MUSIQUALIDADE, por RUBENS LISBOA

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: WILSON SIMONINHA

CD: “MELHOR”

Selo: S DE SAMBA

 

Filho de Wilson Simonal (uma das grandes vozes dos anos sessenta e dono de um balanço e divisões rítmicas de primeira), Wilson Simoninha acaba de lançar o seu terceiro CD de estúdio, o primeiro pelo selo S de Samba, este de propriedade do parceiro e amigo Jair Oliveira, por sua vez filho do veterano Jair Rodrigues. Os outros dois discos de Simoninha saíram em 2000 e 2002 e são, respectivamente, “Volume 2” e “Sambaland Club”.

O artista herdou do pai, além do nome e da semelhança física, um timbre vocal bastante parecido e o gosto por canções suingadas. Alguns denominam esse tipo de música de “black music”, outros de “sambalanço” (que seria uma mistura de samba com pitadas de soul e funk, resultando num tempero próprio, coisa que somente os brasileiros possuem). Independente de classificações meramente enquadratórias, trata-se de música de primeira qualidade.

Simoninha surgiu no mercado quase ao mesmo tempo em que seu irmão Max de Castro e pelo fato de o primeiro disco deste ter sido recebido de forma bastante efusiva pela mídia, Simoninha teve o seu trabalho, naquela oportunidade, relegado a um segundo plano. Convém destacar, no entanto, que, desde o primeiro momento, ambos integraram o grupo que se lançou sob o nome de Artistas Reunidos e do qual faziam parte também o já citado Jairzinho, Luciana Mello, Pedro Mariano e Daniel Carlomagno.

O recém-lançado álbum (intitulado “Melhor”) é composto por doze faixas e mostra que Simoninha vem amadurecendo a olhos vistos. O repertório traz canções agradáveis desde a primeira audição e, além de algumas assinadas pelo próprio artista sozinho, apresenta outras resultantes de boas parcerias com Pierre Aderne, Jorge Ben Jor e Seu Jorge (este também presente nos vocais de “Ela é Brasileira”), afora alguns temas inéditos de outros compositores como Leleo, Marco Mattoli e Gabriel Moura.

“A Saideira (Samba Negro)”, de pegada contagiante, abre com chave-de-ouro o álbum que, logo em seguida, traz a lume a incendiária “Homem de Gelo”. Outros bons momentos ficam por conta da mais suave “É Bom Andar a Pé”, da deliciosa “Balanço” e especialmente da inspirada “26 de Dezembro”, canção que de tão bela já valeria pelo CD inteiro.

Um disco bem legal que marca o início de um novo tempo na carreira de Wilson Simoninha. Merece ser conhecido!

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: MARINA MACHADO

CD: “TEMPO QUENTE”

Gravadora: EMI

 

A cantora mineira Marina Machado vem tentando, já há algum tempo, mostrar seu talento para além das fronteiras de seu Estado natal. Artista razoavelmente conhecida em sua aldeia, recebeu o precioso aval de Milton Nascimento no CD “Pietá” (de 2003) quando, ao lado das colegas Maria Rita (então ainda uma promessa) e Simone Guimarães, participou de algumas faixas. Milton, inclusive, é um grande entusiasta da arte de Marina, tanto que das três é ela quem, até hoje, continua a receber afagos constantes do mestre. Ele está, inclusive, presente no terceiro e recém-lançado CD da cantora, o qual acaba de chegar às lojas através da gravadora EMI, dividindo os vocais da canção “Discovery”, de Lula Queiroga.

Intitulado “Tempo Quente”, o álbum mostra, através de suas quinze faixas, uma artista ainda em busca de sua identidade. Marina canta direitinho, é verdade, embora não possua uma grande extensão vocal nem um timbre que a faça se destacar dentre as diversas intérpretes femininas que pipocam semanalmente nestas terras brazilis. Mas é sábia ao se cercar de músicos de ponta e entregar o seu trabalho a pessoas sérias e que, de fato, entendem do riscado.

No novo disco, ela passeia por vários compositores, numa tentativa salutar de mostrar diversidade, embora tenha optado, no geral, por registros cool (a la bossa nova), o que dão um tom monocórdio ao final. O problema maior, no entanto, é que algumas das canções escolhidas se mostram rasteiras e o uso de desnecessárias programações eletrônicas ressalta, em alguns momentos, o espírito pouco inspirado delas. É o caso, por exemplo, da faixa-título (de Anderson Guerra), de “Assim” (de Moreno Veloso) e de “Disco Voador” (de Affonsinho), que terminam não dizendo a que vieram.

