MUSIQUALIDADE, por Rubens Lisboa

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantora: CÉU

CD: “VAGAROSA”

Gravadora: UNIVERSAL

 

Quando lançou o seu primeiro disco, em 2004, a cantora Céu recebeu de cara uma ajuda e tanto da mídia especializada que caiu de amores pela jovem e bela paulistana. Elogiado em demasia, o disco serviu para despertar a curiosidade em torno dela que logo angariou uma legião de fãs entre a galera mais descolada. No exterior, seu nome transformou-se em sinônimo de sucesso, alcançando ótima receptividade em diversos países e em várias publicações especializadas na chamada “world music”. É de se ressaltar que Céu decidiu se tornar cantora aos quinze anos, influenciada por uma infância repleta de interferências musicais a ela apresentadas pelo pai, compositor, arranjador e musicólogo. Mas foi após passar um período morando em Nova Iorque que ela se achou pronta para gravar o seu álbum de estreia.

Cinco anos se passaram e eis que acaba de aportar nas lojas (quase que concomitantemente no Brasil e no exterior) o seu segundo álbum, aguardado com justificável expectativa. Artista contratada pelo selo independente Urban Jungle, aqui o disco de Céu teve a distribuição da gravadora Universal.

Intitulado “Vagarosa” e produzido pela própria artista ao lado de Beto Villares, Gustavo Lenza e Gui Amabis, o trabalho resulta em um constatável salto de qualidade. De fato, Céu agora parece estar encontrando o seu próprio caminho.

Composto por treze faixas, o CD mostra uma cantora que, não obstante a pequena extensão da voz, sabe o que fazer com ela. Ancorada em um repertório prioritariamente autoral (são dela doze canções, várias ao lado de parceiros), a cantora sabe até aonde pode ir e faz de seu timbre doce um charme a mais. Já os arranjos aparecem munidos de boas ideias e, mesmo recheados de programações, estas terminam por soar apropriadas, vez que não descaracterizam as canções em seus nascedouros. No repertório se constatam nítidas influências das músicas brasileira e jamaicana. E é por aí que Céu caminha com malemolência entre sambas, reggaes e similitudes pop. Por seu turno, as letras soam, na maioria, interessantes. Não que se vá esperar grandes achados poéticos, mas elas cumprem bem a função de transportar o ouvinte para a atmosfera agradável (por vezes lúdica) que permeia o álbum.

No novo trabalho, destacam-se a irresistível “Bubuia” (faixa de autoria de Céu ao lado de Anelis Assumpção e Thalma de Freitas, a qual conta com a participação das duas parceiras nos multifacetados vocais), os inspirados reggaes “Cangote” (que traz o ritmo marcante de Gigante Brazil, baterista falecido em 2008) e “Comadi” (composta com o já citado Beto Villares), e o samba troncho “Vira-Lata” (que conta com o auxílio luxuoso de Luiz Melodia como convidado especial). A única canção alheia presente é “Rosa Menina Rosa”, de Jorge Ben Jor (pescada do primeiro disco do artista, “Samba Esquema Novo”, de 1963), numa psicodélica releitura que traz a participação dos Los Sebosos Postizos, efêmera formação que reúne Bactéria (ex-Mundo Livre S/A), o guitarrista Lúcio Maia, o baixista Dengue e o baterista Pupillo (os três integrantes da Nação Zumbi).

É indiscutível o fato de que Céu vem sendo muito bem trabalhada. E que por trás de todo esse ar de aparente descaso (como insiste em propagar nas entrevistas que vem dando) tem mais inteligência que veracidade no discurso. Mas nada que desabone sua estratégia. Pelo contrário, cada um escolhe as armas que lhe parecem mais eficientes. As escolhas de Céu têm dado certo. E não há quem possa deixar de reconhecer que, musicalmente falando, o ganho foi realmente considerável. Agora é acompanhar os próximos capítulos…

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: PITTY

CD: “CHIAROSCURO”

Gravadora: DECKDISC

 

A verdade é que a baiana Pitty, uma estranha roqueira oriunda do ninho do axé music, deu sorte quando surgiu no mercado fonográfico nacional em 2003 e emplacou de imediato. É que sua música barulhenta nada tinha de realmente novo e seu timbre jamais foi dos mais agradáveis. No entanto, faltava, à época, alguém para preencher um espaço deixado há tempos por Rita Lee (como falta agora – e ninguém parece perceber, embriagados que estão com o boom do samba – uma efetiva representante da música jovem nordestina, vez que Elba Ramalho já não é, de há muito, novidade para ninguém) e o pessoal da gravadora Deckdisc soube perceber isso, tanto que deu certo.

