MUSIQUALIDADE, por RUBENS LISBOA

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: ZÉ RENATO

CD: “É TEMPO DE AMAR”

Gravadora: MP,B / UNIVERSAL

 

Zé Renato começou a despontar no cenário musical brasileiro quando integrou, no final da década de setenta, o grupo vocal Boca Livre. Logo depois, juntou-se a um outro ex-integrante, Cláudio Nucci, e juntos formaram, por um certo período, uma dupla bem afinada.

Ao optar pela carreira solo, Zé já emprestou sua bela voz a um repertório que homenageou as obras de Silvio Caldas, Zé Kéti, Noel Rosa e Chico Buarque e que tem sua base no samba. Mas ele não é somente um sambista. Está acima de quaisquer rótulos. O artista, que em outras oportunidades já se mostrou também um compositor inspirado, é um cantor corretíssimo. Dono de uma voz de emissão limpa e cujo timbre se destaca entre os intérpretes masculinos deste imenso Brasil varonil, tem se mostrado sempre inquieto e já gravou discos memoráveis como, por exemplo, os lançados em 2000 (“Cabô”) e 2003 (“Minha Praia”).

 

No ano em que se comemora o cinqüentenário da (já) velha Bossa Nova, Zé Renato resolveu correr na contramão e acaba de lançar, numa parceria entre as gravadoras MP,B e Universal, um CD totalmente voltado às canções que fizeram parte de um outro movimento musical que marcou toda uma geração: a Jovem Guarda (responsável por catapultar Roberto Carlos às paradas de sucesso a partir dos anos sessenta). Intitulado “É Tempo de Amar” (boa canção de Pedro Camargo e José Ari), o trabalho é composto por treze faixas. Aparentemente distantes de seu universo musical, as canções receberam tratamento tal que se mostram tão rejuvenescidas quanto enobrecidas.

 

Eu que, particularmente, não sou muito chegado àquele cancioneiro, cujas características principais são as batidinhas meio rock meio nada (e meio é quase sempre muito ruim) e as letras bobinho-adolescentes (nada contra essa fase da vida), não tenho como deixar de reconhecer que Zé Renato realizou um grande álbum, que foge da obviedade, não obstante certas canções escolhidas tenham recaído sobre alguns dos maiores hits, como: “Nossa Canção” (de Luiz Ayrão), “Coração de Papel” (de Sérgio Reis), “Lobo Mau” (versão de Hamilton Di Giorgio para “The Wanderer”, de Ernest Mareska) e “A Última Canção” (de Carlos Roberto). No entanto, também foram pinçadas outras músicas menos conhecidas. É o caso de “Quero Ter Você Perto de Mim” (de Neneo) e de “Por Você” (insuspeita incursão de Vinicius de Moraes no terreno do iê-iê-iê, parceria com Francisco Enoé).

 

Os arranjos receberam um tratamento quase acústico (mesmo com a presença esparsa de algumas programações), ressaltando nuances anteriormente não vislumbradas. É o que se detecta, por exemplo, na faixa “Com Muito Amor e Carinho” (de Chil Deberto e Eduardo Araújo) que se transforma em um delicioso momento, pontuada pela gaita de Milton Guedes e por uma simples caixa de fósforo “tocada” pelo exímio baterista Marcelo Costa. A produção do CD ficou a cargo de Dé Palmeira, talentoso baixista egresso da primeira formação do Barão Vermelho e que vem se mostrando criativo e oportuno nas medidas certas (nos últimos anos, seu nome é presença certa na ficha técnica dos discos da exigente Adriana Calcanhotto).

 

Entre os destaques do CD ora resenhado estão as faixas: “Não Há Dinheiro Que Pague” (de Renato Barros), “Custe o Que Custar” (de Hélio Justo e Edson Ribeiro, iluminada pelo acordeão de João Carlos Coutinho) e “O Tempo Vai Apagar” (de Paulo Cezar Barros e Getúlio Cortes, que faz parte da trilha sonora da telenovela “A Favorita”). Em “Eu Não Sabia Que Você Existia” (de Renato Barros e Toni), Zé Renato recebe Nina Becker (uma das vocalistas da Orquestra imperial) como convidada. Os dois, aliás (Zé e Nina) foram recentemente escolhidos pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como o melhor cantor e a melhor cantora de 2008.

Em meio a canções pueris, Zé Renato se mostra, de fato, em plena maturidade musical. Corra e ouça!

 

 

R E S E N H A     2

 

Banda: JOTA QUEST

CD: “LA PLATA”

Gravadora: SONY & BMG

 

Tudo faz crer que a grande aposta da gravadora Sony & BMG para este final-de-ano é mesmo o novo CD da banda mineira Jota Quest. Não fosse assim, não estaria sendo disponibilizada uma tiragem inicial de 50.000 cópias do álbum intitulado “La Plata”, número bastante considerável para a atual época de vacas magras.

 

O grupo começou a se formar em 1993, com Paulo Diniz (PJ) no baixo e Paulinho Fonseca na bateria, programação e samplers. Depois vieram Márcio Buzelin nos teclados e o guitarrista Marco Túlio Lara. O vocalista Rogério Flausino chegou por último, depois de ser aprovado em um teste no qual concorreu com mais doze candidatos.


Como em todo início de carreira, a banda passou os primeiros dois anos se apresentando na noite de Belo Horizonte, muitas vezes sem cachê. O nome surgiu como uma homenagem a Johnny Quest, o personagem do desenho animado. No começo, foi abreviado para J. Quest mas, desde 1998, os rapazes optaram pela grafia atual: Jota Quest.

