MUSIQUALIDADE, por RUBENS LISBOA

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: WADO

CD: “TERCEIRO MUNDO FESTIVO”

Gravadora: INDEPENDENTE

 

Wado, que vem sedimentando o seu nome a nível nacional e é considerado um dos bons talentos da nova safra de artistas alagoanos, na verdade nasceu em Santa Catarina. Em 2001, lançou o seu CD de estréia no mercado fonográfico (“O Manifesto da Arte Periférica”), tendo obtido boa receptividade por parte da crítica dita especializada. O segundo trabalho surgiu no ano seguinte (“Cinema Auditivo”) e se mostrou mais singelo e melodioso que o primeiro disco. Em 2004, saiu um novo álbum (“A Farsa do Samba Nublado”) e com ele veio a oportunidade de integrar a caravana do Projeto Pixinguinha. Logo em seguida, Wado realizou uma elogiada apresentação durante as comemorações do ano do Brasil na França.

Após quase três anos alternando-se entre o eixo Rio-São Paulo, Wado voltou há pouco para Maceió onde gravou o seu mais novo CD intitulado “Terceiro Mundo Festivo”, uma produção independente, que acaba de chegar às lojas em formato simples (de envelope) e com sugestão de preço bastante acessível.

Produzido pelo próprio artista ao lado de Pedro Ivo Euzébio e Dinho Zampier, é composto por dez canções, todas elas assinadas por Wado, a grande maioria dividida com parceiros. A nova banda que o acompanha é composta por músicos da cena local de Alagoas: o já citado Dinho Zampier nos teclados, Tup nas programações, Rodrigo Peixinho na bateria e Bruno Cavalcanti no baixo.

Trata-se, de longe, de seu melhor disco. Nele, Wado mostra grande amadurecimento e se não cederam suas salutares inquietudes musicais, agora elas se mostram menos incisivas, o que proporciona uma aceitação mais direta do público ouvinte com relação ao seu som.

As várias influências continuam lá presentes, desde o funk carioca até o afoxé baiano, passando, é claro, pelo samba discreto, pelo reggaeton e pelas programações eletrônicas. Estes ritmos todos são permeados também com referências mundiais, como as batidas de Timbalad, M.I.A. e Pharrel. As letras, via de regra, alcançam temas bem originais e algumas delas chegam a apresentar tiradas bastante interessantes.

Waldo canta legal, com uma forma malemolente de pronunciar as palavras e um timbre gostoso que combina com o espírito despojado (mas nunca raso) de suas canções. Os melhores momentos do disco ficam por conta da excelente e contagiante “Fortalece Aí”, da inteligentemente explícita “Teta” e da arquitetônica “Reforma Agrária no Ar”.

O recém-lançado CD é uma ótima oportunidade para os que ainda não conhecem o trabalho de Wado fazê-lo. Quem tem mente aberta e admira a criatividade aliada ao bom gosto certamente não irá se arrepender.

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: OLÍVIA HIME

CD: “PALAVRAS DE GUERRA – AO VIVO”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Durante muitos anos, a cantora Olívia Hime foi mais conhecida por ser a mulher de Francis Hime, compositor que, ao lado de Chico Buarque, criou vários grandes sucessos da nossa MPB como “Vai Passar”, “Trocando em Miúdos” e “Atrás da Porta”, por exemplo. O fato incontestável é que Olívia, embora tendo inevitavelmente sua carreira atrelada à do marido, sempre possuiu talento próprio. Tanto que, antes mesmo de assumir sociedade com Kati Almeida Braga na direção da Biscoito Fino (talvez a única gravadora que atualmente no Brasil valoriza apenas a chamada música inteligente), já havia lançado discos memoráveis, muitos deles conceituais, como “A Música em Pessoa”, no qual musicou poemas do mais famoso Fernando português, “Estrela da Vida Inteira”, em que convidou nomes como Tom Jobim e Dorival Caymmi, entre outros, para dar som a poesias do nosso Manuel Bandeira, e “Serenata de uma Mulher”, homenagem à obra da maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga.

No ano passado, reunindo várias canções do cineasta e poeta angolano Ruy Guerra (o qual – registre-se – há muito já se tornou brasileiro) compostas ao lado de Chico, Francis, Edu Lobo, Sérgio Ricardo e Carlos Lyra, a artista pôs no mercado o ótimo CD “Palavras de Guerra”, devidamente registrado em estúdio. Como extensão desse trabalho, acaba ser lançado o projeto “Palavras de Guerra – Ao Vivo”, composto de CD e DVD gravados durante show realizado em julho do ano passado no Sesc Pompéia, em São Paulo.

