No fio da navalha

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A imprensa revelou na sexta-feira que, em depoimento à ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, Humberto Rios de Oliveira, funcionário e homem de confiança de Zuleido Veras, da construtora Gautama, admitiu que transportou, num carro alugado, R$ 650 mil de Salvador para Aracaju. O que não foi dito, mas que está sendo revelado em primeira mão nesta edição do JC (páginas B2 e B3), é que o dinheiro foi entregue ao conselheiro Flávio Conceição de Oliveira Neto, do Tribunal de Contas do Estado.

No dia 27 de fevereiro deste ano, acompanhado por outro homem, Humberto chegou da Bahia dirigindo um Fox alugado à Localiza Rent a Car e estacionou à rua Riachuelo, quase esquina com a avenida Hermes Fontes e bem próximo à sede da Gautama em Aracaju. Logo após um telefonema, um Corolla preto, placas IAA-5555, pertencente a Flávio Conceição, emparelhou com o Fox, abriu rapidamente o porta-malas, onde Humberto colocou um “pacote” ou “maleta”. Policiais federais acompanhavam tudo, filmando e fotografando, mas não conseguiram identificar os dois homens que estavam dentro do Corolla do conselheiro.

Tudo simples assim, à luz do dia, pouco antes das 5 da tarde de uma terça-feira comum. Essa movimentação mostra como a quadrilha de Zuleido Veras, que era operada em Sergipe por Flávio Conceição, agia livremente, transbordante de certeza da impunidade. Analisando os indícios e provas acumulados em um bom par de anos pelos agentes da Polícia Federal, vê-se que eles viviam no fio da navalha e não sabiam. E “eles” aqui são conselheiros, deputados, governador e até — suspeita-se agora — desembargador.

UM ARTICULADOR NADA TÍMIDO — O esquema da Gautama, claro, era movido a obras públicas. E falar sobre quanto isso renderia dava uma alegria danada na turma. Nos telefonemas grampeados pela PF, o aparentemente tímido Flávio revela-se um articulador audacioso. Zuleido, Flávio e aliados estavam sempre alertas aos empreendimentos futuros. E falavam com desenvoltura em “administrar” o maior número possível de contratos.

A operação Navalha tornou-se pública no dia 17 de maio. Somente as conversações recentes, imediatamente anteriores à prisões, revelam um rico emaranhado de interesses. Em fevereiro deste ano, Flávio promoveu um contato entre um engenheiro da construtora baiana e o prefeito de Aquidabã, Eurico de Souza. Pretendiam realizar uma obra ali, que a PF não especifica. Quando Eurico pergunta se “as perspectivas são boas”, Flávio responde: “com toda certeza… ele (Zuleido) manda, rapaz”.

A operação Navalha foi desmembrada de uma outra chamada Octopus — que significa polvo. Agora se vê que, como uma organização tentacular, a Gautama queria fazer-se presente em todos os lugares onde houvesse possibilidade de ganhar dinheiro fácil. Num telefonema no dia 2 de março, Flávio lembra a Zuleido que vai haver uma licitação do Dnit para a duplicação da BR-101 em Sergipe, obra dividida em quatro lotes, e “argumenta que já tem um contrato lá”. No dia 6, ele conversa com um empresário local e diz que a prefeitura vai lançar duas “obras na rua” e que é importante ele entrar: a ponte para o conjunto Augusto Franco, no valor aproximado de R$ 15 milhões, e o “Habitar Brasil”.

No dia 3, Flávio conta para um engenheiro da construtora OAS, chamado Nogueira, sobre o interesse em participar da duplicação da BR-101. “Diz que ontem, no TRE, encontrou rapidamente com Déda (governador de Sergipe) na saída (…) falou da BR-235, na Bahia, trecho Carira a Jeremoabo… viu falando também sobre o remanejamento no anel ferroviário”. E acrescenta que estava precisando falar com “P” — que quer dizer, Pedro Britto, ex-ministro da Integração Nacional e atual ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos.

CONVERSAS REVELADORAS — Há muitos diálogos comprometedores, envolvendo direta ou indiretamente pessoas, além de mais construtoras e obras. Vejamos essas transcrições da PF, diálogos em três dias de março. São textos literais dos relatórios dos agentes federais:

DIA 14, 12h46 — Flávio fala com uma secretária: “Cris fala que quem ligou foi o Dr. João Alves perguntando se o senhor recebeu um documento que ele mandou, Flávio pergunta se o desembargador, Cris diz que sim, Flávio fala que não recebeu, mas vê isso. Cris diz que está com a documentação da Gautama, que a menina pediu para imprimir, diz que vai mandar botar dentro da pasta, está dentro de um plástico”.

