O beijo de Ilma Fontes

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O mundo intelectual e artístico aracajuano parou numa noite de 1980 para assistir à exibição de um curta-metragem que causaria excitação e espanto. O filme de 7 minutos, em Super 8, era “O Beijo”, produção de Ilma Fontes, roteiro e direção de Yoya Wursch, protagonizado por elas, com direção de fotografia e montagem de César Macieira e câmera de Fernando Souza. O resumo do argumento é sobre duas mulheres que, envolvidas nas tramas existenciais, procuram respostas para a melhor maneira de viver. Mas o que todos queriam ver era o longo e caliente beijo trocado pelas duas. Um escândalo!

Isso era Ilma Fontes, intensa, verdadeira e provocadora.

Há dúvidas sobre onde se deu a estreia, mas a maioria dos ouvidos crava que foi no Cultart da Universidade Federal de Sergipe, na mesma avenida Ivo do Prado onde Ilma morava. O filme foi vencedor do VIII Festival Nacional de Cinema Amador de Sergipe e, tempos depois, a fita original foi doada ao Museu de Arte Moderna de São Paulo. Para comemorar os quarenta anos de sua estreia, Ilma gravou o áudio para um poema-filme dirigido por Eduardo Waak. Em meio a imagens de mulheres que ela admirava, “fortes, lindas ou não, gays ou não, mulheres, de todas as classes e mulheres sem classe também”, Ilma declama: “Me pega como se eu fosse um ramalhete e me joga pro alto, para as solteiras”.

Em Sergipe, ela abriu caminho na marra, enfrentando o preconceito contra os artistas e a arte local. “Se Spielberg nascesse em Aracaju seria carteiro ou professor de matemática”, declarou para Antonio Abujamra (1932-2015), na TV Cultura, quando dividiu o programa “Provocações” com o psicanalista Roberto Freire (1927-2008). Ela era médica psiquiatra e legista.

“Sergipe é muito conservador e quem cria fica logo marcado, figurinha carimbada”, atestou. Segundo Ilma, os homens de Sergipe “me viam como aquela gostosinha que dava quando queria, pra quem queria, mas não chegava pra eles”. E não havia esperança de que Sergipe mudasse? “Eu não tenho esse tipo de esperança verdejante, eu vou à luta, eu sou muito insistente. Já que eu não posso ser a Rita Lee, eu sou a irrita aqui: eu incomodo, eu falo, eu provoco”.

Ilma partiu para o cinema quando constatou que o público local rejeitava o teatro, num inexplicável desrespeito ao ator, ao diretor, ao autor da casa, segundo ela mesma disse numa outra entrevista, ao blog Sociedade dos Artistas do Brasil, de Reginaldo Paz, em dezembro de 2015.

“Não adianta fazer tanto esforço, o povo não quer isso, o povo de Sergipe gosta de ator da Globo, então eu disse ‘vou fazer um filme com ator da Globo’ e fiz ‘Minha Vida em Suas Mãos’, de 2001, com direção de Maria Zilda Bethlem e 18 atores da Globo. Mas é de Ilma Fontes”.

O argumento lhe foi passado numa consulta de uma paciente que a autorizou a fazer o roteiro com a história dela. “Mas eu fui traída pela minha parceira de roteiro (Yoya Wursch), porque o final do filme não é aquele besteirol que Maria Zilda como produtora se arvorou no direito de mudar muitas coisas. Esvaziaram o conteúdo social do filme e sexualizaram”.

Ela também escreveu, produziu e dirigiu junto com Yoya Wursch o filme “Arcanos (O Jogo)” (1980), que é estrelado pelo velho e querido amigo Amaral Cavalcante (1946-2020), com quem também teve muitas rusgas, principalmente nos tempos de Folha da Praia, onde assinou coluna e foi editora assistente. São dela o curta “A Taieira” (1986) e o seriado de TV “A Última Semana de Lampião” (1986).

Por quase 30 anos fez de “O Capital – Jornal de resistência ao ordinário” sua trincheira de luta, um periódico de tendência socialista, aberto à poesia e que circulava por todo o Brasil.

Seu sonho de cinema era transformar em filme o romance “Os Corumbas”, do “parente” Amando Fontes. Uma frustração foi não ter filmado “A Fúria da Raça”, um roteiro que escreveu para os 400 anos de Sergipe e depois publicado em livro. O último livro foi o catálogo de arte “Álvaro Santos – Memórias”, publicado em 2017 pela Associação Sergipana de Imprensa, com apoio da Academia Sergipana de Letras.

Ilma teve um longo relacionamento com Yoya e assumia pelo menos oito casamentos. Mas a paixão da vida toda foi o poeta Mário Jorge, a quem considerava um primo, pela amizade que vinha da infância e por causa do sobrenome do procurador de justiça Osman Fontes (1916-1992), que o criou como filho.

“Mário Jorge descobriu minha sexualidade, coisa de primo, tínhamos afeto um para o outro e, como nós éramos libertários, nós não tínhamos a caretice do ciúme. Ele tinha as namoradas dele, inclusive ele namorou com duas primas minhas, de famílias diferentes, do lado do pai, outra do lado da mãe. A gente não tinha posse, nem ciúmes, todo mundo podia fazer o que quisesse. Mas nas madrugadas, a gente sempre estava juntos”.

Parente mesmo, primo de 2º grau tanto do lado do pai como do lado de mãe foi o poeta Hermes Fontes. “Nós temos muito orgulho do Hermes”, admitiu, sem deixar de fazer um atalho: “Os Fontes são poetas, suicidas e alcoólatras, em geral é uma combinação que a gente não pode fugir muito ao DNA, então veja Hermes Fontes: no dia 25 de dezembro de 1930 deu um tiro no peito, se matou.”

“Amando Fontes se matou cedo, foi para São Paulo, se meteu com o movimento sindicalista anarquista, então se matou. Meu avô deu tiro na cabeça. A gente que é Fontes convive com a ideia do suicídio com uma naturalidade muito grande, isso é uma opção, é uma questão de honra. Os Fontes não se matam por dívida nem financeira nem moral, se matam por questões existenciais, morais, por dificuldades pessoais, é uma coisa muito louca. Então, eu durmo com meu 38 do lado, esperando a minha hora.”

A brava aracajuana Ilma Mendes Fontes, filha do funcionário público Aderbal Fontes de Araújo Góis e da costureira Jenny Mendes Fontes morreu de câncer no último sábado, dia 3. Faria 74 anos no dia 10 deste mês de abril.

*Marcos Cardoso é jornalista e escritor. Foi diretor de Redação do Jornal da Cidade, secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, diretor de Comunicação do Tribunal de Contas de Sergipe e é servidor de carreira da UFS. É autor dos livros “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” e do romance “O Anofelino Solerte”.

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