Pitty lança agora “Chiaroscuro”, o seu terceiro álbum de estúdio, e mostra um considerável amadurecimento: embora a voz continue sem grandes atrativos, as letras das canções já apresentam rompantes de inteligência e algumas melodias surgem palatáveis não somente para os que fazem parte da galera underground que a cultua.

O novo disco, que acaba de chegar às lojas, leva a assinatura (como de costume) de Rafael Ramos na produção e traz onze faixas inéditas, todas elas de autoria da própria artista ao lado dos bons músicos que integram a banda que a acompanha (o baterista Duda, o baixista Joe e o guitarrista Martin). A música escolhida como carro-chefe é “Me Adora”, mas os melhores momentos ficam por conta de “8 ou 80”, “Fracasso”, “Trapézio” e “Medo”. E seguindo o modismo iniciado por Marina Lima e avalizado recentemente por Adriana Calcanhotto e Ana Carolina, toques de tango conferem um molho especial à confessional “Água Contida”.

É na contramão de suas saltitantes colegas baianas que Pitty vai seguindo o seu caminho. Que a evolução musical lhe seja, pois, a partir de agora, uma constante…

 

 

N O V I D A D E S

 

 

·                     A nossa dupla Chiko Queiroga & Antonio Rogério está lançando mais um CD, desta feita patrocinado pela Funarte e resultante da seleção deste ano do Projeto Pixinguinha. Intitulado “Acompanhando o Sol”, o trabalho apresenta quinze faixas, a maioria delas regravações de sucessos como “A Mestiça”, “Fim de Primavera”, “Desculpe o Modo”, “Rio em Cores de Cinema” e “Serpente”. Mas há também boas canções inéditas como “Tiete de Bob” e “Chuva e Temporal”. A outra artista selecionada por Sergipe foi Patrícia Polayne que está em fase de finalização de seu primeiro álbum em um estúdio de Recife (PE).

 

·                     A cantora Dani Gurgel lança, de maneira independente, o CD “Agora” no qual reúne vários compositores da novíssima geração, inclusive em participações especiais nos vocais. Trata-se de um trabalho solo de intérprete, mas que soa coletivo pela quantidade de artistas envolvidos. É um projeto de fato bem legal que ela já vem desenvolvendo desde o seu disco anterior (“Nosso”). Dani é afinadíssima e possui voz trabalhada e de timbre bonito e suave. Dentre os melhores momentos estão as faixas “Clinch” (de Danilo Moraes e Ricardo Teté), “Lé com Cré” (de Leo Bianchini e Tó Brandileone) e “De Casa” (de Léo Versolato).

 

·                     Gilberto Gil é o autor da música-tema do filme “Besouro – Nasce um Herói”, longa-metragem de João Daniel Tikhomiroff, em breve nas telonas. E falando no baiano, ele fez, na semana passada, um novo registro ao vivo de show que terá a direção de Andrucha Waddington e será centrado no formato de voz-e-violão. Sairá em CD e DVD até o final do ano.

 

·                     A cantora e compositora Gisa Pithan lança o seu segundo álbum. Trata-se de uma produção independente intitulada “No Meio do Mundo” que traz, no repertório, dez faixas. A única regravação é “Vai Vadiar”, samba de Monarco e Ratinho que se tornou sucesso popular na voz de Zeca Pagodinho e que agora é surpreendentemente transformado em um belo blues. As demais canções são de autoria da própria artista que se mostra uma intérprete de ótimos recursos vocais. Dentre os melhores momentos estão “Farinha do Mesmo Saco”, “Não Queira Saber a Hora” e “Vênus na Janela”.

 

·                     Arnaldo Antunes (em “Doido” e “O Cabeção”) e Edgard Scandurra (em “Dói”) são os convidados de “UHUUU!”, terceiro CD do Cidadão Instigado, grupo capitaneado pelo guitarrista cearense Fernando Catatau, o qual acaba de chegar às lojas de maneira independente. Composto por onze faixas, todas de autoria de Catatau (que também funciona como vocalista de timbre particularmente exótico), o novo trabalho viaja por passagens que remetem ora à Jovem Guarda (“Como as Luzes”), ora a influências do universo brega (“Deus é uma Viagem”). Os destaques ficam por conta das faixas “O Nada”, “Homem Velho” e “A Radiação da Terra”.

