Musiqualidade, por Rubens Lisboa

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: MOSKA e CONVIDADOS

CD: “ZOOMBIDO – Volume 1”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Legenda
Moska já assinou Paulinho Moska. É um dos maiores representantes da nossa música atual e tem canções gravadas por grandes nomes da MPB, dentre os quais Maria Rita, Ney Matogrosso e Elba Ramalho (a próxima será Maria Bethânia, que incluirá parceria inédita dele com Chico César no álbum que lançará este ano).

Carioca, ele desde cedo ouviu muita música, tendo aprendido a tocar violão aos treze anos. No entanto, antes de se decidir efetivamente pelo lado musical, achou que poderia ser ator, chegando a atuar em alguns filmes. Logo em seguida, participou do grupo vocal Garganta Profunda e, em 1987, formou a banda de pop-rock Inimigos do Rei (que chegou a emplacar alguns poucos hits, como “Adelaide” e “Uma Barata Chamada Kafka”, por exemplo).

A carreira solo iniciou-se em 1993 com o lançamento do primeiro CD solo (“Vontade”), mas foi com o trabalho seguinte (“Pensar É Fazer Música”) que ele começou a ter o seu nome conhecido e comentado, vindo a engatar sucessos como “O último Dia”, “A Seta e o Alvo” e “Me Chama de Chão”.

Inquieto, ele (que atualmente encontra-se gravando um novo CD de inéditas) mergulhou de cabeça na função de condutor do programa “Zoombido”, veiculado pelo Canal Brasil (da Net), no qual tem recebido vários colegas com o mote de desvendar o processo criativo das canções. “Como é que se faz uma canção? O que sente um compositor quando cria? Qual o sentido da música em suas vidas? Que tipo de atmosfera precisam para escrever uma letra? Como foi a primeira vez que a música invadiu suas vidas?” são perguntas tanto constantes quanto pertinentes quando se trata de falar ao público em geral sobre os mistérios do processo de surgimento de músicas e letras. Há três anos Moska vem apresentando esse programa que agora, pinçando seis dos convidados, chegou recentemente às lojas, nos formatos CD e DVD, através da gravadora Biscoito Fino.

O subtítulo do disco (“Para Se Fazer Uma Canção”) é o nome da única faixa inédita (a que fecha o trabalho), uma construção sui generis de vinte e seis artistas (cada um contribuiu com um verso da letra) que, por incrível que possa parecer, resultou bem legal.

O trabalho recém-lançado é o primeiro volume de outros que, decerto, virão. O formato é simples. Os artistas participam cantando acompanhados, na maioria das vezes, apenas de violão. Isso, se por um lado facilita a produção e mostra a canção na sua forma bruta (como já dito anteriormente, o objetivo intrínseco do programa), por outro termina resultando um tanto monocórdio ao final da audição.

Estão presentes, nesta leva inicial, alguns dos nomes que se apresentaram em 2006. A disposição é sempre da seguinte forma: primeiro o convidado canta sozinho e logo depois vem outra faixa em que ele divide os vocais com o próprio Moska. Assim, se Zeca Baleiro escolheu duas de suas canções mais tristes (“Você Só Pensa Em Grana” e “Cigarro”), o xará Pagodinho utilizou-se de convidados para fazer sobressair “Estrela” e “Mentiras”. E se Chico César resgatou canções talhadas para um instrumental minimalista (“Tambor” e “A Prosa Impúrpura do Caicó”), as canções geralmente percussivas de Pedro Luís se ressentem do peso característico (“Soul” e “Parte Coração”). Duas boas parcerias de Moska surgem em meio ao repertório (“Relampiano”, com Lenine que também canta “Do It”) e “Entretanto” (com Mart’nália, presente ainda em “Benditas”).

As fotos do encarte foram feitas pelo próprio Moska e soam distorcidas posto que registradas através de tijolos de vidro, dando uma idéia de que o processo criativo é assim mesmo: no começo disforme e só depois ganhando os contornos definitivos.

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantor: ZÉ RAMALHO

CD: “TÁ TUDO MUDANDO”

Gravadora: EMI

 

Legenda
O novo CD do paraibano Zé Ramalho é um projeto voltado para a obra de Bob Dylan (para quem não sabe, Zé, no começo da carreira, era chamado de “O Bob Dylan do sertão”). Sempre tendo assumido sua identificação com o artista norte-americano, Zé na verdade demonstrava, já há algum tempo, a vontade de lançar um trabalho em que pudesse revestir algumas canções dylaneanas com roupagem brasileira. Daí resultou o álbum “Tá Tudo Mudando”, que aportou recentemente nas lojas através da gravadora EMI.

Trata-se basicamente de um disco de versões. Das doze faixas apresentadas somente uma é cantada no seu idioma original (“If Not For You”). E apenas uma outra é inédita: “Para Dylan”, que foi composta por Zé para explicitar a homenagem ora em tela e que, unida à sem-letra “Wigmam”, abre o CD. Inicialmente, ela surge declamada, mas quando passa a ser cantada traz nitidamente o carimbo melódico de seu criador. Impossível dissociá-la de outras tantas primas-irmãs já lançadas em trabalhos pretéritos.

