MUSIQUALIDADE, por Rubens Lisboa

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: EDU KRIEGER

CD: “CORRENTEZA”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

De uns poucos anos para cá, em meio a uma centena de cantoras que pululam por aí (a maioria delas “apaixonada” pelo samba), vêm surgindo – ainda bem! – alguns ótimos compositores que bebem na mais genuína fonte da nossa música popular brasileira, aquela em que se alinhavam, em doses certas, criatividade, beleza melódica e letras que abordam temas variados com objetividade e ideias bem costuradas. Um dos nomes que, sem dúvida, vem se destacando no nosso cenário atual e que, de fato, merece uma atenção toda especial, é o de Edu Krieger. Talentoso, já no primeiro CD, lançado em 2006, o artista mostrou-se promissor, despertando merecida curiosidade por parte dos antenados de plantão, entre esses, algumas das mais vigorosas intérpretes desta geração como Maria Rita e Roberta Sá que já gravaram canções de sua autoria (estão entre elas “Ciranda do Mundo”, “Maria do Socorro” e “Novo Amor”).

Acaba de chegar às lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o segundo CD de Edu, composto por uma dúzia de canções assinadas por ele próprio, três delas ao lado de parceiros. Já na faixa de abertura, “Correnteza” (a canção que dá título ao disco), ele ratifica que suas influências são as mais salutares possíveis: há ecos da musicalidade de outrora de Paulinho da Viola no bom samba em que a guitarra de Fabiano Krieger cria efeitos sonoros que dialogam com o cavaquinho de Alessandro Cardozo. E, embora carioca, ele abre o seu leque estilístico, mergulhando de cabeça nos ritmos nordestinos, seja em “Feira Livre” (criada ao lado de Raphael Gemal) ou da simples (porém contagiante) “Clareia”.

E mesmo com trânsito livre entre a juventude musical deste país varonil, Edu, também um músico de responsa, preferiu convidar dois nomes bastante experientes para abrilhantar o seu novo trabalho. É assim que surgem as participações especiais de João Donato e seu piano característico no bonito bolero “Sobre as Mãos” (parceria de Edu com Zé Paulo Becker) e de Rildo Hora com sua gaita mágica em “A Mais Bonita de Copacabana”, canção que o mesmo Edu já havia apresentado anteriormente no projeto coletivo “Samba Novo” (lançado pela gravadora Som Livre há dois anos). Aliás, é de se ressaltar a (saudável) ousadia de Edu, pois mesmo não sendo a voz o seu principal cartão de visitas (embora ela surja sempre muito bem colocada), ele se arrisca a soltá-la quase que sozinha em dois momentos: na irônica “Ela Entrava”, em que se faz acompanhar unicamente por um naipe de cuícas (numa sacada genial), e no delicado xote “Rosa de Açucena”, um dos destaques do disco, que surge arregimentado pelas sanfonas de Marcelo Caldi, este, aliás, o co-autor de “Serpentina”, um samba-exaltação que fecha com chave-de-ouro esse tão bem-vindo álbum.   

Não dá para deixar de destacar também a inspirada “Galileu”, outro grande momento, um sambinha diferente que consegue casar com maestria as caprichadas programações eletrônicas a cargo de Lucas Marcier com o violino sempre perfeito de Nicolas Krassik. Completam o repertório a meio troncha “Quando Ela Ri”, a buliçosa “Desestigma” (cuja letra foi construída em cima da negação de vários clichês) e a super na moda “Graziela” (com o seu tema que revela, de forma bem humorada, um namoro virtual).

Depreende-se, assim, que Edu Krieger vem se consolidando como um artista acima da média que faz por merecer todo respeito e reconhecimento. Avante!

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantor: NEY MATOGROSSO

CD: “BEIJO BANDIDO”

Gravadora: EMI

 

 

 

