Musiqualidade, por Rubens Lisboa

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

Relativamente à área musical, o ano recém-findo não foi dos mais marcantes. Nenhum novo nome surgiu que merecesse de fato efusivos elogios, com exceção de Maria Gadu, mas cuja incontestável aceitação se deveu muito à estratégia de marketing levada a cabo pela gravadora Som Livre, um dos braços da Rede Globo. Nenhuma música também dominou as paradas de sucesso de maneira avassaladora como aconteceu em anos anteriores, a não ser “Você Não Vale Nada”, na gravação da banda Calcinha Preta, alavancada por ter sido incluída na trilha sonora da telenovela “Caminho das Índias”. Aqui, no mercado sergipano, o destaque maior foi, sem dúvida, o esperado primeiro CD de Patrícia Polayne, o ótimo “O Circo Singular”, o qual trouxe, no repertório, duas grandes músicas de autoria da própria artista: “Aparelho de Memoriar” e “Sapato Novo”.

A seguir, um resumo de alguns dos melhores CD’s lançados em 2009, todos eles indispensáveis aos que possuem verdadeiro bom gosto e admiram a música popular de qualidade:

 

Zélia Duncan
01 – “PRA ILUMINAR” (Leila Pinheiro)

Uma das grandes vozes femininas no Brasil, a cantora paraense lançou um belo registro ao vivo através do qual prestou merecida homenagem ao compositor Eduardo Gudin. O elegante álbum composto prioritariamente por sambas, entre eles as obras-primas “Chorei”, “Mordaça” e “Velho Ateu”, mostrou uma intérprete que sabe aliar, com precisão ímpar, técnica e emoção nas doses certas.

 

02 – “PELO SABOR DO GESTO” (Zélia Duncan)

Incansável no amor a sua arte, Zélia entregou a produção de seu novo trabalho a dois nomes emergentes nessa seara, John Ulhoa e Beto Villares, e embora reunindo canções de vertentes diversas, conseguiu realizar um disco de insuspeita homogeneidade. Muito disso foi conseguido por conta da qualidade de seu canto: com voz grave e potente, ela consegue cantar muito bem tanto canções de pegadas mais fortes quanto outras que se revestem com tintas mais sensíveis.

 

03 – “MEU NOME” (Ceumar)

O quarto disco da cantora mineira e também o primeiro resultante de registro ao vivo serviu para apresentar ao público uma compositora inspirada que sabe aliar temas mais introspectivos (“Gira de Meninos” e “Oração do Anjo”) com outros de contagiante alegria (“Maracatubarão” e “Nariz do Palhaço”). Afinadíssima e também uma ótima instrumentista, Ceumar merece há muito uma maior projeção nacional.

 

04 – “BALANGANDÃS” (Ná Ozzetti)

Cantora irretocável até agora conhecida por seus mergulhos em canções mais contidas e melodias de intrincada teia sonora, Ná entrou em estúdio para registrar primoroso show em que reverenciou o talento de Carmen Miranda e apresentou memoráveis releituras para temas presentes no inconsciente coletivo, tais como “Camisa Listada”, “E o Mundo Não Se Acabou” e “A Preta do Acarajé”. Trata-se de raro disco temático que alcançou um belo resultado.

 

05 – “NÃO VOU PRO CÉU, MAS JÁ NÃO VIVO NO CHÃO” (João Bosco)

A esperada volta do mago João Bosco ao mercado fonográfico nacional marcou também a retomada das parceiras com o letrista Aldir Blanc. O novo CD chegou em muito boa hora e mostrou que a criatividade musical dos dois ainda se mantém intacta, conforme se comprova através das pérolas “Navalha”, “Mentiras de Verdade” e “Sonho de Caramujo”.

