No dia da mulher.

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Que poderei dizer sobre a mulher no seu dia internacionalmente comemorado por decisão da ONU datada de 1975?

 

Dizer que a ONU o fez num atraso antes tarde do que nunca?

 

Dizer que a luta feminina se fez mais explícita com a revolução industrial e as jornadas de cunho socialista e sindical?

 

Dizer que a intolerância contra os fracos se fez bem maior contra as mulheres exploradas?

 

Dizer que foi difícil, bastante difícil, a concessão de cidadania à mulher?

 

Dizer que a mulher quando não estava perfumada nos haréns, nas alcovas e nos tálamos dadivosas, mourejavam nas tarefas domésticas, reclusas e subtraídas da sociedade?

 

Dizer que houve assassinato em massa de “sufragettes”, depreciativo termo em que o tablóide londrino Daily Mail designava as mulheres aguerridas que foram às ruas reivindicar o direito de sufragar, de votar, permitido exclusivamente aos homens? E de outras como Rosa Luxemburgo morta a pauladas?

 

Dizer que na terra das liberdades, nos Estados Unidos da América, cerca de 130 mulheres morreram queimadas no dia 8 de março de 1857, um incêndio inexplicável numa fábrica por elas ocupada num movimento grevista?

Parada sufragette em 1912 em New York

 

Dizer que tal greve acontecera pelo arrocho salarial que em trabalho igual, remunerava o homem com salário três vezes maior?

 

Dizer que pouca ou nenhuma voz se insurgiu com comiseração ou apoio aos cadáveres incinerados em assassínio cruel?

 

Dizer que os preceitos religiosos de então não se compadeciam com tais martírios e lutas?

 

Dizer também que esta luta feminina seria bem mais difícil sem a modernidade que ensejou a mecanização, os implementos eletrodomésticos, as conquistas da medicina, sobretudo a pílula anticoncepcional, tão demonizada ainda, e sem a qual este mundo estaria mais inabitável com uma população terrivelmente maior, com gente passando fome e crianças sugando peitos de mulheres cadavéricas?

 

Dizer que ainda hoje, num resquício obscuro resistente, o sexo é considerado um tabu, um compromisso exclusivo de procriação em que condons e preservativos, laqueadura de trompas e géis contraceptivos são exercício criminal abortivo com promessas de fogo divino?

 

Dizer que isso é uma resistência opressiva em séculos de obstinada maldade. Em nome de Deus e usando seu santo nome em vão?

 

Dizer que a mulher será sempre a parceira do homem?

 

Dizer que o homem não pode ser mulher e a mulher não deve copiar o homem em seus erros e vícios?

 

Dizer que a maior felicidade do homem é poder encontrar a mulher seu complemento?

 

Dizer que homem e mulher foram destinados a ser felizes, a gozar os frutos do amor, um amor infinito em enleios de fidelidade e ilimitado nas carícias e gozos desvendados?

 

Dizer que só o amor a dois plenifica a vida dos seres, que não se perdem nem se desviam nas aventuras inúteis e irresponsáveis a gerar pranto e dor?

 

Dizer que a paternidade irresponsável nunca advirá de um amor firme, verdadeiro e duradouro?

 

Dizer que o orgasmo nunca conterá dolo ou culpa no amor romântico consentido, desejado e persistido?

 

Dizer que a maternidade ainda rimará na modernidade embora a ficção lhe estimule a rima de promiscuidade e de leviandade?

 

Dizer que o homem não deve se bestializar com tropelias de rufião e a mulher jamais deveria se cadelizar, cachorrizando-se em cio e em nojeiras de furor vaginouterino?

 

Dizer que não está na cega glande descabresteada, nem na sega berbigão clitorial arreganhada o norte em persecução do existir?

 

Dizer que, bálanos por cabeças, ou formatos de cabeças à parte, é somente o cérebro quem eleva o homem e a mulher acima do degradado e simiesco proceder?

 

Dizer que isso precisa ser dito porque algumas mulheres, muitas delas até, têm sido estimuladas a copiar os homens naquilo que lhes é pior; em irresponsabilidade do jumento garanhão?

 

Que poderei dizer das santas mulheres que saciam os filhos quando tudo lhes falta?

 

Que dizer da mãe chorando diante do corpo febril de seu fruto bem amado?

