O calcanhar de Aquiles de Pezão

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O calcanhar de Aquiles de Pezão é o mesmo de Sérgio Cabral, Garotinho e Rosinha Matheus. É a queda por desviar o dinheiro do povo do caminho legalmente determinado. O reincidente Cabral e, certamente, seu herdeiro Pezão, têm fixação nos milhões de reais de obras públicas. Garotinho e Rosinha são reincidentes em usar dinheiro público para comprar eleições.

Os quatro governadores eleitos no Rio de Janeiro desde 1998 estão ou estiveram na cadeia após serem flagrados cometendo tais crimes. Há 20 anos o estado é governado por eles e todos são ou foram do MDB. Nesse período, a curta exceção foi a passagem pelo governo de Benedita da Silva, do PT, durante oito meses de 2002. Uma lástima!

A diferença entre eles é que Luiz Fernando Pezão foi preso no exercício do cargo e recebeu voz de prisão dentro do Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador. Nesse aspecto, a detenção lembra outras duas prisões históricas de governadores, de Miguel Arraes e Seixas Doria, nos primeiros dias de abril de 1964.

Mas as coincidências param por aí. Arraes e Seixas não foram presos como ladrões, muito pelo contrário: foram arrancados do Palácio das Princesas, em Recife, e do Palácio Olimpio Campos, em Aracaju, por se manterem fieis às suas convicções políticas e porque discordavam do golpe militar.

Mais recentemente, o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (PR), foi também preso no exercício do mandato, no dia 11 de fevereiro de 2010, por decisão do Superior Tribunal de Justiça. Foi o primeiro caso na história do Brasil democrático que um governador teve sua prisão decretada, ainda que preventiva.

O Rio de Janeiro é um estado terminal. Além dos governadores, já foram presos todos os presidentes da Assembleia Legislativa, de 1995 a 2017 — inclusive o amigo Jorge Picciani, acusado de favorecer o setor de transporte público e empreiteiras — e também dez dos 70 deputados estaduais, cinco dos sete conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, além do ex-procurador-geral do Ministério Público.

Sem falar em Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara dos Deputados e um dos mais influentes políticos do Rio de Janeiro, condenado a mais de 15 anos e detido em Curitiba há um ano por corrupção passiva.

Sérgio Cabral já possui cinco condenações que somam mais de 130 anos de prisão por desvios de cerca de R$ 1 bilhão, principalmente de obras. Mesmo com a Polícia Federal e o Ministério Público de olho em tanta corrupção, Pezão teria dado continuidade ao esquema criminoso de Cabral e se beneficiado, pessoalmente, de quase R$ 40 milhões. A denúncia cita uma inacreditável mesada de R$ 150 mil, com direito até a um décimo terceiro pago com o dinheiro ilegal.

Se Pezão é um caso raro de governador detido ainda no mandato, no Brasil já se tornou comum a prisão de ex-governadores.

Em setembro deste ano, o ex-governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), foi preso. Ele é alvo de duas operações: uma comandada pelo Ministério Público do Estado e a 53ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Piloto. Já havia sido condenado por uso de verba oficial em viagem particular e responde por favorecimento em licitações de obras públicas.

O ex-governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (MDB), responde a processos e foi preso no ano passado e neste ano também acusado de chefiar um esquema de propina do qual se beneficiou com R$ 20 milhões em apenas um ano.

José Melo de Oliveira (PROS), ex-governador do Amazonas já denunciado por compra de votos, foi preso em 2017 e novamente neste ano por desvios de verbas da saúde, dos quais teria se beneficiado com mais de R$ 20 milhões.

O ex-governador do Tocantins, Sandoval Cardoso (SD), foi preso em 2016 no âmbito de uma investigação da Polícia Federal sobre uma fraude de R$ 1,2 bilhão em licitações. Foi liberado após pagar fiança de R$ 50 mil. Agora em 2018, foi condenado pelo crime de peculato, porque teria usado notas frias para se apropriar de R$ 244 mil, enquanto foi presidente da Assembleia Legislativa entre os anos de 2013 e 2014.

A Justiça Federal acatou em abril deste ano a denúncia do Ministério Público contra 12 réus investigados no âmbito da Operação Panatenaico, que apura denúncias de corrupção nas obras do estádio Mané Garrincha. Entre os réus estão os ex-governadores do Distrito Federal, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz (PT). Ambos foram presos em 2017. Arruda, mais uma vez. Orçada em R$ 600 milhões, a construção do estádio custou, em 2014, mais de R$ 1,5 bilhão.

Até Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo marcado por seguidas acusações de corrupção, finalmente acabou condenado e preso no ano passado por lavagem de dinheiro. Ele teria movimentado quase meio bilhão de dólares no exterior.

Todos esses não tiveram a mesma sorte do ex-governador João Alves Filho, de Sergipe, réu na Operação Navalha. Os denunciados foram agora perdoados pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região, no Recife, que entendeu não haver provas suficientes do desvio de quase R$ 180 milhões cometidos entre 2003 e 2006 na duplicação da Adutora do São Francisco.

Que sorte!

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