 

06 – “FARO” (Vander Lee)

Embora não tenha obtido a receptividade de seus trabalhos anteriores, o novo álbum de Vander Lee comprovou que o compositor mineiro já conseguiu desenvolver um estilo todo próprio que até mesmo a produção do roqueiro Marcelo Sussekind soube respeitar. “Farol”, “O Baile dos Anjos” e “Desejo de Flor”, por exemplo, são canções de fino acabamento que merecem ser conhecidas.  

 

Ana Costa
07 – “NOVOS ALVOS” (Ana Costa)

Depois de uma estréia muito bem-vinda, a cantora carioca Ana Costa confirmou seu talento e lançou um segundo CD que conseguiu superar o anterior tanto pela qualidade do repertório quanto pela firmeza do seu canto que se aprimora, de maneira incontestável, a cada dia. Um dos nomes mais promissores oriundos da Lapa, Ana ainda se mostra uma eclética compositora, conforme se constata através das faixas “Batendo Perna” e “Antiga”.

 

08 – “PEIXES PÁSSAROS PESSOAS” (Mariana Aydar)

Super elogiada quando do lançamento de seu CD de estreia, Mariana Aydar fez valer as promessas pretéritas e mostrou um excelente segundo trabalho. Corajosa, impôs um repertório autoral que se apresentou irrepreensível e que reuniu nomes emergentes do nosso cenário musical, tais como Duani, Luisa Maita, Nenung, Nuno Ramos e Rômulo Fróes. Dentre os destaques estão as faixas “Peixes”, “Tá?” e “Poderoso Rei”.

  

09 – “NA VEIA” (Simone)

Mostrando encontrar-se em perfeita forma vocal, a baiana surpreendeu com um grande disco recheado de boas canções inéditas assinadas por Erasmo Carlos, Martinho da Vila, Marina Lima e Adriana Calcanhotto. E de quebra, ainda presenteou os seus milhares de fãs com impagáveis releituras para temas menos conhecidos de Gonzaguinha (“Geraldinos e Arquibaldos”) e Paulinho da Viola (“Ame”).

 

Daniela Mercury
10 – “CANIBÁLIA” (Daniela Mercury)

Fugindo do óbvio, bem como do repertório rasteiro que domina os trabalhos de suas congêneres, Daniela Mercury apresentou um dos melhores álbuns de sua já considerável discografia. Cantora de bons recursos vocais, a artista caprichou na produção e mostrou canções muito bem resolvidas, como é o caso de “Trio em Transe”, “Sol do Sul” e “Dona Desse Lugar”.

 

11 – “CORRENTEZA” (Edu Krieger)

Compositor que vem se consolidando como um dos melhores da atual geração (com canções gravadas por gente como Maria Rita e Roberta Sá), o carioca Edu Krieger chegou ao segundo CD mostrando ter talento de sobra. Sem muito alarido, mas com criatividade constante, o artista mostrou novos temas acima de média, como é o caso da faixa-título, de “Galileu” e de “Rosa de Açucena”.

 

12 – “FASES DO CORAÇÃO” (Moyseis Marques)

Com o (louvável) atual boom que vem acontecendo com o samba, é normal que muitos queiram pegar carona. Poucos, no entanto, apresentam tanta familiaridade com o assunto como Moyseis Marques que lançou um irrepreensível segundo CD no qual comprovou seu talento inato. Dono de voz extremamente melodiosa, ele também apresentou parcerias de beleza inquestionável (“Entre Girassóis”, “Panos e Planos” e “Tem Hora”), mostrando-se um artista pronto.

 

Ainda se faz mister ressaltar aqui que, no apagar das luzes, três novos lançamentos (que, em breve, serão resenhados nesta Coluna) se mostraram com fôlego para vôos mais altos. São os CD’s: “Singular” (de Lulu Santos), “Cauby Interpreta Roberto” (de Cauby Peixoto) e “A Minha Homenagem ao Poeta da Voz” (de Selma Reis).

Mas por enquanto assim ficamos, esperando que 2010 seja um ano bem mais interessante no que tange à área musical…

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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