Nem uma lágrima sequer

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O ano virou e eu não chorei. Fiquei surpreso por minha reação, pois desde abril de 2014 esperei a virada do último ano como alguém que espera por uma luz inexistente. Olhei ao redor, vi agitação e lágrimas, esperei que as minhas brotassem e nada. Tentei até forçar uma, mas necas. Numa questão de segundos e muitas doses de vodka na cabeça, filosofei conscientemente concluindo que as lágrimas que não brotaram ali já tinham sido derramadas no decorrer do ano que estava acabando. A previsão do meu tempo lacrimal apontava que cada mês passado teve sua quantidade exata de lágrimas esperada. Agora, nem uma lágrima sequer.

Chorei o que tinha que chorar em 2014, quieto, comigo, administrando informações que levarei pelo resto de minha vida. Estava tão esgotado de tantas coisas que mal cabia em mim os estouros dos fogos de artifício da noite de réveillon. Eu explodi em cada lançamento no céu. Me vi em um milhão de pequenas luzes que estouraram iluminando segundos de vidas. Eu estava vivo, apenas isso me bastou na virada do ano. Nem uma lágrima sequer!

Segurei ondas de mares oceânicos, surfei em todas com meus pés e poucos remos. A vida implica em vivê-la e não em decifrá-la. Ali, enquanto 2015 chegava, eu não queria saber de manuais, bulas, rituais, nada. Só queria respirar um ar de esperança e consegui isso. Se 2014 tentou me derrubar dezenas de vezes, das piores maneiras possíveis, eu fiz questão de em sua morte não derramar lamentações. Nem uma lágrima sequer.

Evitei telefonemas, atendi poucos. Preferi mensagens curtas. Nada que valesse a pena se prolongar no final de 2014. Desde o primeiro semestre, ele já poderia ter terminado, pois já tinha acabado pra mim. Recolhi em meu coração o pouco de forças que ainda me restava para passar um réveillon suave. Quase um surfista, fui o Medina de mim mesmo. Minha prancha estava super encerada. Encerrei a mim mesmo diversas vezes em 2014, mas renasci também, por isso nem uma lágrima sequer.

Meus planos foram todos transformados em nome de minha própria sobrevivência. Como se todos nós não buscássemos apenas sobreviver todos os dias passados. Perdi amores, amigos, matei sentimentos, me submeti aos cuidados de quem nunca vi. Não adiantava lutar contra a vida, apenas nadar em suas tormentas. Aprendi a seguir o fluxo. Aprendi a mergulhar no mais fundo Jaime em nome de um Jaime mais saudável. Tive boias e boas companhias também. Encontrei em pessoas do meu convivo diário verdadeiros guerreiros que me ajudaram na navegação. Aprendi a agradecer muito a tudo que me fizeram e chorei tanto com eles, mas ali na “virada”, nem uma lágrima sequer.

Fiz do meu choro um rio estreito, mas feito por mim. Esse mesmo rio nascente me levou até um mar de desespero, onde me vi flutuando com tantos outros milhares de Jaimes. Não estava sozinho e estava ao mesmo tempo só. Faltou pouco para enlouquecer, mas soube me controlar. Aprendi a meditar em meio a normalidade do cotidiano, sem parar para me deixar ser abatido. Balancei, caí e não quebrei.  Não dei esse gostinho a 2014 e ele passou. Nem uma lágrima sequer.

Depois de todas as lágrimas derramadas preferi sorrir pra 2015. Foi só o que pude fazer naquele momento tão simbólico de passagem de ano. Sou o navegador de mim.

Que possamos navegar mais em nós mesmos!

Feliz Ano do sorriso Novo

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