Ney Matogrosso é intérprete que dispensa comentários. Desde que surgiu como vocalista do efêmero (porém inesquecível) grupo Secos & Molhados que vem contribuindo com o nosso cancioneiro, muito pelo resgate de canções que, na sua voz, recebem tratamento sonoro enobrecedor. Se olharmos com cuidado a sua vasta discografia, veremos que, de fato, constam poucos trabalhos em que houve a predominância de canções inéditas. Ney já mergulhou nas obras de Chico Buarque, Cartola, Tom Jobim e Villa-Lobos e já homenageou a diva Ângela Maria. Até meados dos anos oitenta, ele se apresentava invariavelmente coberto por adereços e penduricalhos e com maquiagem bastante pesada. Foi em 1987 com o lançamento do disco “Pescador de Pérolas” que se arriscou a cantar de cara limpa. A receptividade obtida foi tamanha por parte da crítica e do público que se pode afirmar que ali ocorreu um divisor de águas: aqueles que ainda reclamavam da postura musical de Ney passaram, então, a reverenciá-lo. De lá para cá, ele praticamente vem alterando trabalhos em que se exorciza no palco através de suas máscaras (como no trabalho anterior, “Inclassificáveis”) com outros em que se mostra limpo, pondo a música em primeiro plano.

É neste caso que se encaixa o novo álbum que acaba de chegar às lojas através da gravadora EMI. Emoldurado por um encarte luxuoso (como há muito não se via no mercado nacional), “Beijo Bandido” é um disco de inquestionáveis qualidade e elegância que reúne, em seu repertório plural, canções que fazem parte do inconsciente musical de Ney. Surgem, assim, em novas versões e ancoradas por bonitos e eficientes arranjos executados por Leandro Braga (piano), Lui Coimbra (violão e cello), Ricardo Amado (violino e bandolim) e Felipe Roseno (percussão), músicas como a melodramática “Tango para Tereza” (de Evaldo Gouveia e Jair Amorim), o samba-canção “Segredo” (de Herivelto Martins e Marino Pinto) e a deliciosa “Doce de Coco” (de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho). Corajoso, Ney resgata a clássica “Fascinação”, versão feita por Armando Louzada e gravada pela insuperável Elis Regina. Saudosista, volta ao início de sua carreira solo e reencontra-se com a bonita “As Ilhas” (tema de Astor Piazzolla letrado por Geraldo Carneiro). Inteligente, põe no mesmo balaio pérolas pouco conhecidas de Chico Buarque e Edu Lobo (“A Bela e a Fera”) e de Vinicius de Moraes (“Medo de Amar”) com canções que ainda pulsam vivas nas cabeças daqueles que viveram a juventude nos anos oitenta, como é o caso de “Nada Por Mim” (de Herbert Vianna e Paula Toller) e “Mulher Sem Razão” (de Cazuza, Dé Palmeira e Bebel Gilberto).

Mas é quando se dá ao luxo de se abrir para um repertório mais atual que o disco alcança os seus melhores momentos, o que dá a dica de que está na hora de ele vir a realizar um trabalho realmente inédito, com canções pinçadas entre autores novos e talentosos. Claros exemplos disso são as faixas “A Cor do Desejo” (dos ainda desconhecidos alagoanos Junior Almeida e Ricardo Guima, na qual Ney sussurra a inteligente letra com assumida languidez), e “Invento” (de Vitor Ramil, onde se constata uma entrega total do artista).

Completam o repertório outros três bons momentos: o bolero “De Cigarro em Cigarro” (de Luiz Bonfá), a balada “A Distância” (de Roberto e Erasmo Carlos) e “Bicho de Sete Cabeças” (de Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha), esta transformada em um irresistível chorinho.

Dono de uma vez peculiaríssima e de grande extensão, Ney possui elogiável afinação e sabe dosar a emoção correta para cada canção que interpreta (vez por outra até se excede, mas nada que venha a macular o seu canto sempre seguro e geralmente passional). Com seu novo CD e às vésperas de completar inacreditáveis sete décadas de vida, ele comprova que o tempo é seu grande aliado, mantendo-o em plenas formas física e vocal.

 

 

N O V I D A D E S

 

·                     Patrícia Polayne, um dos maiores nomes da nossa música sergipana, está – enfim – prestes a lançar oficialmente o seu primeiro (e muito aguardado) CD intitulado “O Circo Singular”. O show de lançamento acontecerá às 20 horas da próxima quarta-feira (dia 25) no picadeiro do Circo Estoril, armado em frente ao shopping RioMar. Antenada e criativa, a artista promete muitas novidades, além – é claro! – de uma seleção de músicas de primeira qualidade. A entrada é franca.

