MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A     1

 

Cantora: NANA CAYMMI

CD: “QUEM INVENTOU O AMOR”

Gravadora: SOM LIVRE

 

Um dos álbuns mais elogiados e premiados de 2002 foi o “O Mar e o Tempo”, que a cantora Nana Caymmi, famosa pelo timbre grave característico e pelo apurado gosto musical consolidado ao longe da elogiada carreira, dedicou, pela primeira vez em sua totalidade, à obra de seu pai, o compositor Dorival Caymmi, um dos maiores nomes da MPB em todos os tempos. Dois anos depois, unindo-se aos dois irmãos, Dori e Danilo, Nana continuou a homenagem com o álbum de estúdio “Para Caymmi”, o qual terminou se desdobrando em um trabalho ao vivo homônimo lançado naquele mesmo ano.

Acaba de chegar às lojas, através da gravadora Som Livre, mais um disco da artista dedicado ao cancioneiro caymmiano. Intitulado “Quem Inventou o Amor” e produzido por José Milton, tem a missão de fechar a trilogia com chave de ouro.

Trata-se de um CD de extremo bom gosto. Nana continua com a voz em plena forma, embora não se atreva mais a arroubos de interpretação como em tempos passados. Bem mais contida mas nem por isso menos interessante, continua destilando sensibilidade faixa após faixa. Os arranjos, delicados e sofisticados ao mesmo tempo, ficaram a cargo do já citado Dori e de Cristóvão Bastos. Ambos conhecem bem Nana, dona de reconhecido gênio difícil, e sabem bem do que ela gosta e ao que se permite. A surpresa que ressalta aos ouvidos mais atentos reside na inclusão de instrumentos pouco comuns em discos anteriores, como violino, cello e acordeom.

Músicos de ponta foram arregimentados e estão lá, dentre outros, feras como Jorge Hélder (baixo), Paulo Braga (bateria) e João Lyra (violão), já bastante familiarizados com o repertório escolhido, todo ele voltado para os sambas canções compostos por Dorival quando chegou ao Rio de Janeiro, depois de sua fase inicial praieira registrada enquanto viveu na Bahia.

Das quatorze faixas selecionadas, as canções “Você Não Sabe Amar”, “Não Tem Solução”, “Desde Ontem”, “Adeus”, e “E eu Sem Maria” já tinham sido gravadas pela própria Nana no CD inaugural da série. Dentre as demais, terminam se destacando “Horas”, “Nunca Mais”, “Valerá a Pena” e “Sábado em Copacabana”.

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: SUSIE MATHIAS

CD: “CANÇÃO DAS MOÇAS”

Gravadora: PAULUS

 

Realizar um disco conceitual que reúna, de maneira equilibrada, os vários ritmos que fazem parte desse caldeirão que constitui o universo musical brasileiro é tarefa quase que hercúlea. Vários artistas já tentaram fazê-lo, alguns foram mais felizes na empreitada, outros, porém, por nem de longe passaram.

Chegou recentemente às lojas o CD intitulado “Canção das Moças”, da cantora paulista Susie Mathias, um trabalho que mostra que a complexidade acima destacada pôde ser suplantada com criatividade incomum. Ao invés de resgatar canções conhecidas de diversos gêneros sob o pretexto de construir um painel estilístico, Susie resolver unir-se ao compositor Oswhaldo Rosa e juntos criaram as treze faixas que compõem o repertório do belo álbum recém-lançado.

Com ele, Susie começa a desenvolver sua carreira solo, concomitantemente ao trabalho de que faz parte desde 1998: ela é uma das integrantes do Mawaca, grupo de cantoras e pesquisadoras da área da chamada world music, dirigido pela incansável Magda Pucci.

O CD ora em resenha tem sua atmosfera genuína realçada por arranjos característicos executados por músicos de rara sensibilidade. Susie canta bem com um timbre adequado às interpretações e lembra, por vezes, Carmem Miranda, especialmente nas faixas mais animadas. As canções passeiam por influências diversas (samba-de-roda, coco, merengue, forró, boi-bumbá e chorinho) e ressaltam a miscigenação nascida nas aldeias indígenas, nas senzalas e nos terreiros de candomblé. Uma música que adveio do povo e é feita para o povo. Fica claro, dessa forma, o detalhado trabalho de pesquisa realizado pelos compositores. Nada ali é por acaso e está sempre dentro de um contexto (é só procurar entender).

