MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A     1

 

Cantora: LEILA PINHEIRO

CD: “NOS HORIZONTES DO MUNDO – AO VIVO”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Leila Pinheiro, reconhecidamente uma das maiores vozes do Brasil na atualidade, mereceria muito mais reconhecimento do que já possui. Essa afirmação pode ser constatada através do CD “Nos Horizontes do Mundo – Ao Vivo”, que acaba de chegar às lojas através da gravadora Biscoito Fino (também disponível no formato DVD).

Leila é uma cantora correta, daquelas que dificilmente desafinam, e possui uma técnica invejável com uma respiração corretíssima e uma pronúncia perfeita. Também musicista (toca piano), sempre soube transitar entre os melhores compositores da MPB, embora por vezes não tivesse construído discos à altura de seu talento.

Desde o lançamento de seu último CD de estúdio, o homônomo que deu origem ao atual, vem tentando recuperar o tempo perdido. Intérprete profícua, lapida canções menos inspiradas que, na sua voz, ganham cores inusitadas. Um desses exemplos é “Mais Uma Vez” (parceria morna de Renato Russo e Flávio Venturini), presente no recém-lançado álbum, que cresce consideravelmente em seu registro.

A base do repertório reside no já citado disco anterior. Dele, estão presentes, entre outras, “Gozos da Alma” (de Francis Hime e Geraldo Carneiro), “A Vida Que a Gente Leva” (de Fátima Guedes), “Pela Ciclovia” (de Marcos Valle) e “Renata Maria” (a incensada primeira parceria de Ivan Lins e Chico Buarque). Até essas canções parecem melhores agora que em seus registros originais. E isso se faz perfeitamente explicável: é fruto do amadurecimento alcançado pela artista ao longo dos shows realizados.

Entre releitura mais suave de um de seus maiores sucessos, “Catavento e Girassol” (de Guinga e Aldir Blanc), e um medley que une os belos sambas “Isso Aqui, O Que É?” (de Ary Barroso) e “Brasil Pandeiro” (de Assis Valente), Leila ainda resgata com delicadeza ímpar “Escravo da Alegria” (de Toquinho e Mutinho), transformando-a em um dos melhores momentos do novo trabalho.

O DVD traz mais algumas canções que o CD, dentre elas “Onde Deus Possa Me Ouvir” (de Vander Lee), “Serra do Luar” (de Walter Franco), “Brincar de Viver” e ”O Amor Nascer” (ambas de Guilherme Arantes).

Aconselhável para todos os que possuem bom gosto!

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantor: GERALDO AZEVEDO

CD: “O BRASIL EXISTE EM MIM”

Gravadora: SONY & BMG

 

Geraldo Azevedo nasceu em Petrolina (PE), mas se mudou na juventude para Recife, passando a integrar o grupo Construção, do qual também faziam parte o percussionista Naná Vasconcelos e a cantora Teca Calazans. Logo em seguida, resolveu arriscar-se no Rio de Janeiro onde, após tocar no Quarteto Livre, grupo que acompanhava Geraldo Vandré, terminou por gravar seu primeiro disco, em 1972, ao lado de Alceu Valença.

Na final da década de setenta, obteve o período de maior sucesso, tendo suas músicas disputadas por artistas que, à época, começavam as suas carreiras, como Amelinha, Fágner e Elba Ramalho. Ao longo dos anos, acumulou alguns grandes sucessos, dentre os quais “Moça Bonita” (que chegou a ser regravada por Nara Leão) e “Dia Branco” (que recentemente mereceu novos belos registros de Simone e de Daniela Mercury).

Mas os tempos são outros, é verdade! Muita coisa mudou na música popular brasileira nestes últimos trinta anos, muita gente apareceu, outros sumiram no rastro da poeira. Geraldo, lutando contra os modismos, continua…

Normal então que ele, compositor inspirado que soube construir uma obra caracterizada pela mistura de forró, frevo, música negra e bossa nova, depois de tanto tempo de estrada, não veja as idéias lhe fluírem com a criatividade de outrora.

No entanto, em seu mais recente CD (que chegou há pouco tempo às lojas) intitulado “O Brasil Existe Em Mim”, através da gravadora Sony & BMG, fica claro que, embora esmaecidos, os traços do criador autêntico continuam vivos. É assim que as poesias de Geraldo Amaral e Capinam (parceiros constantes) aterrissam certeiras nas boas melodias do maracatu “O Que Me Faz Cantar” e do choro “Chorinho de Criança”. É assim que o genuíno ritmo nordestino aparece em “São João Barroco” e “Já Que o Som Não Acabou”, faixas em que comparecem, de forma afetiva, os já citados Elba e Alceu, respectivamente. É assim que o romantismo inteligente aflora nas delicadas “Em Sonho” (parceria com Paulinho Pedra Azul) e “O Nome do Mistério” (parceria com Torquato Neto).

Geraldo ratifica a fama de exímio violonista e, embora a voz demonstre os primeiros sinais de cansaço, mostra elogiável coragem ao gravar um disco de inéditas que ainda tem o mérito de apresentar sua filha, Clarice Azevedo, a qual se mostra à vontade no bonito reggae “Ver de Novo”. 

