Navalha na jugular

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O que determina o sucesso de uma pessoa é a combinação de variadas habilidades e circunstâncias. Mas não se devem menosprezar fatores imponderáveis, como a sorte. Marcelo Déda chegou aonde chegou porque tem competência, tem verve, carisma e, em determinado momento, representou a mudança que a maioria ansiava. Mas, ninguém há de duvidar, é um cara de sorte.

A sorte do governador foi posta à prova mais uma vez agora, com a Operação Navalha, que desbaratou esse esquema de assalto ao dinheiro público através de obras contratadas pelo governo federal. Se a Polícia Federal tivesse estourado a quadrilha um ano depois, em 2008, o governo Déda provavelmente estaria seriamente envolvido pelo esquema da Gautama e companhia.

As conversas telefônicas de Flávio Conceição de Oliveira Neto captadas neste ano, já na vigência do governo do petista, mostram uma obsessão do gautameiro plantado em Sergipe: furar o bloqueio, penetrar neste governo estranho ao esquema, implantar no coração do poder um “operador” — assim, mafiosamente, como os envolvidos chamam — e continuar roubando impunemente.

Longe aqui de se querer dizer que Déda seja corrupto, mas o insinuante Flávio Conceição já havia estabelecido um canal de “diálogo” bastante fluente com o vice-governador, Belivaldo Chagas — que é quase um contra-parente, pois foi marido da atual mulher de Flávio Conceição, que hoje é padrasto da filha daquele. Além de, cordialmente, terem sempre mantido uma relação bastante amistosa. Também não se está querendo dizer que Belivaldo seja um corrupto, mas as conversas captadas entre ele e Flávio vão muito além de assuntos meramente familiares.

Déda acha que havia uma tentativa de intimidação do governo, mas “não uma forma de localizar um equívoco”. No entanto, o diálogo reproduzido na noite de terça-feira pela TV Atalaia, do corajoso Walter Franco, é revelador das tramóias que Flávio Conceição era capaz de urdir para conseguir o seu intento, que era penetrar com o seu cavalo de pau na fortaleza do troiano Déda. Num bate-papo descontraído com o empresário Edvan Amorim, o conselheiro revela seu estratagema: pedir uma “inspeção de gestão” na Emsurb e na Secretaria da Saúde de Aracaju.

Voltando às referências mitológicas gregas, além urdir um operador, ele estava buscando o calcanhar de Aquiles do governador. E o buscava na gestão de cinco anos à frente da Prefeitura. E qual o “escândalo” aconteceu na sua administração, senão aquele mal explicado convênio entre a Emsurb e a Saúde, para a capinagem “nos paralelepípedos” dos postos de saúde, que acabou resultando na demissão do hoje (e sempre acima de qualquer suspeita) secretário da Infra-Estrutura Osvaldo Nascimento?

Flávio sugere para Edvan Amorim que iria “bater na jugular” de Marcelo Déda reativando o processo contra a Emsurb e a Saúde. Assim, presume-se, teria poder de barganha contra o resistente governador. E teria o pano armado para encenar a chantagem: ou fecharia os olhos para o meu operador agir livremente no seu governo, ou eu desfaria a sua fama de administrador honesto, desqualificando a sua gestão municipal. Coisa de vampiro! Só que a Navalha cortou a própria jugular do chantagista.

Se demorasse mais um pouquinho e conseguisse seu intento, de quebra Flávio Conceição teria os pés justamente onde o esquemão mais tinha interesse: nas Secretarias da Infra-Estrutura e da Saúde — hoje gerida pelo mesmo Rogério Carvalho da Saúde municipal. E o conselheiro já estava se achando com um pé quase lá. Que sorte de Déda!

 

Justiça, ainda que tardia

 

A Operação Navalha começa a mostrar mais do que pirotecnia policial. Em Sergipe, a prisão de três nomes de peso diretamente envolvidos e a revelação de gravações telefônicas bombásticas levantaram suspeitas sobre personagens importantes da vida local sobre os quais se nutriam desconfianças, ou não.

À caça de Flávio Conceição, principal operador da Gautama no Estado, os agentes da Polícia Federal acabaram confirmando que os cofres da Deso eram mesmo sangrados pelo esquema, flagraram a corrupção passiva do empresário João Alves Neto e do ex-deputado federal Ivan Paixão, captaram diálogos comprometedores envolvendo outros conselheiros do Tribunal de Contas e, mais grave, lançaram suspeição sobre julgamentos do Tribunal de Justiça e do Tribunal Regional Eleitoral. De gorjeta ainda “apanharam” alguns funcionários públicos da Deso e do próprio Estado em atos duvidosos, além de um empresário sempre passível de suspeição.

Resultado apurado, por enquanto: Flávio Conceição foi afastado do Tribunal de Contas e o deputado André Moura foi cassado. Envolvido até o pescoço (jugular?), Flávio afunda-se mais cada vez que se torna conhecido um dos seus destemperados telefonemas. E o que André tem com isso? É que ele só foi cassado depois que a Operação Navalha revelou aquele telefonema entre ele e Flávio que apontou vícios no primeiro julgamento do TRE, no final de março, quando ele foi absolvido por quatro votos a dois. Alguém tem dúvida disso?

 

Flávio Conceição é ingrato

 

Cada vez que Flávio Conceição abriu a boca foi para se condenar. As gravações dos telefonemas dele durante um ano, a partir de abril de 2006, não deixam dúvida quanto a isso. Agindo impunemente, quase pilheriando da possibilidade de estar sendo investigado, ele desprezava o direito de ficar calado e… falava. Falava pelos cotovelos, criticava um e outro, falava mal dos aliados e até daqueles que lhe deram a mão.

Quem mais ajudou Flávio Conceição a chegar ao tão sonhado cargo vitalício, farto de poder e mordomia, de conselheiro do Tribunal de Contas do que o empresário Edvan Amorim? Pois, num bate-papo gostoso com Zuleido Veras, seu “patrão” e dono da Gautama, ele diz que Amorim é um mafioso.

Ou seja, Flávio Conceição não tem gratidão. A melhor referência que faz a João Alves Neto é: “O menino não é flor que se cheire”. Quanto a Maria do Carmo Alves, esposa do governador que o nomeou secretário e o ajudou a chegar ao TCE, ele é duro e lacônico: “Ela é má”. E tome falação, que culminam com referências nada elogiosas a colegas conselheiros.

Como diz a sabedoria popular, vai morrer do próprio veneno.

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