Diferentemente da maranhense Rita Ribeiro (com quem, a princípio e de forma equivocada, pode ter seu trabalho comparado), Susie optou por um disco voltado para as raízes (Rita, desde o começo, faz um trabalho eminentemente mais pop), resgatando as reais origens do nosso cancioneiro.

Há vários momentos magníficos no disco. Dentre eles merecem destaque a bela marcha-rancho “Adobá Yê”, o delicioso maxixe “Tu Não Vale Um Real”, a sensível milonga estilizada “O Encantado” e o bem-humorado carimbó “Dêx’stá”.

 

 

N O V I D A D E S

 

Cris Emmel
·               Na quinta-feira passada, o bar Teimonde viu suas acomodações serem lotadas por um público ávido em presenciar o retorno à cena musical sergipana da excelente cantora Cris Emmel. A artista deu um tempo na carreira, mas volta agora com garra total, cheia de planos e novas idéias. Dentre as convidadas especiais estavam as amigas Amorosa, Gwendolyn Thompson, Susana Walois e Ana Aparecida. Um showzaço que merece ser bisado!

 

·               Em fase final de escolha de repertório, outro expoente da música sergipana, a propriaense Amélia Daura, planeja entrar em estúdio ainda neste primeiro semestre para registrar as canções que farão parte do seu primeiro CD. Com participação ativa do maridão, o exímio violonista Jorge Roberto, o trabalho vai contar com várias músicas inéditas e algumas regravações. Quem viver, verá!

 

·               Acaba de chegar às lojas o novo DVD de Zélia Duncan que resultou do registro do show “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”, título de seu último (ótimo) CD de estúdio. A cantora incluiu no repertório uma bela canção inédita, parceria com o bandolinista Hamilton de Holanda, intitulada “Valsa em Si”.

 

·               Também acaba de ser lançado o primeiro DVD de Zé Renato, o qual foi gravado ao vivo na casa de shows “Estação da Lapa”, no Rio de Janeiro. Artista que tem trânsito livre na cena musical brasileira, o novo trabalho de Zé conta com as participações especiais de Milton Nascimento (em “Ânima”) e do grupo Boca Livre (em “Bicicletae”).

 

·               A coletânea intitulada “Lado Z” chegará às lojas em junho próximo e trará vários fonogramas gravados por Zeca Baleiro em discos de colegas, tais como Lobão, Jards Macalé e Martinho da Vila. Registros feitos pelo artista maranhense em discos-tributo, como os feitos para Clara Nunes e Odair José, também estarão presentes.

 

·               Alcione convidou e Gilberto Gil aceitou: o Ministro da Cultura fará uma participação especial no próximo CD que a Marrom começa a gravar em breve e que chegará ao mercado até o final do ano. A faixa escolhida foi “Entre a Sola e o Salto”, obra-prima obscura que Gil compôs especialmente para a cantora maranhense e que foi por ela gravada originalmente no seu excelente disco “Alerta Geral”, lançado em 1978.

 

·               O compositor Zé Geraldo é até hoje conhecido pelo megasucesso “Cidadão”, regravado por vários artistas, dentre eles o paraibano Zé Ramalho. Hábil na mistura de ritmos rurais com a linguagem do rock, o artista se encontra atualmente em estúdio registrando as canções que farão parte do 16º álbum de sua carreira, o qual se intitulará “Catadô de Bromélias”. O repertório será composto por nove faixas inéditas, com destaque para uma canção de autoria de sua filha, a também cantora Nô Stopa.

 

·               Mais conhecido como Seu Figueirinha, o patrão da Marinete, ambos personagens de “A Diarista”, programa semanal da Rede Globo, o carioca Sérgio Loroza na verdade começou sua carreira artística como cantor. Atuando também como um dos vocalistas do Monobloco, Loroza acaba de lançar, de maneira independente, o seu primeiro CD solo. Produzido por Carlos Pontual e intitulado “MBP – Música Brasileira de Pista”, o trabalho contém onze faixas, a maioria composta pelo próprio artista com alguns parceiros. Loroza não faz feio como cantor e chega a incorporar um Tim Maia maneiro na faixa “Fique Mais, Baby!”. Entre inspirado rap (“Madureira… É Assim Que É!”) e divertido pagode (“O Meu Ponto Fraco é Mulher”), o CD atinge os seus melhores momentos com o samba-funk “Uma Coisa é uma Coisa” e a contagiante “Brother” (esta assinada pelo talentoso Rodrigo Maranhão). Dá-lhe, Serjão!

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


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