DIA 14, 18h08 — Flávio conversa sobre Belivaldo Chagas com Nogueira, da OAS: “Nogueira pergunta se Flávio já teve a conversa, Flávio diz que falou com ele ontem à noite… ele disse que o número 01 externou mais uma vez que precisa falar com ele (Flávio)… que o vice prometeu arranjar uma conversa dos três no domingo (Déda, Belivaldo e Flávio). Flávio fala sobre o secretário da Infra-estrutura (Osvaldo Nascimento), diz que a situação dele é difícil, que já existe inclusive reclamação do número 01 contra ele… Nogueira diz que continua montando os processos, mas não é só ele (Seinfra), são todos, a coisa está muito desencontrada… Flávio fala que está emperrada… diz que já soube algumas coisas dele, mas só fala pessoalmente”.

DIA 14, 18h21 — Flávio e Belivaldo: “Belivaldo pergunta sobre aquele negócio (inaudível) que dá 1,5. Flávio não entende. Belivaldo pergunta como é o nome daquela empresa da Bahia, do Zorro (Zuleido). Flávio diz que uma é Gautama do Deso que dá mais ou menos ‘quinhentos e pouco’, e outra é Fuad Rassi, mais ou menos 1 milhão e cem mil… Flávio diz que está sentindo que o pessoal tem batido na Fuad, apesar de saber que ela contribuiu… Belivaldo diz que vai subir para falar com Leó… diz que já falou com ele (Déda) sobre o assunto. Flávio diz que o fundamental é que eles acompanhem juntos… ‘pra saber que veio por você, entendeu?’ Belivaldo diz que fala com Flávio pessoalmente. Flávio diz que está em casa, se Belivaldo quiser ir lá está à disposição”.

DIA 16, 17h03 — Flávio admite para homem não identificado que Deso pode fazer a própria auditoria: “HNI fala que saiu lá no Jornal da Cidade… sobre contratação de uma auditoria fiscal e contábil para auditar sete obras da Deso, HNI diz que o TCE não existe, pois seria ele o responsável pela auditoria no Estado… Flávio fala que no caso não seria o TCE… pergunta se é o contrato da Fuad Rassi, HNI diz que é um contrato da Fuad Rassi, 2 da Heca e 4 daquele de Amorim lá de cima… Flávio diz que órgão tem independência, ele pode até solicitar… HNI não concorda com a opinião de Flávio, diz que as obras estão encerradas… Flávio diz que pode até questionar, pede que HNI leve o material para ele amanhã, diz que ele (Deso) pode, é carta marcada, mas pode… pergunta se já saiu a tomada de preços. HNI diz que publicou hoje, diz que vai botar a empresa de um amigo para concorrer. Flávio diz com certeza… fala que a Deso pode sim fazer a contratação, diz que a atribuição do TCE é outra”.

DIA 16, 17h55 — Flávio e Zuleido: “Zuleido pergunta se teve a conversa. Flávio diz que teve a conversa do vice com o número 01… diz que falou com o vice, ele disse que o número 01 quer conversar com ele (Flávio)… diz que o vice colocou a situação (assunto de Zuleido) para o número 01, ele mandou deixar com ele (01)… Flávio diz que são dois assuntos, acha que o outro está prejudicado… diz que vai estar com o vice no final de semana e talvez o número 01 esteja junto também… Flávio diz que já está novamente na mão do 01 o negócio que o pessoal é ‘roda presa’… Zuleido fala que o vice poderia ficar com a orientação de Flávio, operando… Flávio diz que na conversa que for ter com o número 01 e o vice vai colocar exatamente isso, pois não quer aparecer… Flávio fala sobre João Alves e o governo Marcelo Déda, diz que o secretário de Infra-estrutura é ‘qualquer coisa de uma tragédia’… Zuleido pergunta se Flávio viu o edital da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Flávio diz que viu… ‘mas isso eu tenho que falar pessoalmente… quando tiver com o número 01’. Zuleido diz que vai à posse de Geddel (Vieira Lima) no Ministério da Integração… Flávio fala que é muito bom… Zuleido fala “Ave Maria, melhora tudo Flávio”.

DIA 19, 12h33 — Flávio diz a Zuleido que não conseguiu reunir-se com Déda: “Zuleido pergunta se Flávio teve a reunião. Ele diz que não teve. Conversa sobre a política administrativa de Marcelo Déda, Flávio diz que ele vai fazer igual fez Valadares, tranca tudo no primeiro ano, se desgasta e depois se recupera… Zuleido fala que isso está errado, as coisas mudaram, no tempo de nosso amigo lá (Valadares) eles tinham o Decreto Lei 2.300… Flávio diz que não está falando da obra não, está falando é de recursos. Zuleido fala que é de tudo, é a captação de recursos por conta do PAC… diz que o PAC precisa de agilidade, quem não tiver agilidade perde dinheiro… Flávio diz que a pessoa que o governador colocou para cuidar do PAC é competente teoricamente, mas na prática é um desastre… ela é a secretária de Planejamento (Lúcia Falcón)”.

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