Musiqualidade

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L A N Ç A M E N T O    1

Cantor: ZÉ RAMALHO
CD: “ZÉ RAMALHO AO VIVO”
Gravadora: SONY / BMG

O paraibano Zé Ramalho faz parte do grupo de artistas nordestinos que assolou o cenário da música popular brasileira na virada dos anos 70 para os 80. Ao seu lado, estavam nomes como Fágner, Geraldo Azevedo, Belchior, Amelinha, Elba Ramalho, Ednardo e Alceu Valença. Durante anos, esses artistas criaram e interpretaram grandes canções que são lembradas e regravadas até hoje.

Depois de um período meio esquecido, há cerca de cinco anos e impulsionado pelo projeto “O Grande Encontro”, Zé voltou a ser bem executado, em grande parte pelas músicas que compôs no início de sua carreira, mais precisamente as que constam de seus três ótimos primeiros discos.

São essas canções que dão sustentação ao novo CD do cantor de voz grave e discursiva, gravado ao vivo e produzido por Robertinho de Recife. Estão presentes sucessos inesquecíveis originalmente gravados por ele, tais como: “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Admirável Gado Novo”, “Chão de Giz” e “Garoto de Aluguel”. Mas também podem-se ouvir criações suas que ficaram famosas através das vozes de companheiros de estrada. É o caso de “Frevo Mulher” (o maior sucesso da hoje esquecida cantora Amelinha, que já foi casada com Zé), de “Banquete dos Signos” (composta especialmente para o segundo disco da prima Elba Ramalho), de “Táxi Lunar” (que popularizou Geraldo Azevedo) e de “Eternas Ondas” (que ajudou a consolidar o lado de intérprete de Fágner). Há também faixas saídas das trilhas sonoras de novelas globais de sucesso, a exemplo de “Mistérios da Meia-Noite” (de “Roque Santeiro”) e de “Entre a Serpente e a Estrela” (de “Pedra Sobre Pedra”).

Completando o repertório, há a inoportuna regravação de “Sinônimos”, canção derramada que destoa do estilo do artista, e a constrangedora versão de “Batendo na Porta do Céu”, do repertório de Bob Dylan, além de alguns interessantes ‘lado B’ da obra do próprio Zé: a psicodélica “A Dança das Borboletas” e a inteligente “Canção Agalopada” são bons exemplos disso.

Mas a surpresa maior fica para a última faixa, a única canção inédita do trabalho, uma faixa bônus registrada em estúdio: é a belíssima “Corações Animais”, de autoria dos iniciantes Luciana Browne, Vinícius e Fátima Leão, uma daquelas músicas mágicas, de força e beleza avassaladoras, que pega o ouvinte já na primeira audição.

Em um país em que se exige o novo a cada seis meses, não deixa de ser alvissareiro constatar que um compositor do calibre de Zé Ramalho ainda consegue fazer valer o seu talento atemporal… Ainda que sua safra mais recente de composições não chegue nem perto da força de suas canções de vinte e cinco anos atrás.

 

L A N Ç A M E N T O    2

Cantor: SEU JORGE
CD: “CRU”
Gravadora: ST2 RECORDS

O que tem Seu Jorge que os outros não têm? Ginga própria, uma voz peculiaríssima e a sorte de ter caído nas graças de um seleto grupo que escolhe quem vão ser os nomes da vez nestas terras brazilis. Precisa mais?

Então, tá! O cara participou, como ator, de filmes bem sucedidos dentro e fora do Brasil e circula com a mesma desenvoltura entre bailes de favelas e festas de coberturas em Copacabana. De forma que, sendo assim, não haveria momento mais apropriado para estar lançando o seu segundo CD aqui no Brasil (desde o começo do ano que ele já rola no exterior).

Depois da estréia com o aclamado disco “Samba Esporte Fino”, Seu Jorge optou por fazer de “Cru” um álbum bem mais sutil, o que se reflete, antes de tudo, nos arranjos bastante econômicos, resultado da pequena quantidade de instrumentos presentes.

Disputado por multinacionais do mundo fonográfico, Seu Jorge, a fim de garantir a autonomia de sua obra, preferiu lançar o novo trabalho por uma gravadora pequena, a ST2 Records, mas isso não impediu que o disco viesse a alcançar ótimas vendagens, posicionando-se entre os dez mais vendidos atualmente no eixo Rio-São Paulo.