 

·                     É através da gravadora Universal que acaba de chegar às lojas o CD “Manual da Mulher” da cantora Dhi Ribeiro. Produzido por Rildo Hora e contendo doze faixas, é um disco eminentemente de samba que apresenta para as grandes platéias uma cantora segura de timbre bonito e extensão de voz acima da média. O maior senão fica por conta do repertório de qualidade questionável, a começar pela primeira canção de trabalho, “Para Uso Exclusivo da Casa”, que traz tiradas de gosto duvidoso na letra através da qual se ressalta o desejo de posse de uma mulher pelo seu ‘bofe escândalo’. Fica nítido que o trabalho vem calcado nos sambas do chamado estilo romântico e, assim, não é à toa que foram arregimentados os hitmakers Paulinho Resende, Carlos Colla e Michael Sullivan para fornecerem algumas de suas mais recentes criações. É um filão que parece garantir boas vendas, tanto que levou Alcione, em anos pretéritos, aos primeiros lugares de execução nas rádios, mas que terminou, de certa forma, por macular a carreira da Marrom (que, aliás, parece ser uma referência para o canto de Dhi). Exemplos disso são as canções “Arsenal de Ilusões” e “Tempestade em Copo d’Água”, além da faixa-título. Mas há também temas assinados por genuínos representantes do samba tradicional, tais como Toninho Geraes e Serginho Meriti (autores da bonita “Choro de Alegria”, o melhor momento do álbum), Noca da Portela e Toninho Nascimento (o bom samba-de-roda “Marujada”) e Jorge Aragão (afiado na inspirada “Dança das Mãos”). Resta saber se a batida fórmula, nos dias atuais, ainda funciona…

 

·                     Em homenagem ao grande sambista Roberto Ribeiro (falecido precocemente em 1996), uma das vozes mais bonitas que o nosso país já teve, e com o intuito de levar o repertório dele às novas gerações, o cantor Leandro Sapucahy põe nas lojas um novo CD, composto por doze faixas e lançado pela gravadora WEA. É claro que os grandes sucessos de Roberto estão lá, a exemplo de “Todo Menino é um Rei”, “Vazio” e “Meu Drama”, mas foram selecionados também alguns ótimos lados B que se transformaram nos melhores momentos desse tributo, caso de “Amar Como Eu Te Amei”, “Propagas” e “Amor de Verdade”. Leandro canta com sinceridade, embora não seja definitivamente um grande intérprete. Sua mãe, Jacy Silveira, comparece afetivamente como convidada especial da faixa “Nega do Peito”.

 

·                     Chegará em breve às lojas o segundo CD do excelente compositor Edu Krieger. “Correnteza”, um lançamento da gravadora Biscoito Fino, trará a assinatura de Lucas Marcier na produção das onze faixas e contará com as luxuosas participações especiais de Rildo Hora e João Donato.

 

·                     O cantor português António Zambujo lança no Brasil, através de uma parceria entre as gravadoras MP,B e Universal, o CD “Outro Sentido”. São dezesseis faixas onde – claro! – o fado é o prato principal. Entre releituras de clássicos (“Nem Às Paredes Confesso” e “Foi Deus”), o artista pinça peças do nosso cancioneiro (“Lábios que Eu Beijei”, de J. Cascata e Leonel Azevedo, e “Quanto Tu Passar Por Mim”, de Vinicius de Moraes e Antônio Maria) e conta com as participações especiais de Ivan Lins (“Bilhete”), Roberta Sá (“Fado Partido”) e Zé Renato (“Se Tu Soubesses”). A faixa “Chamateia” é o grande destaque do disco, com a intervenção do coro de vozes búlgaras Angelite.

 

·                     Personagem criado por Adriana Calcanhotto para conquistar o mercado infantil, Adriana Partimpim volta à cena com um segundo disco de estúdio que acaba de chegar às lojas para aproveitar o Dia das Crianças. No repertório, canções dela própria, de Caetano Veloso, de João Gilberto e de Davi Moraes.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


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