 

 

N O V I D A D E S

 

·               O programa “Destino Brasil Música – Um Outro Som”, do Canal Brasil, que é apresentado pelo compositor e músico Pedro Luís, um dos criadores do grupo Monobloco, estará mostrando no dia 12 (quinta-feira próxima) o trabalho da banda sergipana NaurÊa. Ponto pr’os rapazes!

 

·               O sergipano Gladston Rosa (irmão de Antônio Rogério, o qual desenvolve, há anos, um trabalho em dupla com Chiko Queiroga) está lançando o seu primeiro CD. Gravado de maneira independente, o trabalho (intitulado “Encontrar Você”) apresenta onze canções de autoria do próprio Gladston, algumas delas assinadas com parceiros. Bom músico, o rapaz canta legal e mostra-se inspirado, passeando por vários ritmos, como reggae, funk, baião e samba. Dentre os destaques podem ser citadas as faixas “Minha Identidade É Você”, “Muralha”, “Morenice” e “Beijo Veneno”. 

 

·               A primeira das duas caixas que reunirão discos de Roberto Carlos feitos exclusivamente para o mercado estrangeiro já está pronta e, com o aval do Rei, deverá chegar em breve ao mercado brasileiro.

 

·               O CD “Paulo Moura e Ociladocê Interpretam Dorival Caymmi” foi lançado originalmente em 1992 pelo mago do clarinete com o sexteto que o acompanhava à época. Através da gravadora Biscoito Fino, o trabalho acaba de voltar ao catálogo com um outro título (“O Som de Dorival Caymmi”), mas continua se mostrando bastante atual.

 

·               Embora lançado no ano passado com distribuição da Tratore, nunca é tarde para destacar a beleza do CD intitulado “Linha d’Água” que entrelaça os talentos do pianista Luís Felipe Gama e da cantora Ana Luiza (Atenção! Não confundir com uma outra Anna Luisa, a do também belo CD “Do Zero”). Os dois conseguiram atingir um patamar onde técnica e emoção parecem ser uma coisa só. Ana é cantora perfeita, de requintado apuro vocal, timbre belíssimo e inteiramente afinada. Luís Felipe, um músico invejável. O CD traz dezoito faixas, dentre as quais merecem destaque: “Cajaíba” (de Haroldo Oliveira), “Amora” (de Renato Teixeira, com a participação do autor nos vocais), “Suportar Esse Amor” (de Luiz Felipe em parceria com Nathan Marques) e “Ninho de Vespa” (insuspeito frevo de Dori Caymmi letrado por Paulo César Pinheiro). 

 

·                “Movie’n Bossa” é o título do CD que Pery Ribeiro acaba de lançar pela gravadora Albatroz. Como o próprio nome já o diz, trata-se de temas estrangeiros de filmes famosos revestidos com arranjos que remetem à bossa nova. Pery é cantor de grande voz, mas nunca conquistou o merecido sucesso, talvez por conta de uma discografia irregular, talvez devido a um mercado selvagem que sempre deu valor a ritmos oportunistas. Filho de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, dois ícones da nossa MPB, Pery, com esse novo álbum, ratifica estar em plena forma vocal. Tomara que, em breve, venham outros trabalhos, de preferência com o artista cantando na língua pátria e apresentando várias canções inéditas. Destaques para as faixas “On a Clear Day”, “Our Love Is Here To”, “Hi Lili Hi Lo” e “Watch Wanth Happens”.

 

·               Em entrevista recente, quando indagada sobre quais os CD’s que estava a ouvir atualmente, Marisa Monte respondeu que especialmente o de uma cantora chamada Bluebell. De forma imediata os radares foram ligados e todos quiseram saber de quem se tratava. Pois aí vai a informação: Bluebell é o nome artístico de Bel Garcia, paulista que lançou, através do pequeno selo Super Reds, o seu primeiro álbum intitulado “Slow Motion Ballet”. Também compositora, assina treze das quatorze faixas do disco, duas delas em parceria com Henry Oh. Completa o repertório a regravação de “Junk”, de Paul McCartney. Aliás, somente quatro canções possuem letras em português, tendo as demais sido escritas em inglês. Com boa pronúncia, um timbre bastante particular (que chega a soar, em alguns momentos, infantil) e aparência desplugada, a cantora faz um som meio experimental, misturando samplers com instrumentos pouco convencionais (estão entre eles banjo, bandocello e oboé). Em meio a alguns instantes de pegada mais pesada, saltam aos ouvidos delicadas inserções de violão e teclado. Dentre os melhores momentos estão “The Fight In The Café”, “Bolhas de Sabão”, “It’s Out There”, “Who’s The Freak?” e “La Vie En Chose”. Se não chega a empolgar, realmente Bluebell termina se destacando por fugir do convencional que tanto ronda o mercado fonográfico atual. E falando em Marisa Monte: ela incluiu, no roteiro do seu novo espetáculo, a canção “Pedindo Pra Voltar” (de Carlinhos Brown e Alain Tavares), gravada originalmente no último ótimo CD da Timbalada, e vem obtendo excelente receptividade por parte do público…

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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