Robertinho de Recife assina a produção. Ele trabalha com Zé há um tempo considerável, tendo-o ajudado a conceber alguns de seus melhores trabalhos. Assim, soa natural a sonoridade que permeia o disco, já característica dos produtos capitaneados pelo artista pernambucano. Na parte instrumental, merecem ser destacadas as participações de um dos filhos de Zé, João Ramalho, aos violões e de Frejat, o qual enobrece com sua guitarra a faixa-título.

Zé Ramalho resistiu bem ao longo dos anos, mesmo sendo público e notório que, durante certo período, sua vida não tenha sido das mais regradas. A voz grave e característica continua em pleno vigor e sua forma única de cantar (com divisões quase que estacatadas) permanece intocável. Quanto aos arranjos, eles tentam, no geral, unir as referências originais das canções a pegadas nordestinas e quase sempre cumprem o seu intento.

A faixa que possui maior chance de vir a tocar nas rádios é “O Homem Deu Nome a Todos Animais” (sic). Com versão assinada pelo próprio Zé, possui de fato um refrão facilmente assimilável. Mas nem todas as versões foram feitas por ele, tanto assim que foram arregimentados Maurício Baia e Gabriel Moura, dois promissores talentos da nova geração carioca (e que têm contribuído com frequência nos discos de Seu Jorge), os quais ficaram responsáveis pela letra brasileira de “Things Have Changed”, transformando-a na faixa-título.

Os mais aficcionados em gravações feitas por intérpretes ligados à chamada MPB poderão reconhecer e reencontrar “Negro Amor” (originalmente gravada por Gal Costa), inspirada versão feita a quatro mãos por Caetano Veloso e Péricles Cavalcante, e “O Vento Vai Responder” (que, em versão distinta, consubstanciou-se em um dos maiores sucessos de Diana Pequeno).

O conhecido lado roqueiro de Zé faz-se presente no trabalho através de “Rock Feelingood” (com direito até a citação ao “cigarrinho do diabo”). Mas a maior surpresa fica mesmo por conta da transmutação de “Mr. Tambourine Man” em “Mr. do Pandeiro”, apropriada adaptação de Bráulio Tavares que homenageia agora nosso insuperável Jackson do Pandeiro.

Ainda presentes no repertório estão “O Amanhã É Distante” (que fez parte do projeto “A Luz do Solo”, lançado por Geraldo Azevedo em 1985), e “Batendo Na Porta do Céu” (que o próprio Zé já havia registrado anteriormente, embora com letra um pouco diferente da agora apresentada).

Na falta de um CD de inéditas, os muitos, ardorosos e incansáveis fãs de Zé Ramalho poderão matar a saudade do ídolo…

 

 

N O V I D A D E S

 

·                     A excelente sambista Ana Costa em breve estará fazendo chegar às lojas o seu segundo CD. Intitulado “Novos Alvos”, o álbum virá recheado de canções inéditas, dentre as quais “Crônica de uma Cidade Armada” (de Celso Fonseca) e “Estranho” (de Délcio Carvalho e Mariozinho Lago). As participações especiais ficam por conta de Martinho da Vila, Moska, Leila Pinheiro e Carlinhos Brown.

 

·                     Mais um título da série “Letra & Música” é posto nas lojas pelo selo Discobertas de propriedade do pesquisador musical Marcelo Fróes. Trata-se de um volume dedicado ao cancioneiro de George Gershwin, conhecido pianista novaiorquino que, ao lado do irmão Ira, letrista de mão cheia, assinou grandes clássicos da música americana. Estão presentes na coletânea nomes como Cauby Peixoto, Ângela Ro Ro, Leny Andrade, Renato Russo e Cida Moreira. Todas as faixas cantadas são em inglês (há três instrumentais), com exceção de “Alguém Que Olhe Por Mim” em versão interpretada por Nara Leão.

 

·                     O cantor baiano Netinho estará gravando em maio próximo, aqui em Aracaju, CD e DVD ao vivo para marcar os vinte anos de sua carreira. O projeto deverá contar com alguns convidados, tais como: Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Saulo Fernandes.

 

·                     O novo CD do mineiro Vander Lee já tem o seu título definitivo: “Faro”. Nas lojas em abril, o novo trabalho conta com a assinatura de Marcelo Sussekind na produção. Eclético (o repertório autoral trará ritmos como baião, balada, reggae, folk e samba), Vander contará com as participações especiais da cantora e esposa Regina Souza, do africano Lokua Kanza e do rapper Renegado. O repertório é basicamente autoral e contará com uma parceira (póstuma) do artista com Cartola. A única regravação fica por conta de “Ninguém Vai Tirar Você de Mim (de Edson Ribeiro e Hélio Justo), gravada originalmente por Roberto Carlos.

 

·                     O envolvimento de Roberto Menescal com Andy Summers, guitarrista do grupo inglês The Police, vai dar origem a um DVD de caráter documental que já está sendo formatado. Alguns artistas confirmaram participação, tais como Leila Pinheiro, Marcos Valle e Fernanda Takai.

 

·                     A primeira música de trabalho do novo CD dos Titãs (nas lojas dentro em breve) será “Antes de Você”. A faixa já está garantida na trilha sonora nacional da próxima telenovela global das 19h que se intitulará “Caras e Bocas”.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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