Não, não diga que você é Charlie. Eu não sou Charlie

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Domingo último, passei parte da manhã assistindo pela TV, às manifestações no mundo decorrentes do atentado em Paris. Você deve ter visto, assim como eu, às cenas de comoção que se repetiam mundo afora: centenas, milhares de pessoas saíram às ruas carregando cartazes: Je Suis Charlie (Eu sou Charlie).

A parte do simbolismo daqueles cartazes, e de todo espírito de fraternidade e da globalização da emoção humana, diante de diferentes culturas sobre o ocorrido, foi inevitável para mim, refletir. Sou dessas, que necessito ir fundo na minha desordem mental para melhor me orientar. Então, me questionei e me permiti todas as divagações: eu sou Charlie?

Vamos lá: Charlie, expressou uma ideia profundamente livre por outra religião. A grande maioria das pessoas diz que não tem religião, mas se casam na igreja, (eu inclusive) não vão à missa, mas batizam seus filhos e depois os levam para fazer a primeira comunhão, simplesmente porque aprenderam assim.  Será que eu ou você, temos a liberdade de Charlie? A sua coragem?

A todo instante, tudo ao nosso redor nos conduz a acreditar que vivemos em um mundo para vencedores, onde o que realmente conta é ter sucesso. Qualquer sucesso, do neurótico ao aparente, o importante é “torna-se”. Será que eu ou você, aceitamos que podemos falhar e recomeçar do zero, sentindo que o nosso valor de dignidade não será prejudicado?

Será que eu ou você, somos fiéis aos nossos sentimentos e pensamentos 100%?  Será que eu ou você, temos a coragem de defender a nossa culpa diante de um ato qualquer?

A vida é um fluir contínuo, ela está sempre em movimento. Esse fluir irremediavelmente nos modifica, faz com que certas coisas que ontem eram importantes, hoje sejam meramente, irrelevantes. E isso incluí: objetivos, prioridades, sentimentos, valores e por ai, vai… Nesse existir contínuo e místico, tudo flui. Não é verdade que tudo permanecerá. Aceitar e compreender esta dinâmica da vida é respeitar-se. Precisamos de muita fé em nós mesmos para reconhecer todas as linhas de fuga que usamos na nossa existência para decidirmos rompe-las quando elas estiverem nos sufocando. A tolerância diante de qualquer situação que não esteja nos fazendo bem, não é compreensão, mas simplesmente uma forma de nos manter, distante da nossa verdade. E a verdade de cada um é muito particular.

Será que eu ou você, usamos o poder de expressar a nossa liberdade de escolha, mesmo quando ela vai contra, à toda ideia da vida perfeita e esquematizada que fizemos em nossa cabeça?

Existem pessoas diferentes de nós, suportar estas diferenças é sobretudo não lamentar ou tentar fazer o outro entender o que pensamos e como somos. O que ocorreu, para muitos foi tolher a liberdade de expressão, para outros significou faltar com respeito ao próximo. Eu, fico daqui pensando como a maioria das pessoas são induzidas a manifestarem repetições de atos e ações sem tomarem o cuidado de se escutarem antes. Será que todos que estavam naquela manifestação, inclusive os dirigentes dos países, realmente estavam por pura decisão? A hipocrisia do mundo ainda me espanta! Continuo preferindo a companhia de um animal doméstico. São íntegros com sua natureza, até o fim.

“Je Suis Charlie”: ah, as palavras, seus ritmos, suas luzes e seus significados.

Não, não diga que você é Charlie.

Eu não sou Charlie.

Sou tantas, e a cada dia uma…

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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