 

O primeiro disco profissional chegou ao mercado em 1996 e emplacou, de cara, dois sucessos: “Encontrar Alguém” e “As Dores do Mundo” (esta, uma versão moderninha para o hit setentista de Hyldon). Mas o boom aconteceu mesmo foi com o segundo trabalho (“De Volta ao Planeta”), de cujo repertório fazem parte, dentre outras, as canções “Fácil” e “O Vento”. De lá para cá, a banda freqüentou as paradas com invejável constância, engatando sucessos como “Dias Melhores”, “Na Moral”, “Amor Maior” e “O Sol”.

 

Com um som em que se misturam fartas doses de pop com pitadas de black music, é fato que a base dançante sempre se sobressai, não obstante sempre sejam incluídas algumas baladas românticas como contraponto. É essa cartilha, já testada com receptividade junto ao público, que novamente é utilizada na concepção do novo CD que acaba de ser lançado.

 

Um ouvinte mais atento, no entanto, irá observar pelo menos dois detalhes deveras importantes. Um deles diz respeito às canções escolhidas. Nota-se aqui, de fato, uma evolução interessante nas letras, antes de uma ingenuidade gritante. E as próprias melodias se mostram mais consistentes. Pode até não haver uma canção avassaladora, cujo refrão pegue de imediato, mas uma audição mais atenta vai revelar que, no conjunto, as faixas se equiparam. São boas canções, sim, e algumas delas abrem o leque a referências que vão desde nomes atuais da nossa música (Otto e Marcelo Yuka na ótima “Paralelepípedo” e Gilberto Gil na mediana “Ladeira”, parceria do grupo com Nelson Motta) até música antiga do nosso cancioneiro (“Serra da Boa Esperança”, de Lamartine Babo, na contundente “O Grito”) e obra-prima argentina (“Besame Mucho”, de Consuelo Velásques, na excelente faixa-título).

 

O outro detalhe que merece ser ressaltado é que os fraseados vocais do (bom) cantor Rogério Flausino (que, calcados em vícios americanóides, muitas vezes pecavam pelo excesso) foram domados e dosados, decerto que pelo trabalho desenvolvido pelo competente Liminha, o qual assumiu a produção do atual projeto, depois da deserção de Mário Caldato Jr. e Kassin, os dois nomes inicialmente convidados.

Dentre os melhores momentos deste novo trabalho estão a mais calminha “Vem Andar Comigo”, a sensual “Seis e Trinta” e a pulsante “Nobody’s Watching”. Há, ainda, a participação do americano Ashley Slater nos vocais das faixas “Hot To Go” e “So Special”.

Enfim, um CD bacana que marca um upgrade na discografia do Jota Quest!

 

 

N O V I D A D E S

 

·                     No próximo dia 19 (sexta-feira), a partir das 22 horas, o grupo instrumental “Em 3” formado pelo fenomenal Saulo Ferreira na guitarra, por Júnior Di Lima no baixo e por Rômulo Filho na bateria estará se apresentando no Jazz Clube (antiga livraria Poyesis). Só se você for muito babaca é que vai perder essa oportunidade de conhecer o que há de melhor nessa seara em terras dos Cajueiros dos Papagaios. Eu estarei por lá!

 

·                     O sergipano (radicado há mais de vinte anos em terras cariocas) Lula Ribeiro estará realizando na próxima terça-feira (dia 16), a partir das 21 horas, no Teatro Tobias Barreto, o show de lançamento do seu projeto “Palavras Que Não Dizem Tudo”, que acaba de ser disponibilizado concomitantemente nos formatos CD e DVD. O registro foi feito durante apresentação no Bar do Tom no Rio de Janeiro e conta com as participações especiais de Moska e Luiz Melodia. Muito legal!

 

·                     Em breve estará aportando nas lojas o novo CD de Moisés Santana que chegará ao mercado através da gravadora Lua Music. O álbum contará com as participações especiais das cantoras Wanderléa e Virgínia Rosa.

 

·                     Mallu Magalhães é jovem cantora e compositora de dezesseis anos que se fez tornar conhecida através da disponibilização de algumas de suas músicas na internet. A aceitação foi tanta que a garota (que atualmente namora Marcelo Camelo) acaba de lançar o seu primeiro CD com quatorze faixas, todas de sua autoria e várias delas compostas no idioma inglês (as exceções são apenas “O Preço da Flor” e “Vanguart”). Também musicista (ela toca violão e gaita), Mallu certamente tem tudo para despontar como uma das grandes revelações de 2009. Sua voz de timbre infantil é bonita, educada e afinada, além de possuir extensão considerável, conforme se pode constatar através da faixa “Noil”, grande momento do disco. A predominância do som folk (country, para alguns) pode cansar em alguns momentos, mas serve como diferencial entre as dezenas de cantantes que pululam diuturnamente por aí.

 

·                     O terceiro DVD da videografia de Jorge Vercillo já está gravado (o registro foi feito em recentes apresentações do cantor no Canecão), mas somente chegará ao mercado no próximo ano e terá como base do repertório o mais recente CD do artista (“Todos Nós Somos Um”). O projeto conta com as participações especiais de Jota Maranhão e Serginho Moah, vocalista da banda gaúcha Papas da Língua, e vai apresentar ao público uma canção inédita: o reggae “Trem da Minha Vida”.

 

·                     O excelente compositor Guinga lançará, em breve, pela gravadora Biscoito Fino, um novo CD (que também será lançado em DVD), o qual será dividido com o clarinetista Paulo Sérgio Santos. Dentre as vinte músicas que comporão o repertório, quatro serão inéditas. Basicamente instrumental, o álbum contará com a participação especial de Lenine na faixa “Saci”.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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