Entre incursão em bom tema sem letra (“Lilia”, de Milton Nascimento) e alguns momentos de inéditas razoáveis (“Candura”, de Max de Castro, e “Loa”, de New), os destaques terminam mesmo ficando com as regravações de “A Paraíba não é Chicago” (de Marcos e Paulo Sérgio Valle) e “Samba de Gesse” (de Vinicius de Moraes). Além do já citado Milton, também comparecem em afetivas participações especiais Seu Jorge (na suave “Otimismo”, de Célio José e Marize Santos) e Samuel Rosa (na oportunamente resgatada “Os Grilos”, de Roberto e Erasmo Carlos).

Ainda que este não seja o trabalho que vai dar a Marina Machado o espaço que ela almeja, vale a pena conhecê-lo, até para não ficar à margem do que vem acontecendo de novidade na nossa música popular brasileira.

 

 

N O V I D A D E S

 

·               Já nas lojas o segundo CD da cantora paraibana Eleonora Falcone luxuosamente intitulado “Eu Tenho um Pedaço de Sol que Guardo Comigo desde Menina”. Depois da boa receptividade de “Apetite”, seu disco de estréia lançado em 2000, do qual fizeram parte nomes da cena atual carioca, como Pedro Luís, Luís Capucho, Suely Mesquita e Marcos Sacramento, o novo trabalho independente ratifica o talento dessa artista que canta e compõe com iguais doses de talento. Desta vez, o repertório alia criações inéditas da própria Eleonora com outras de compositores contemporâneos da Paraíba, tudo embalado por uma linguagem cosmopolita e universal, como ela própria costuma dizer, através da qual exploram-se as relações entre a música pop contemporânea e os diversos estilos caracteristicamente nordestinos, estabelecendo-se um diálogo entre a tradição e a contemporaneidade. São dez faixas em que a voz afinada e de belo timbre de Eleonora passeia com precisão. Os melhores momentos ficam por conta de “Carta de Amor” (de Eleonora e Lúcio Lins), “Nome na Areia” (de Paulo Rô e Águia Mendes), “Nunca é Pra Sempre” (de Adeildo Vieira) e especialmente “Ô Serena Serená” (de Odete do Pilar). Realmente um belo trabalho!

 

·               Um outro artista nordestino acaba de relançar um álbum bem bacana. Trata-se do pernambucano Herbert Lucena e seu belo disco independente, “Na Pisada desse Coco”, originalmente gravado em 2004. O trabalho é composto por dez canções que resgatam toda a alegria de um povo através de xote, baião e ciranda, sem falar no coco (explícito já no título do trabalho), o qual domina todo o repertório e traz à baila as salutares influências dos mestres Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva e Azulão. Dentre os destaques, além da faixa-título, estão as canções “Cheiro de Fulô”, “Ciranda Guerreira” e “Forró de Caruaru”.

 

·               Depois dos diversos elogios e vários prêmios alcançados com o seu excelente CD de estréia, através do qual resgatou a obra de seu avô, o fértil compositor Xerém, a cantora Cris Aflalo promete para breve o lançamento de seu novo trabalho, já totalmente pronto. Com produção assinada por ela própria ao lado do exímio violonista Luiz Waack, o repertório do álbum vai trazer, além de composições próprias, releituras de canções de Arnaldo Antunes, Carlos Careqa, Lula Queiroga, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros. E promete ser um dos melhores produtos deste ano!

 

·               Novidade para os fãs de Zeca Baleiro! O artista tenciona lançar dois CD’s de canções inéditas este ano. O primeiro chegará às lojas no mês de julho e se intitulará “O Coração do Homem-Bomba”. Já o segundo está disponível em novembro.

 

·               O primeiro e esperado trabalho solo do elogiado compositor Marcelo Camelo (ex Los Hermanos) também já está totalmente gravado e chegará às lojas no comecinho do segundo semestre. Trará as participações especiais de Dominguinhos, Domenico Lancelotti, Clara Sverner e do grupo paulista Hurtmold.

 

·               Depois de se afastar de Maria Rita (com quem trabalhava desde a produção do ótimo álbum “Samba Meu”), o sambista Leandro Sapucahy só pensa agora em lançar o seu segundo CD intitulado “+1+Uma”, o qual chegará às lojas em breve através da gravadora Warner Music. Dentre os convidados especiais, as presenças de gente bem bacana como Arlindo Cruz (em “Força de Vontade”), Serginho Meriti (em “Periferia”) e Leci Brandão (em “Mais Poder”). A surpresa fica por conta do resgate de “A Cidade contra o Crime”, belo e esquecido samba de breque de autoria de Gonzaguinha e por ele gravado originalmente em 1980.  

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

 

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