O Brasil e o mundo vistos de fora.

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Compartilho com meus leitores alguns temas que encontrei nos periódicos franceses Le Mondee Le Figaro neste último fim de semana.

 

O primeiro, trata-se de matéria da Revista Le Figaro Magazine,assinada por Jean-Louis Tremblais (páginas 22 e 23/04), cujo mote nos distingue com uma apreciação dos “Cem dias do governo Bolsonaro”.

 

A chamada da matéria, assim principia:“Jair Bolsonaro – A campanha dos cem dias. – O presidente brasileiro em função desde 1º de Janeiro. – Cem dias no poder que ele pretende comemorar a partir de abril, expondo publicamente seu balancete de realizações. Se todas as promessas não foram cumpridas, forçado é preciso constatar que a catástrofe anunciada pelas cassandras não teve lugar”. (O grifo foi introduzido por mim)

 

Embora o interesse do artigo seja a apreciação dos “Cem dias” de Bolsonaro, o jornalista se apropria de uma rima xistosa, “Coup d`éclat pour um coup d`Etat”,que bem se poderia traduzir, sem mesmo brilho, graça ou blefe, como “golpe de festim, (ou de opinião, ou quem o sabe, um gracejo qualquer de ópera bufa por asneira) por golpe de Estado”.

 

Em verdade, só há na história do mundo um intervalo de “Cem dias”, assim descrito por famoso.

 

Trata-se dos “Cem Dias” de Napoleão Bonaparte, findo os quais o Imperador perdeu a guerra e o trono em Waterloo, na Bélgica, vitimado por uma terrível crise de hemorroidas, soube-o la em visita àquela plagas, incômodo que o impediria de cavalgar o seu famoso corcel branco, e dali bem comandar os seus exércitos.

 

Ah, hemorroidas! Quem as tem, que digam! Não matam, mas incomodam! Até a alguém como o herói de Marengo e Austerlitz.

 

Por acaso não teria implorado aquele grande corso, em preces quase finais, por uma demanda de cura retal, melhor assentar-se sobre um novo ânus bem conservado, algo igual ou parecido àquele dito por Ricardo III, trocando, não o reto, mas seu reino, por um cavalo bem arreado, na tragédia rimada por Shakespeare, em sua invenção do humano?

 

Ah, mas aí estou eu, viajando na maionese, porque melhor me pareceu derrapar do tema para não perder o fonema, retirando da pustema, a verve, o riso e a dor, de quem não sofre de hemorroidas, mas imagina o seu ardor.

 

Incômodos outros acentuados, ou sentidos amplamente em muitos assentos, ardores outros foram denunciados por  M. Tremblais quando em fecho comemorativo dos “cem dias” de Bolsonaro, o Capitão Presidente encarregara que os exércitos celebrassem nas casernas, “como devido”, o 55º aniversário do golpe de 1964, urdiduras que fazeram com que a imprensa brasileira, dele voltasse a se lembrar.

 

Em verdade, todos o sabemos, que a imprensa brasileira jamais lhe dera um dia de sossego, inserindo sucessivas críticas ou recapitulando aquelas que erodidas deviam estar, mas reluzentes permanecem, como se fossem novas.

 

Tanto isso é tão verdadeiro que M. Tremblais repete como se novidade fosse o Capitão ser “um católico e pai de cinco filhos, todavia casado em 3asnúpcias com uma evangélica, que lhe valeu o apoio de uma comunidade tão poderosa quão influente”, possuir simpatia pelo Presidente Trump,  e ter afirmado à Revista Playboy em 2011: «Eu prefiro que um filho meu pereça num acidente a vê-lo aparecer com um bigodudo por aí”.

 

Alterando o contexto,  o articulista gaulês diz que Bolsonaro ao ser denunciado por uma líder esquerdista que estigmatizava os estupros cometidos pela ditadura militar acima mencionada, afirmara-lhe em reprimenda, sem titubear: “Ela não merece ser estuprada porque é muito feia.  ”

 

Ou seja; se a versão é mais agradável, publique-se a versão à exaustão.

 

Não quer saber o jornalista que a Deputada em questão, acusara Bolsonaro de “estuprador”, e este lhe devolveu dando à ofensa, um agravo maior.

 

Por que utilizar um agravo que não cabe perdão?

 

Quem poderá dizer que haja mulheres que o mereçam, e outras nem tanto, ser estupradas?

 

Eis uma tese que bem consignaria uma grande e real discussão, não existissem as ditaduras politicamente corretas, cerceando guetos e comportamentos, quando se pune o debate e permeia a má fé, sem punir o crime, preferindo mascará-lo enquanto falta de tesão ou inapetência.

