Nem todo mundo usa Havaianas

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Numa dessas horas de espera, me peguei ouvindo uma conversa alheia. Eram duas mulheres, para lá dos trinta, falando sobre banalidades da vida doméstica e das adversidades que vez ou outra ocorrem. Uma delas dizia andar tão “azoada” que acabou saindo de casa, completamente arrumada e pronta para ir à capital se não fosse por um detalhe: as Havaianas. “Quase perdi o ônibus porque tive que voltar correndo para trocar o chinelo”. Ao lado, eu estava sentada, ouvindo a conversa delas e calçando um par de Havaianas que me custou R$ 8.

Havaianas celebra 50 anos com edição limitada (foto: divulgação)

O que me impressionou não foi a troca em si – eu mesma tenho uns shortinhos que só uso em casa, por exemplo – mas o que a mulher se dispôs a perder por não se sentir confortável usando chinelas de dedo fora dos limites domésticos. As mesmas chinelas que, dizem por aí, vão de casa ao restaurante com toda naturalidade.  Se ela não tivesse alcançado o ônibus, só poderia pegar outro uma hora depois. Somando mais uns 40 minutos de estrada e pouco mais de dez duma boa caminhada pelo centro de Aracaju, a viagem estaria perdida, já que o compromisso era um desses que não se remarca para o mesmo dia.

Tudo isso para dizer o que você provavelmente já sabe.  Nem todo mundo usa Havaianas. Muitas pessoas, aliás, tem vergonha de usá-las na rua e são completamente alheias ao status que o tal chinelo de borracha alcançou ao longo desses 50 anos de história. Para não citar aquelas que só usam esse tipo de sandália para proteger os pés durante o banho – hábito, no mínimo, curioso.

Quem frequenta a faculdade de comunicação ou pegou aulas de administração e afins, certamente, já ouviu discursos eloquentes sobre como a marca conseguiu se reposicionar – seus entusiastas só perdem para os da Coca-Cola, aliás. Hoje, há um certo glamour agregado às tiras de borracha e as Havaianas são verdadeiros ícones  do estilo nacional. Para uma parcela da população, no entanto, as Havaianas continuam sendo “chinelos de pobre”.

No início dos anos 60, quando o primeiro modelo inspirado nas sandálias japonesas saiu, ele não era considerado muito atraente. No entanto, tinha outro fator a seu favor: o preço baixo. Nas décadas seguintes, as camadas populares continuaram sendo público alvo das Havaianas, até que no início dos anos 90, modelos de cores vibrantes foram lançados e o tal reposicionamento da marca começou.

Muita cor no modelo feito em parceria com a Missoni (foto: divulgação)

Artistas de abrangência nacional foram escalados para participar de campanhas. Edições especiais foram lançadas. Ações envolvendo pedras preciosas e indicados ao Oscar entraram em pauta e até parcerias com grifes de luxo como a Missoni foram fechadas, colocando em prateleiras selecionadas modelos que custam mais de R$ 100. É certo que nesses 50 anos de história, as Havaianas ganharam o coração, ou melhor, os pés de milhares de brasileiros e de gente de fora também. Mas, ironicamente, depois de todo o marketing direcionado às classes mais altas da população, entre os menos favorecidos, as Havaianas continuam sendo “chinelo de pobre” feito para usar em casa. Ou, pelo menos, é o que parece.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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