Novo ano.

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No ano que passou, 2012, resolvi passar o Réveillon em Paris, no centro da alegria francesa, na Avenida Champs Elisée, a alguns metros do Arco do Triunfo, mais precisamente nas imediações da Estação George V do Metrô parisiense; em frente ao Lido, boite de espetáculo bonito, em cores, sons e dançarinas belíssimas.

O réveillon parisiense, na Avenida Champs Elisée, sobretudo, era um anseio adiado que acontecia, mais por capricho, que por uma aspiração irrealizada.

Alguns escolhem curtir o carnaval de Salvador, com muito suor e cerveja, outros o bucólico Natal de Gramado, outros ainda os festejos momescos do Rio de Janeiro, no Copacabana Pálace, no Monte Líbano, no Sírio Libanês, com mulheres belíssimas, as mais bonitas do planeta, ou sendo pouco destaque no desfile de Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Outros preferem gozar os festejos momescos de Olinda, quer seguindo os bonecos gigantes dos passistas e compositores de frevo e maracatu recifenses, ou na rabada do “Bacalhau do Batata”, pelas estreitas ladeiras da velha cidade.

Quanto a mim, festejo enquanto desejo, por mudança de ano, eu preferia o Réveillon em Paris, a velha cidade luz de tantas histórias, de tanto canto de amor, do culto a liberdade em ousadia de quebrar paradigmas e construir nova ordem por antítese da desordem.

Mas eu fui a Paris, por absoluto abandono, afinal quando a gente envelhece, o Réveillon sempre é uma festa vazia, algo que se não foi organizado previamente, comemora-se sozinho.

E, por ser assim, uma resposta ao abandono esperado naquele ano, resolvemos Tereza e eu, ousar o que nunca tínhamos executado: Fomos entrar 2012 na frente do Lido, junto à estação George V, para ver como os franceses encaravam o novo ano, este convite de renovação, de re-acordar, ou acordar de novo, ou réveillon, enquanto convite impositivo e imperativo de re-despertar-se, de reerguer-se para um ano novo, e uma vida nova que se apresenta para ser vivida em renovadas esperanças.

Poder-se-ia dizer que nada muda, que é apenas um novo ano civil, oportunidade para recomeçar um novo orçamento, um ano fiscal, algo que apaga erros, corrige desfeitos, cataloga cartorialmente perdas e danos, ou enganos outros desmedidos, nada convalidados, enquanto similitude matemática, entre a reta e o descortinar real da existência, sem brechas e sem lacunas, sem boças nem singularidades.

Porque a vida segue contínua e sem brecha. Não há nela singularidade onde se possa assumir descontinuidade e indefinições infinitas, nem também ousar desabamentos de ausências de apoios e suportes. Não! A vida prossegue, limitadamente, imprevisivelmente com algumas surpresas, mas continua; ou acaba!

Poder-se-á dizer que nesta continuidade há um arrefecimento de forças, de desejos e vontade. Mas o tempo é inexorável! Ontem eu fui criança, depois fui jovem, ousei ser pai, hoje tenho a suprema ventura de ser avô. E aqui abro um parêntese por sorriso necessário: Que coisa boa ser avô!

Parêntese importante porque a passagem de um novo ano carrega sempre essas alegrias. Em 2012 curti dois netos, Pedro Henrique e João Marcelo, e 2013 chega com promessas de um terceiro, Vinícius, todos com nome bonito, como sói o mundo recomenda em novidade e esperanças. E assim, que devo desejar por melhor? Que seja fechado o parêntese!

Poder-se-á dizer que tudo isso é bobagem, que a vida é sofrimento, que é angústia, que viver é uma brincadeira dos deuses, suprema ironia daqueles que jogam conosco, e quanto mais alcançamos alturas, mais sorriso lhes causa a nossa queda.

Ah, os homens em seus sonhos, medos e angústias, e insatisfações, reclamações, e tantas decepções e desesperos!

Tudo que um novo ano pode suscitar em desesperanças e desprezos. “Nada muda”, dirá um. “Suprema tolice”, escarrará outro. ”Por que tanta luz e riso”, se tudo é vão e nada vale?!

E o que dizer também daqueles que só veem provação, motivo de penitência, abstinência, autoflagelação e tortura? Não! Eu tenho medo dessas pessoas que se flagelam com o sofrimento que não sentem. Ah! Quanta fome no Sudão! Quanta miséria no Paquistão! Quanta gente dormindo na cama de pau duro! E ele no seu leito com um colchão terrível de levantar de tão macio!

