproveitado para a nova versão do programa que ora está fazendo parte da programação do Canal Viva, só que com uma gravação feita, sob encomenda e com a produção de Plínio Profeta, por Arnaldo Antunes e Tulipa Ruiz.

* Carol Saboya é cantora de voz doce e afinada que já tem uma carreira respeitada entre os aficcionados pela música brasileira de qualidade, mas que, infelizmente, ainda não chegou a um reconhecimento maior junto ao público nacional. Filha do compositor e pianista Antonio Adolfo, ela vem, de uns anos para cá, mostrando o seu talento no exterior e, com vistas especialmente a este mercado, está lançando um novo CD. Trata-se de “Carolina”, álbum no qual ela se faz cercada por instrumentistas de peso, caso de Leo Amuedo (guitarras), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria), Marcelo Martins (flauta e sax) e André Siqueira (percussão), além do próprio pai. O enxuto repertório de dez faixas dá vez a interessantes regravações de temas assinados por expoentes do nosso cancioneiro, a exemplo de Tom Jobim (“Passarim” e “A Felicidade”, esta parceria com Vinicius de Moraes), Djavan (“Avião” e “Faltando um Pedaço”), João Bosco (“Senhoras do Amazonas”, feita com Belchior) e Edu Lobo (“Zanzibar”). Há também incursões em músicas de Sting (“Fragile”) e da dupla John Lennon e Paul McCartney (“Hello Goodbye”). Embora o disco ainda não tenha sido lançado aqui no Brasil, já dá para adquiri-lo através de algumas lojas virtuais especializadas. Vale a pena conferir!

* Em maio, a cantora Roberta Sá realizou o show “Delírio” (calcado no repertório de seu mais recente CD homônimo) no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Na oportunidade, o registro visual foi feito e se transformará em DVD que contará com Martinho da Vila e Moreno Veloso como convidados especiais. Decerto, os fãs da bela potiguar já aguardam ansiosos pelo lançamento!

* Um dos mais talentosos nomes da nova geração, o cantor e compositor Moyseis Marques, após lançar quatro bons CDs, pôs no mercado, sem maiores estardalhaços, o EP “Made in Brasil”. Composto por seis faixas inéditas e autorais, três delas divididas com os parceiros Nei Lopes, Bena Lobo e Vidal Assis, o trabalho reitera a polivalência do artista que, além de se manter como um ás no terreno do samba, também sabe mergulhar de cabeça em outras praias, como na ótima “Madeixa” (e seu belo acento nordestino), na misturada “A Barca dos Corações Partidos” (com camada percussiva afro) e na bem construída faixa-título (entremeada com células de afoxé). Os grandes destaques do repertório, no entanto, terminam ficando mesmo com os ótimos sambas “Profissional”, “Poeta É Outro Lance” e “Juntando Cacos”, esta apropriadamente interpretada pela também atriz Laila Garin.

* O cantor e compositor paulistano Gustavo Galo se encontra em estúdio gravando as canções que farão parte do repertório de seu aguardado segundo CD solo. Intitulado “Sol”, o novo disco, que terá o guitarrista Gustavo Ruiz como produtor, vai conter dez faixas. Embora majoritariamente autoral, o repertório vai trazer canções de Jorge Mautner (“Galo Canta Salto no Escuro”, composta com Nelson Jacobina) e Luis Capucho (“Para Pegar”).

* De novo presa a um repertório unicamente de regravações, a cantora baiana Rosa Passos (tida por muitos como o João Gilberto de saia) está lançando, através da gravadora Biscoito Fino, o CD “Rosa Passos Ao Vivo”, fruto de registro feito quando de apresentação realizada no Teatro UAMA, no cidade de Carmelo, no Uruguai, em setembro de 2014. Com sua voz pequena e de timbre cada vez mais anasalado, a artista termina por se mostrar à vontade, ancorada por arranjos jazzy levados a cabo por uma enxuta e competente banda da qual fazem parte Lula Galvão (ao violão), Celso de Almeida (na bateria), o filho Paulo Paulelli (no baixo acústico) e José Reinoso (ao piano). O set list reúne canções criadas por Gilberto Gil (“Preciso Aprender a Só Ser” e “Ladeira da Preguiça”), Caetano Veloso (“Meu Bem, meu Mal”), Tom Jobim (“Você Vai Ver”), Roberto & Erasmo Carlos (“Emoções”) e Djavan (“A Ilha”, “Maçã” e “Capim”), entre outras.

* A cantora paulistana Laura Lavieri (que participa ativamente, como vocalista, dos discos e shows de Marcelo Jeneci) está escolhendo o repertório do seu primeiro CD solo, o qual deverá aportar no mercado até o final deste ano. A conferir!

* Manuela Rodrigues é cantora e compositora baiana que, diferentemente da maioria de suas conterrâneas, não se curvou ao axé. Depois de “Uma Outra Qualquer Por Aí”, seu elogiado segundo disco lançado em 2011 (ela estreou no mercado fonográfico em 2003 com “Rotas”) ela está lançando um novo trabalho, o qual aporta no mercado de maneira independente. Trata-se de “Se a Canção Mudasse Tudo”, composto por treze canções majoritariamente autorais (as exceções são “Vai que Tu Desembeste”, de Romulo Fróes e Clima, e “Risos”, de Ronei Jorge, além da regravação de “Extra II – o Rock do Segurança”, de Gilberto Gil). Manuela é cantora de timbre agudo e voz agradável que se destaca pela astúcia da boa intérprete que é. No recém-lançado álbum, ela se cercou de cinco produtores, o que deu uma sacudida nas canções, dificultando que as mesmas se parecessem entre si. Há as participações especiais de Silvia Machete (em “Amor de Carne e de Osso”), João Cavalcanti (em “Nenhum Homem É uma Ilha”) e do violinista Nicolas Krassik (em “Qualquer Porto”). Os melhores momentos do repertório apresentado ficam por conta de “Lista”, “Bagagem” e “Ôxe, Ôxe, Ôxe!”, mas se faz justo destacar também os dois interessantes temas que ela compôs para o filho: “Ventre” e “Marcha do Renascimento”.

* Enquanto percorre o Brasil ao lado de Dado Villa-Lobos com a turnê “Legião Urbana XXX”, Marcelo Bonfá seleciona repertório para um novo disco que terá como mote a cachaça e se intitulará “Música de Alambique”. Já estão confirmadas as regravações de “Água Viva” (de Raul Seixas e Paulo Coelho), “Cachaça” (de Hélio Flanders) e “Moda da Pinga” (de Laureano). Quem viver ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

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