Nordeste vence Cannes!

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Karim Ainouz ao centro com a equipe do filme ganhador em Cannes

Dois diretores conseguiram uma proeza ainda nunca vista lá naquela praia francesa: prêmio do júri e prêmio na mostra alternativa “Um Certo Olhar”. São eles Kleber Mendonça Filho, com Bacurau; e Karim Ainouz, com A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Nem na época de Pagador de Promessas, nem no Orfeu, nem com Glauber Rocha em 1969 isso ocorreu. O Brasil está no foco dos europeus, como por um bom tempo ficou sendo o Irã, outro tempo Taiwan, outro a China… E também a Coreia. Há o que se falar sobre isso, vamos tentar.

Vencer um festival como Cannes não implica dizer que o filme é tecnicamente impecável. Que o filme conseguiu inovar no quesito técnico, melhor dizendo. Estes franceses (como os italianos, holandeses, e uma parte dos norte-americanos mais próximos de New York) estão contemplando outra coisa.

Eles contemplam, na verdade, algo próximo da “inovação de linguagem”. Algo que, para uma cabeça comum, seria “algo nunca visto”- pois a linguagem do cinema é VISTA, é dos olhos, como do auditiva. É linguagem da imagem.

Algo nunca visto. Não vi os filmes destes diretores adoráveis. Mas posso adiantar, sem medo de errar, que há em Kleber Mendonça um western-terror colorido passado em Pernambuco. E que Karim Ainouz enreda, mais uma vez, um tipo de angústia feminina dentro do patriarcado brasileiro. São, enfim, sem erro, dois diretores que se colocam no lado esquerdo das “ideologias” em combate no país.

E são assim assumidos. Kleber foi contra o golpe político quando apresentou Aquarius lá no mesmo festival. E Karim é ativista de causas femininas e homossexuais. Desde seus primeiros longas metragens, os dois diretores se colocam nesse espectro.

São, também, nordestinos. Um pernambucano, outro cearense. Não escondem a ojeriza por uma parte do Brasil que se apresenta, hoje, como de extrema-direita, e que quer ver a morte do que chamam de “comunismo”. Eles se apresentam ao mundo chamado civilizado como pessoas que trazem as novidades.

Quais novidades? O novo Brasil. Este que se decompõe diante das imagens audiovisuais. E que quer, sem dúvida, acabar com o cinema. Eles estão denunciando essa decomposição?  Não somente isso. Estão nos desvendando, nos trazendo à tona, nos elucidando, nos alertando, nos colocando à frente o que anda acontecendo no país.

Queira ou não queira, eles estão, também, brigando pela permanência deste tipo de arte como uma das mais importantes. Ainda que esse novo Brasil não acorde pra isso. É um êxito da parcela que se vê completamente fora do lugar neste Brasil rural e pedantemente contra qualquer avanço, que tem sido vergonha em todo o mundo.

Vamos às salas, em breve, e vejamos.

 

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