O Centenário de Costa Pinto

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    No local onde o Recife nasceu, justamente na cabeceira da ponte construída pelo conde Maurício de Nassau, existia o Arco da Conceição

Lucilo da Costa Pinto na Faculdade de Medicina

, que era o portão de entrada da cidade. O Arco foi demolido em 1913, por exigências do trânsito. Recife começava a se modernizar.
   Uma alternativa, até o final do século XIX, de chegar, por exemplo, a Olinda era pegar um pequeno barco que transportava as pessoas da pequena faixa de terra que ligava a praia próxima ao Forte Brum com a vilarejo chamado de Santo Amaro das Salinas. 
   Em Olinda, residia e trabalhava o médico Ricardo José da Costa Pinto, atuando como ginecologista e obstetra no hospital da cidade, praticando ainda a psiquiatria no consultório. Talvez isso explique a grande e variada biblioteca que possuía em casa. Com paixão incomensurável pela leitura, fazia dela o seu predileto lazer. Casado com Alice Barreto da Costa Pinto, tiveram o casal 16 filhos. O primogênito recebeu o nome de Lucilo.
Lucilo da Costa Pinto nasce, pois, em 23 de setembro do ano da demolição do Arco da Conceição, 1913, em Olinda, mais especificamente na rua Matheus Ferreira, número 13. Vem ao mundo no período em que Recife começava a sua modernização, início do século XX, como estava acontecendo em outras cidades brasileiras.
   Desde pequeno Lucilo convive com os livros de medicina e de literatura em geral, fartos na biblioteca de sua casa. Ouve narrações de casos clínicos, de doenças e do dia a dia dos hospitais, contadas pelo pai. Ali mesmo, no recesso do lar, aprende as primeiras letras.
    Em seguida, é matriculado no grupo escolar João Barbalho, situado à Rua do Hospício, no Parque 13 de maio, até concluir o curso primário. Nessa mesma escola, anos depois, estuda a jovem e depois grande escritora, Clarice Lispector. Ainda no grupo escolar João Barbalho, é colega de turma de Mauro Mota, que viria a se destacar na intelectualidade pernambucana, como poeta, escritor e educador, como membro da Academia de Letras de Pernambuco e da Academia Brasileira de Letras. Apaixonado pela leitura e sempre estimulado pelo pai, com apenas dez anos de idade, Costa Pinto já havia lido “Os Lusíadas”, a obra prima de Camões, e recitava seus versos a todo o momento.
      Findo o curso primário, Costa Pinto segue para o Colégio Marista do Recife, situado na Avenida Conde da Boa Vista, onde faz o curso ginasial, de 1924 a 1928. De 1929 a 1931 faz o curso científico no Ginásio Pernambucano, situado na Rua da Aurora. Em 1932 é aprovado para o curso de Medicina da Faculdade do Recife, na época localizada no Derby.
   A primeira tentativa de criação de uma faculdade de medicina em Pernambuco ocorrera no século XIX, em 1895, mas somente em 1914, a Congregação da Faculdade de Farmácia, da qual fazia parte um grupo de professores médicos, decidira aprovar, por unanimidade, a sua criação.
    Em 1915, o Dr. Octávio de Freitas escolhido, por aquela Congregação, também por unanimidade, Diretor da Faculdade de Farmácia, conclama seus colegas a escolherem os futuros professores da Faculdade de Medicina e assim, em abril de 1915, é instalada a 1ª Congregação da nova Faculdade de Medicina.
   Em 4 de maio de 1920, realiza-se a 2ª Congregação da Faculdade de Medicina do Recife, que aprova a ata da reunião de 5 de abril de 1915, data reconhecida como a da fundação da Faculdade de Medicina de Recife. A primeira turma forma-se em 1925. A Faculdade de Medicina do Recife funciona no prédio da Faculdade de Farmácia de 1920 a 1927, localizada na Rua do Sebo, hoje Barão de São Borja. Em abril de 1927, a Faculdade de Medicina do Recife passa a funcionar no Derby, hoje sede do Memorial da Medicina, e que abriga a Academia de Medicina de Pernambuco, o Museu Médico, a Sobrames Pernambuco e outras entidades culturais relacionadas à Medicina.
     Em 1928, a faculdade é equiparada às demais faculdades oficiais do Brasil, mas só em agosto de 1946 viria a ser incorporada à Universidade do Recife. Em 1949, é federalizada e passa a integrar a Universidade do Recife, com o então nome Faculdade de Medicina da Universidade do Recife, continuando a funcionar com sede no prédio do Derby com as cadeiras básicas e nos Hospitais Pedro II, Santo Amaro, Hospital Infantil Manoel Almeida, Hospital da Tamarineira, Hospital do Centenário e Maternidade do Derby, com as cadeiras clínicas.
    Em 1934, como estudante do segundo ano de medicina, Costa Pinto conquista o seu primeiro emprego. Recebe  convite para trabalhar como datilógrafo no Ginásio Pernambucano, sendo nomeado pelo Dr. Carlos de Lima Cavalcante, então Interventor do Estado. Em 1936, ainda cursando a faculdade, é nomeado professor assistente de Química da Escola Normal de Pernambuco, professor de Química Orgânica da escola Normal Pinto Junior e nesse mesmo ano, ainda na faculdade, casa-se com Célia Bastos de Albuquerque, descendente de família europeia, a mãe, Hortencia Guerrér, era francesa e o pai, Manoel Bastos de Albuquerque, pernambucano, descendente de portugueses. Do casamento de Lucilo e Célia nasce oito filhos, Rosa Maria, em 1937, Carlos Gilberto, em 1939, Marcos Túlio, em 1940, Vera Maria, em 1942, estes nascidos em Recife, Paulo Roberto, em 1944, Sonia Maria, em 1947, Célia Maria, em 1950 e Lucia Maria, em 1954, estes últimos em Aracaju.