 

Que dizer do sorriso com o riso do filho bem querido?

 

Que dizer da mulher ternura e seu abraço único no amor acontecido e bem mais amado?

 

Há! Muitas coisas poderiam ser ditas e repetidas. E a inspiração não exauriria o tema, sobretudo para quem ama, e por uma delas é só amado. Uma só! Para que mais?

 

Em homenagem às mulheres e às minhas mulheres em particular, presenças vivas em minha vida; de minha avó Nina, minha mãe Lourdes, ápice de ternura no meu lar de infância, a minha outra mãe Dejanira (Nanã), a nossa cozinheira, a minha madrinha Mem, filha de escravos, Emerenciana Marques dos Santos, todas nos meus altares dos deuses lares.

 

A Tereza Cristina, a mulher que sonhei e procuro conquistar no meu diuturno existir.

 

A Júlia, minha sogra, modelo de mãe e esposa, hoje quase um vegetal apenas, sendo protótipo de dedicação e fidelidade aos seus bem queridos em derredor.

 

A Daniela, minha filha médica, uma mulher destacada na profissão e no lar, implantando marcapassos nos corações arrítmicos, e sorrindo em carícias ao Pedro Henrique, fruto de um Mário bem chegado.

 

A Aline e Maíra, as noras que me chegaram para alegria dos filhos, porque assim tem que ser como só as mulheres o podem preencher.

 

E a outras tantas mulheres, jovens e velhas, brancas e negras, morenas ou amarelas, nenhuma feia, por todas amenas e mais belas, enriquecendo o nosso prosseguir.

 

A estas mulheres eu dedico minhas palavras opacas me arrimando em luz no poema Mulheres de Pablo Neruda, porque só…

 

Elas sorriem quando querem gritar.

Elas cantam quando querem chorar.

Elas choram quando estão felizes.

E riem quando estão nervosas.

 

Elas brigam por aquilo que acreditam.

Elas levantam-se para injustiça.

Elas não levam “não” como resposta quando

acreditam que existe melhor solução.

 

Elas andam sem novos sapatos para

suas crianças poder tê-los.

Elas vão ao medico com uma amiga assustada.

Elas amam incondicionalmente.

 

Elas choram quando suas crianças adoecem

e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.

Elas ficam contentes quando ouvem sobre

um aniversario ou um novo casamento.

 

Mas, como o texto ficou muito sério, encerremo-lo com o cancioneiro popular da dupla Gilberto e Gilmar, mais condizente com a realidade masculina.

A música é “Nóis não vive sem muié! e pode ser ouvida no Youtube http://www.youtube.com/watch?v=sCgTNpVPtEg

 

Nóis não vive sem muié !

(Gilberto & Gilmar)

 

Se o mundo revirar

Nóis agarra nos barranco

Se o carro enguiçar

Nóis arranca ele no tranco

Se o dinheiro acabar

Nóis levanta mais no banco

 

Mas só não pode acabar com as muié

Nóis não vive sem muié

Nóis é doido por muié !

 

Se a careca aumentar

Nóis arranja uma peruca

Se o nosso time não ganhar

No juiz nóis põe a culpa

Se a vida amargar

Nóis adoça com açúcar

 

Mas só não pode acabar com as muié

Nóis não vive sem muié

Nóis é doido por muié !

 

Se a canoa afundar

Nóis travessa o rio a nado

Se a enxada enferrujar

Nóis capina de machado

Se o chuveiro não esquentar

Nóis toma banho gelado

 

Mas só não pode acabar com as muié

Nóis não vive sem muié

Nóis é doido por muié !

 

Se o alicate não arrancar

Nóis arranca com o dente

Se a inflação aumentar

Nóis derruba o presidente

Se a patroa esfriar

Nóis arranja outra mais quente

 

Mas só não pode acabar com as muié

Nóis não vive sem muié

Nóis é doido por muié !

 

Se o capeta aparecer

Nóis reza uma Ave Maria

Se a reza não valer

Nóis dispara na corrida

Se as pernas endurecer

Nóis enfrenta ele na briga

 

Mas só não pode acabar com as muié

Nóis não vive sem muié

Nóis é doido por muié !

 

Deus abençoe as nossas mulheres!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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