Não se permita contaminar

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No final da década de 70, eu era gerente de uma das lojas Friolar, estabelecimento especializado na venda de móveis e eletrodomésticos, em Fortaleza, Ceará.

 

Todo dia, por volta das 09h30min, alguns colegas e eu íamos tomar um cafezinho na lanchonete do seu Manduca.

 

Eu sempre chegava saudando-o com um gostoso: Bom-dia, seu Manduca!

 

Ele nunca respondia à minha entusiasmada saudação. Quer dizer, até que respondia, porém, com voz quase inaudível, dizia: “O que vocês querem?”.

 

Café, seu Manduca! Três cafezinhos, por favor. Ele trazia os cafés e não dava mais uma palavra.

 

Por mais que a gente provocasse, o que poderia sair era um impropério. Ou, na melhor das hipóteses, uma crítica a alguém.

 

Ao meu eloqüente bom-dia ele nunca correspondeu à altura.

 

Em certa ocasião, um de meus amigos e companheiro habitual daquele lanche matinal, sem esconder a sua decepção com seu Manduca, disse: Pascoal, por que tu ainda dás bom-dia para este ignorante? Não vês que ele é grosseiro e, sequer, te responde?

 

Expliquei ao meu amigo: – Vasconcelos, eu não posso permitir que o mau humor dele interfira no meu prazer de saudá-lo.

 

Desejar, com toda ênfase, um bom-dia a ele, me faz muito bem. Sou eu que me sinto feliz com isto.

 

Portanto, não vai ser pela falta de resposta que vou deixar de fazer aquilo que acho bom, que me satisfaz, que me dá prazer. O problema é dele, se não me agradece aquilo de bom que lhe desejo com tanta boa vontade.

 

Eu é que não posso permitir que o seu “azedume” interfira na minha satisfação e altere o meu comportamento e com isso roube a minha alegria.

 

É por isto, repito, querido amigo, que nunca vou deixar de dar-lhe um saboroso bom-dia! E tem mais: este “bom-dia”, é pra valer mesmo, é de coração, eu desejo a ele o melhor dia da sua vida. O que ele deseja a mim? Bem, aí eu não sei. Isto é com ele.

 

Sabe amigo, tenho certeza de que, de vez em quando, ele tem vontade de mudar, de se tornar mais afável, de responder a uma saudação, conversar, participar, rir…

 

Aposto que há momentos em que ele gostaria tanto de romper com este orgulho e ser mais sociável.

 

Contudo, a masmorra que o prende àqueles princípios o impede. É aquela velha estória do hábito. Quando você procede apoiado em hábitos, fica difícil mudar, sair deles.

 

O hábito, sobretudo o mau hábito, sabe muito bem se proteger e cria uma “aura” de defesa em sua volta. – Mudar é dar sinal de fraqueza – ele sinaliza.

 

E a pessoa, mesmo querendo, sente medo e, reprimindo a vontade de avançar, permanece onde está com suas grosserias e seus achaques.“Não devemos permitir que outra pessoa interfira negativamente na nossa vontade de ser bom, no nosso humor, na nossa felicidade, na nossa alegria.

Nós não podemos viver sem os hipocondríacos, sem os mal educados, sem os grosseiros, sem os pessimistas e sem os desatenciosos…

 

São eles nossos companheiros de jornada. São as nossas referências. Tudo o que eles fizerem neste rumo devemos fazer ao contrário, assim, como uma bússola orienta o náufrago.

 

Eles nos orientam para não navegarmos em suas águas. Em suma, eles existem para que saibamos o que não devemos fazer. Eles têm as suas utilidades. São infelizes seres que ainda não acordaram para o que realmente

significa uma existência legal, suave e querida por todos.

 

São pessoas que patinam no limbo da ignorância, da falta de vontade, da ausência de sensibilidade para viver.

 

O pior, é que miseravelmente gostam disto. Não sabem ainda o que é viver. Vão vivendo. Seguindo a cantilena das lamúrias, da tristeza, da introspecção, das reclamações. Cozinhando em fogo brando o seu mau humor e seu isolamento, a sua exclusão. De vez em quando choramingam: “é, ninguém gosta de mim, todos me evitam”. E arrematam: “sinceramente, eu não sei o que fiz”…

 

Desgraçadamente eles têm muita utilidade. Já imaginou se fosse diferente: todo mundo alegre, educado, feliz, cortês. Seria uma chatice. “Bom-dia, Dona Maria!” “Bom-dia! Senhor José! Como vai a sua linda família?…”. Ou, “A senhora primeiro. Não por gentileza, primeiro o senhor…”

 

Vendo assim, faz-se necessária a existência do mal-educado, aquele que não dá a preferência aos mais velhos, que não responde a uma saudação, que nega uma palavra de conforto, que palita os dentes na frente de todos, assoa o nariz à mesa de refeição, que ri de suas próprias piadas, geralmente, impróprias, que sente felicidade em fazer o mal, que trai e depois sai se gabando, que mente e se vangloria disso, que engana e propaga, que, quando quer seu voto, até o beija, depois da eleição passa por você e sequer o cumprimenta…

 

Estes são espécimes necessários, repito. Nós outros temos que tolerá-los, respeitá-los e, quando possível, evitá-los, para impedir o contágio.

 

Os maus hábitos são drogas perigosas e, para não nos viciarmos nelas, devemos fugir dos seus raios de ação.

 

Mesmo porque são ambientes infestados de mau humor, rusgas e estresses. Tudo o que não necessitamos para o nosso bom dia-a-dia.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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