Ao lado de músicos de primeira categoria (Cristina Braga na harpa, João Lyra no violão, João Carlos Coutinho no piano, Diego Zangado na bateria e Ricardo Medeiros no baixo), Olívia mostrou-se perfeitamente à vontade ao mergulhar em um repertório composto, em grande maioria, por músicas difíceis de serem interpretadas, com construções harmônicas sinuosas e melodias intrincadas. Como o vínculo dela com a literatura não vem de hoje, até porque ela já se revelou ser também uma boa letrista, o roteiro vem costurado por algumas citações feitas pelo próprio Guerra, o que termina por conferir um charme mais que especial ao trabalho, transformando o espetáculo numa espécie de “antologia poética”.

Olívia possui boa extensão vocal, uma pronúncia irrepreensível (clareza e emissão perfeitas) e um timbre muito agradável que lhe permite passear com desenvoltura, seja por temas mais suaves (“Máscara” e “Último Canto”), seja por canções mais balançadas (“Jogo de Roda” e “Esse Mundo é Meu”). Dentre os destaques estão as emocionadas e emocionantes releituras para as obras-primas “Fado Tropical”, “Por um Amor Maior” e “Entrudo”.

Com rara sensibilidade e apurado senso estético, Olivia Hime transforma as palavras de Guerra em momentos seus, únicos, e que merecem ser conhecidos por todos os verdadeiros amantes da música de qualidade.

 

 

N O V I D A D E S

 

·               Mônica Salmaso, acompanhada pelo excelente grupo Pau Brasil, estará se apresentado, nos dias 14 e 15 deste mês (quarta e quinta-feira próximas), no Teatro Atheneu. O repertório prioriza as canções de Chico Buarque, base de seu último e belo CD. Mônica é cantora corretíssima e certamente realizará apresentações memoráveis. Estaremos por lá!

 

·               A gravadora Biscoito Fino transformará em CD e DVD alguns dos melhores momentos registrados no programa “Zoombido”, apresentado pelo cantor Moska no Canal Brasil. Haverá duetos do artista com Mart’nália, Zélia Duncan, Chico César, Zé Renato, Joyce e Lenine, entre outros. O lançamento está previsto para o começo do segundo semestre.

 

·               Ivo Meirelles está terminando de gravar as canções que comporão o seu próximo CD. Além de parcerias inéditas com Sandra de Sá e Fernanda Abreu, haverá também algumas releituras de grandes sucessos, a exemplo de “A Voz do Morro” (de Zé Kétti) e de “Além do Horizonte” (de Roberto e Erasmo Carlos) que vai contar com a participação especial de Alcione.

 

·               A paraibana Zabé da Loca acaba de lançar seu segundo CD aos 83 anos de idade. Intitulado “Bom Todo”, o disco leva a assinatura de Carlos Malta e traz no repertório canções de autoria da própria Zabé, excelente tocadora de pífano, tais como “Limoeiro”, “Veja a Vida Como É” e “Queima”, além de versões personalíssimas do Hino Nacional e de “Numa Sala de Reboco” (parceria de Luiz Gonzaga e José Marcolino). Maciel Salu toca rabeca em “Pifada da Louca”.  

 

·               Com o título de “Cordel Banda Larga”, Gilberto Gil volta ao mercado fonográfico com um esperado CD que trará várias canções inéditas (“Olho Mágico”, “Gueixa no Tatame”, “Despedida de Solteiro”, “Não Tenho Medo da Morte” e “Canô”, esta em homenagem ao centenário da mãe de Caetano e Bethânia) e as leituras de Gil para suas duas boas e recentes parcerias com Jorge Mautner apresentadas originalmente no álbum “Revirão” que este lançou em 2006. Gil volta ainda a homenagear sua atual companheira Flora através da canção “A Faca e o Queijo”, que segue os moldes da antológica “A Linha e o Linho”.

 

·               Itamar Assumpção nos deixou cedo, mas sua obra inquieta e atual continua pulsando. Um belo exemplo disso se constatou durante a apresentação de onze letras inéditas do criativo artista no show “Sem Pensar, Nem Pensar”, que contou com as presenças de Miriam Maria e Sergio Molina. Em breve, essas músicas serão gravadas em CD, comprovando que Itamar continuou inspirado até os derradeiros momentos de vida.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

 

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