 

·                     Autor de diversos sucessos nas duas últimas décadas, o compositor Dudu Falcão lança (através da gravadora Som Livre) o seu primeiro CD solo. Composto por quatorze faixas (metade delas, o artista assina sozinho; a outra metade divide parcerias com nomes como Lenine, Jorge Vercillo e Danilo Caymmi) e produzido por ele próprio ao lado de Max Viana, o álbum mostra um cantor de poucos recursos vocais, mas que não chega a comprometer. No repertório, há – é claro! – a inclusão de alguns temas bastante conhecidos, como a obra-prima “Paciência” e os temas globais “Coisas Que Eu Sei” (sucesso na voz da cantora Danni Carlos) e “O Bem e o Mal”, mas alguns dos melhores momentos ficam por conta de músicas menos batidas, a exemplo de “Crença”, “Samba Pequeno” e “Diz”.

 

·                     O pianista e compositor Fabio Torres lança o CD “Pra Esquecer das Coisas Úteis”, um trabalho independente composto por quinze canções autorais (duas delas em parceria com Giana Viscardi). Entre as oito faixas cantadas (as demais são instrumentais) destacam-se as participações especiais de Fabiana Cozza, Renato Braz, Tatiana Parra e Luciana Alves.

 

·                     Ângela Maria participou de recente show que dará origem aos novos CD e DVD de Elymar Santos. Intitulado “Homem de Sorte”, o trabalho leva a assinatura de Michael Sullivan na direção musical e traz, no eclético roteiro, três canções inéditas (“Cão Vadio”, “Estava Escrito no Poste” e “Amor com Pimenta”).

 

·                     E por falar em Michael Sullivan, ele (que estará se apresentando aqui em Aracaju ainda nesta semana) também teve show recente devidamente registrado para se transformar em CD e DVD que aportarão nas lojas em breve. Intitulado “Na Linha do Tempo”, o projeto conta com as participações especiais de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Jorge Aragão. No repertório de cunho revisionista, há espaço para duas músicas inéditas (“Baladeiro”, parceria com Hyldon, e “Açúcar”, composta com Dudu Falcão).

 

·                     Precoce é o lançamento do CD e DVD “Moinho Ao Vivo”, produzidos por Berna Ceppas e Kassin. Com apenas dois anos de estrada e somente um álbum gravado, o novo projeto (registrado durante show realizado em junho passado no Circo Voador, no Rio de Janeiro) soa redundante, vez que traz, no repertório, basicamente as mesmas canções do disco de estreia. Formado pela também atriz Emanuelle Araújo (que canta bem legal), pelo grande guitarrista e violonista Toni Costa e pela percussionista Lan Lan (famosa por acompanhar Cássia Eller em seus momentos finais de agonia), o grupo faz um som alegre que tenta unir os eixos entre a Bahia e o Rio. O CD traz como raras novidades a inclusão do bom samba “Sacudido” (de Paquito) e as releituras de “Ive Brussel” (de Jorge Ben Jor), “É de Manhã” (de Caetano Veloso) e “Besta é Tu” (de Moraes Moreira, Galvão e Pepeu Gomes). Dudu Nobre surge como convidado especial em “Casa de Bamba” (de Martinho da Vila). Já o DVD apresenta mais seis faixas, além da presença de Gilberto Gil em “Aquele Abraço”.

 

·                     “Mano a Mano” é o título do CD que reúne os irmãos Guilherme e Carlinhos Vergueiro, o primeiro na produção e nos arranjos e o segundo na autoria das músicas e na voz. Bom compositor, Carlinhos viu onze de suas canções (criadas ao lado de vários parceiros) serem garimpadas e executadas por Guilherme (ao piano), Thiago Silva (na bateria), Carlinhos 7 Cordas (no violão sete cordas) e Laudir de Oliveira (na percussão). A única faixa de autoria alheia é “Feitio de Oração” (primeiro fruto da dupla Noel Rosa e Vadico, cuja inclusão no repertório termina por antecipar a comemoração do centenário do nascimento de ambos, o que se dará em 2010). Trata-se de um álbum eminentemente de sambas, embora existam algumas exceções, como é o caso de “Nosso Bolero” (criada por Carlinhos ao lado de Chico Buarque). A voz grave e encorpada do artista encontra seus melhores momentos em “Lugar de Cobra é no Chão”, “Cigano”, “Disritmou” e “Arrepio no Braço”, compostas com os colaboradores Arlindo Cruz, Paulo César Pinheiro, Martinho da Vila e João Nogueira.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


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