Embora sua voz seja pequena, ela é extremamente charmosa, especialmente porque sabiamente utilizada pelo cantor que, ciente de até onde pode ir, permite ousar apenas nas zonas que lhes são de maior conforto. É o que faz com galhardia ao abusar dos graves em canções como “Bola de Meia” (de Duane), por exemplo, de longe um dos melhores momentos do trabalho. Há espaço para a crítica e a ironia em “Mania de Peitão” (parceria com Bento Amorim) e para a politicamente incorreta “Chatterton” (original de Serge Gainsbourg adaptada por Dani Costa). E, comprovando que realmente está de olho no mercado externo, Seu Jorge explicita o seu inglês carioca na releitura de “Don’t” (de Jerry Leiber e Mike Stoller) e arrisca-se em italiano na bossa-nova “Fiore de La Città” (de Robertinho Brant). Outros bons momentos ficam por conta das faixas “São Gonça” (do próprio artista, na qual se ouvem ecos de Luiz Melodia) e de “Eu Sou Favela” (de Noca da Portela e Sérgio Mosca). No todo, é mais marketing do que qualquer outra coisa, mas vale a pena conhecer para ficar por dentro do cult nacional!


N O V I D A D E S

Erramos! Na semana passada, dissemos que a cantora Vânia Bastos havia gravado a canção “Minha Alma”, do repertório da banda O Rappa. Na verdade, quem já registrou essa música foi a também cantora Vânia Abreu.

Chico Buarque vai estar presente em dois trabalhos que chegarão às lojas ainda este mês. Um deles é no primeiro CD solo de Dado Villa-Lobos (ex Legião Urbana) intitulado “Jardim de Cactus”. Chico estará recitando o poema “Sol e Carne”, de Rimbaud, inserido na faixa “Natureza”, parceria de Dado com Humberto Effe. O outro é no novo disco da cantora Paula Santoro, que conta com a produção de Rodolfo Stroeter. Chico faz dueto com a cantora em “Sem Fantasia”, música de sua própria autoria. Neste trabalho, Paula também recria, entre outras, canções como “Léo” (de Chico e Milton Nascimento), “Na Batucada da Vida” (de Ary Barroso) e “É Sério” (de Djavan e Fátima Guedes).

A gravadora Som Livre põe no mercado também em outubro a trilha sonora do especial “Hoje é Dia de Maria”. A maioria dos temas são assinados por Luiz Fernando Carvalho (diretor da microssérie) em parceria com Tim Rescala e Luís Alberto de Abreu. As canções serão interpretadas pela cantora Rosa Maria e pelos próprios atores (Rodrigo Santoro, Letícia Sabatella, Fernanda Montenegro, Stênio Garcia e Osmar Prado).

Em comemoração ao “Ano do Brasil na França”, alguns artistas tupiniquins aportaram em Paris no primeiro semestre deste ano. Uma das mais aclamadas foi, sem sombra de dúvida, a cantora Ithamara Koorax que fez o público levantar-se para aplaudi-la em suas magníficas apresentações no sempre lotado Carreau de Templo. E por falar na diva, ela já grava, em Londres, o seu novo CD que leva a produção de Arnaldo DeSouteiro e vem com um repertório recheado de canções de Herbie Hancock.

Resultante da parceria entre a gravadora Biscoito Fino e a Acari Records, surgiu no meio fonográfico brasileiro o selo “Quelé”, especializado em pôr no mercado CD’s de samba. Seu mais novo lançamento é o álbum “Bem Que Mereci”, de Elton Medeiros, um dos bam-bam-bãs desse gênero musical. Produzido por Luciana Rabello, o disco é formado, em sua maioria, por músicas do próprio Elton com diversos parceiros, como Paulinho da Viola, Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro. Mas há, como curiosidades, canções praticamente inéditas de quatro dos nossos maiores sambistas: Cartola (“Partiu”), Nelson Cavaquinho (“Lavo Minhas Mãos”), Zé Kéti (“Vestido Tubinho”) e Ismael Silva (“Não Avance o Sinal”). As faixas “Relaxa” (parceria de Elton com Carlinhos Vergueiro) e “Demorou” (parceria com Roque Ferreira) também merecem destaque.

Em breve, estará chegando às lojas o sexto CD de Chico César intitulado “De Uns Tempos pra Cá”. Acompanhado pelo Quinteto da Paraíba, o artista comprova o seu talento, incursionando, desta vez, por um terreno mais erudito com sua música de cunho popular. As cordas do Quinteto embalam músicas de diversas épocas e sonoridades e trazem, como alguns dos destaques, as canções “Pra Cinema”, “Moer Cana” e “1 Valsa para 3”, esta uma parceria com seu xará Chico Pinheiro.

E na próxima semana, teremos uma entrevista exclusiva com Marta Mari, a mais arteira das nossas compositoras. Imperdível!

Rubens Lisboa é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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