Assim, haja desvio! Inclusive o meu indo para a Avenida Champs Elisée, nos idos do Réveillon 2012, e agora retomando o rumo, o prumo e o arrumo, em 2013, passando-o bem melhor com parte da família em Atalaia Nova e por bem melhor e bom aprumo, não às margens do Sena, mas junto ao meu Rio Sergipe, ali na frente da casa que fora de Zé Peixe, o seu amante maior, onde por costume antigo sempre vi o ano se renovar, com a procissão de Bom Jesus dos Navegantes, cortejo de barco tão antigo, enquanto louvação à vida, de tantos portugueses de cujas lágrimas salgaram o mar, e até o estuário do rio hoje tão degradado?
Sujeira e fedentinas contempladas ano a ano, e a todo novo ano com os barcos minguando na procissão.

Porque os homens perdem suas referências, esquecem os seus ritos milenares, ousam construir o novo esquecendo o velho. Notável reconstrução da vida, poderemos explicitar, como se estivéssemos a esquecer as nossas insatisfações e medos, ou inovando; simplesmente.

Não, tão Igual a mim, resistente ainda, assistindo à Missa de ano novo, como necessária obrigação por louvação à vida: Em 2012 numa capela da Avenida Friedland, cujo nome perdi, onde só onze presentes assistiam e presenciavam a Missa, quatro celebrantes e sete assistentes, entre os quais Tereza e eu, e agora em 2013, na Igreja Jesus Ressuscitado, com uma presença bem maior.

E assim o ano novo recomeça. “Ah, mas nada recomeça”, esganiça o idiota da objetividade!

Mas começa, digo eu!  Começa em mim com o Sol, o astro rei, reiniciando um novo ciclo, só porque a Terra, o seu planeta azul, no giro ébrio de si mesma, oscila qual pião em azimute tão perfeito, sinótico e semi-prosaico, que os dias exibem discordâncias no tempo e nas circunstâncias, que a natureza exibe uma mutacional beleza, com a terra restando fértil, em gestação e parição, e assim ha tempo de plantar, florir, conceber e…; fenecer! Como não seguir, para fenecer?!

Como pensar distinto, se em promessas o porvir se promete melhor em motivações incontroláveis e úberes dadivosos, em substância e nutrícia, quando tudo é sempre renovado, com os novos sempre substituindo os velhos, como deve ser e não poderia ser diferente, e eu continuo em rastro firme seguindo, traçando um legado meu próprio, nas pegadas que pisarei?

Seguir em desafio, afinal missão do homem é ser sempre superado; ser um recorde vencido na olimpíada do resistir!

Quem já não me venceu, e viu mais longe, só porque se apoiou nos meus toscos e frágeis ombros, dadivosos e disponíveis, remunerados só por isso?

Missão do homem não é ser o ombro que alavanca e apoia, o instrumento que faz alguém ver além e bem adiante?

Não é também por repetir Albert Einstein, aquele que dissertara a Relatividade, restrita ou ampla, como um conceito que descontrói a realidade padronizada por Newton, Arquimedes e Euclides, quanto ao espaço, à massa e ao tempo, mas que a definiu só por visão melhor assestada, apoiada e elevada no ombro de tantos gigantes?

É quando me volto de novo para as margens de meu Rio Sergipe, no mesmo lugar, à frente da casa de Zé Peixe, onde o Ano Bom se completa enquanto festa. Uma tolice, alguém poderá dizer. É, porém, um costume antigo desde a infância, vendo mais uma vez a procissão de barcos, com a assistência minguando, o meu entorno familiar também, meu pai, minha mãe, que ali não estão mais comigo, fisicamente. Mas eu estou, e por mais um ano com a mulher amada; quarenta anos persistentes! Eis o importante! Mirando também por eles aquelas águas benfazejas, invocando e requerendo as bênçãos de Bom Jesus dos Navegantes para o nosso navegar, prosseguir, num novo ano a resistir.

Que Bom Jesus dos Navegantes, enquanto símbolo de destino e esperança, ampare as nossas dúvidas, amaine as nossas incertezas e ilumine o nosso caminhar!  

No mais tudo é dom de Deus, do Deus que sempre alegra a nossa juventude.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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