 

Discordâncias outras, mas semelhantes, prefere M. Tremblais discorre sem seu acorde, que “este ex-capitão de artilharia é um oficial da reserva, para quem a ditadura militar que governou o país até 1985 merece o respeito tendo em vista que salvou o Brasil do comunismo, e o colocara no caminho do desenvolvimento econômico”.

 

Um governo, mal qualificado pelos partidários de Bolsonaro como oriundo de uma  “revolução democrática” ou “revolução redentora”.

 

Em desacerto similar prefere M. Tremblais, reverberar na França a mídia pátria, enaltecendo o belo grito da oposição que estava lutando para mobilizar multidões mas conseguira apenas reunir mil pessoas em Brasília, e duas mil no Rio de Janeiro, para repudiar o tal “revisionismo da História”.

 

Curioso e notável é que o jornalista francês afirmou, e o Le Figaro Magazine  o destacou, que no contexto geral de sucessivas apurações em “Comissões de Verdade”, por décadas, “ conseguiu-se contar 434 vítimas da junta, a causar uma indignação cada vez mais fraca, num país cuja violência exibe uma taxa de homicídios registrada de 30 por 100.000 habitantes, só 63.880 assassinatos em 2017”.(Grifo meu)

 

 

E M. Tremblais se denuncia infeliz em tão brandura autoritária constatada, mas não reconhecida, afinal são suas as palavras textuais que bem valem o negrito sublinhado: “IL FAUT PLUS D’HÉMOGLOBINE POUR ÉMOUVOIR!” – É preciso bem mais hemoglobina para emocionar.

 

Deixo, agora o artigo de M. Tremblais porque este irá se estender sobre temas  “politicamente incorretos”, como os antigos ataques  de Bolsonaro às “minorias indígenas da Amazônia, que não teriam mais um centímetro extra de terra”, ultrajes denunciados por ambientalistas, porquanto “no seu governo pretende desenvolver culturas em detrimento da floresta”, porque colocou sob a tutela do Ministério da Agricultura a demarcação de terras indígenas, muitas outras críticas em viés de esquerda, porque para impulsionar o crescimento, ele prometera privatizar tudo e reformar o sistema previdenciário, que está no orçamento, e por fim, porque nomeou, Paulo Guedes, um “ultraliberal ‘Chicago Boy’”, para o Ministério da Economia, supervisionando também as Finanças, o Planejamento, a Indústria e o Comércio Exterior.

 

Antes, porém, de deixar o artigo, ressalto que, mesmo constatando a queda de popularidade de Jair Bolsonaro de 67 para 51%, M. Tremblais conclui sem tremer: “Gostemos ou não, o brasileiro número um não desencadeou o caos previsto pela imprensa internacional e, ao se exibir passados cem dias no relógio, nenhum Waterloo se lhe aproxima no horizonte”.

 

Horizontes distintos à parte, ao deixar o Le Figaro Magazine, dirijo-me ao Le Monde, edição de 07 de março, destacando que a República de Rwanda  iniciava naquele dia um luto de cem dias, lamentando vinte e cinco anos depois, do genocídio, acontecido em 1994, quando ali foram mortos aproximadamente 800.000 pessoas.

 

A reportagem destaca sobremodo a indiferença da França, de ontem, aquela de 1994, presidida pelo socialista François Mitterrand, que lavara as mãos na condenação dos feitos, e da de hoje, com o jovem Presidente Macron, limitando-se a uma tosca lembrança no Eliseu.

 

Para quem carpe cachoeira lacrimosa pelas 434 vítimas produzidas em vinte e dois anos de vigência do nosso regime militar de 1964 a 1982, lembro que em 1994, cerca de oitocentos mil nativos das etnias Tutsi e Hutu foram mortos, no maior genocídio, jamais repudiado pelo ocidente  esclarecido.

 

Nesse contexto, velas sejam acesas em soma da pira erigida no estádio de Gisozi em Kigali, emblema da moderna capital ruandesa, para relembrar o último refúgio onde cerca de 250.000 vítimas estão enterradas.

 

Como para muitos, tudo é só História, ou não apenas isso, relembro para quem não sabe nem se incomoda, que por instigação do regime extremista Hutu, então no poder de Ruanda, tal genocídio custou a vida, entre abril e julho de 1994, de pelo menos 800 000 pessoas, segundo a ONU, essencialmente no seio da minoria Tutsi, mas também entre os Hutus moderados.

 

Uma hemorragia diferente e por isso pouco sentida, o que é lamentável.

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