     Com destacada militância na política estudantil, é vítima de forte perseguição a partir de 1937, com a instalação da ditadura de Vargas – o Estado Novo. Começam as perseguições políticas do novo interventor Agamenon Magalhães. Costa Pinto é demitido dos seus empregos e cargos. São tempos difíceis, ainda estudante, desempregado, casado, com família para sustentar. As perseguições aos comunistas e integralistas são implacáveis.
    Em 10 de dezembro de 1938, com 23 anos, Lucilo da Costa Pinto forma-se médico, mas não participa da solenidade festiva ocorrida no Teatro Santa Isabel, local tradicional das formaturas de medicina desde 1925 por se encontrar preso na Casa de Detenção de Pernambuco, lugar onde permanece por aproximadamente seis meses. Somente vem a receber o diploma em meados de 1939. Começa então a clinicar na Rua da Aurora, no centro de Recife, compartilhando o consultório do pai. Somente a clínica, porém, não lhe dá as condições mínimas para o sustento da família. Enquanto isso, as perseguições continuavam, mesmo sendo o Dr. Ricardo Costa Pinto muito respeitado nos círculos políticos de Recife, com passagem na Assembleia Legislativa de Pernambuco como deputado estadual. As coisas continuavam difíceis para o jovem médico Lucilo. Sem emprego fixo, com a prole aumentando, as dificuldades eram crescentes. Não havia mais espaço para Costa Pinto em Pernambuco.
   Em 1939, atendendo convite do professor Joaquim Sobral, que dirigia o Colégio Atheneu Sergipense, transfere-se para Aracaju para administrar aulas de Química, deixando para trás, temporariamente, com o coração partido, a sua querida esposa Célia, grávida do terceiro filho. Ela ficaria na casa dos pais por um determinado tempo até que o esposo se estabelecesse profissionalmente. Costa Pinto instala-se na pensão de Dona Rosa, localizada na Rua da Frente, na Avenida Rio Branco e começa a ensinar no Atheneu.
    Em 1940, mais estabelecido, autoriza a vinda de Célia e dos filhos para Aracaju e desta cidade nunca mais irá sair. A família fica também instalada na pensão de Dona Rosa e lá permanece por quase um ano. Depois consegue alugar uma casa na Av. Barão de Maruim, na esquina com a Rua Vila Cristina. Morava na casa vizinha o Dr. Souto, médico militar que trabalhava no Hospital Santa Isabel e do qual Costa Pinto se torna um grande amigo.
     Aracaju, na década de 40, possui pouquíssimos médicos, a maioria generalistas e alguns cirurgiões gerais. Não havia ainda um urologista especializado. Cirurgiões faziam procedimentos urológicos como atos cirúrgicos gerais. É nessa condição que Costa Pinto ingressa no Hospital Santa Isabel, levado pelo Dr. Souto e, posteriormente, atendendo convite do Dr. Augusto Leite, no Hospital Cirurgia. Em 1941 começa a clinicar, dividindo o consultório com o Dr. Garcia Moreno e  posteriormente monta consultório próprio no centro da cidade, no Edifício Aliança, na esquina de Itabaianinha com a Rua Laranjeiras. Anos depois transfere o consultório para um imóvel alugado na Rua Geru.
     Continua nosso homenageado lecionando química, agora também no Colégio Tobias Barreto do professor Zezinho e no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, conhecido como Colégio das Freiras, na Rua José do Prado Franco. Leciona também física e ciências naturais no Atheneu. Destaca-se no magistério. Passa a ensinar Ciências Naturais também no Seminário Menor da Diocese de Aracaju.
     O ano de 1942 coloca o Brasil e particularmente Sergipe na mira dos canhões de Hitler. Navios mercantes são torpedeados no litoral da Bahia e de Sergipe e finalmente a ditadura de Vargas declara guerra ao Eixo. Todos são convocados para o esforço da guerra. Costa Pinto é o primeiro médico civil  a se apresentar no 28º Batalhão de Caçadores e é destacado para patrulhar o litoral sergipano, inicialmente como tenente e depois como capitão Dr. Costa Pinto. No último ano da guerra, em 1945, defende a tese “Contribuição ao Estudo da Fisiologia do Timo”, perante uma rigorosíssima banca examinadora e se torna Professor Catedrático de Ciências Naturais do Colégio Atheneu Sergipense.
     Em entrevista concedida ao jornalista Osmário Santos e publicada pelo Jornal da Cidade em 29 de outubro de 1990, Costa Pinto relembra essa fase: “ O concurso que fiz em 1945 foi uma coisa que me marcou profundamente. Fui enfrentar a banca examinadora para catedrático do Atheneu. Como estávamos na época da guerra, a luz era cortada. Eu escrevi minha tese com dois candeeiros de querosene.   Levei oito meses de pesquisa. Depois não tive dinheiro para imprimir e mimeografei. Tinha que dar dez volumes ao Atheneu e dinheiro que é bom, nada! Então o professor Acrísio Cruz me disse: Olha, eu trabalho numa secretaria que tem um mimeógrafo. Você quer mimeografar? Fiz 50 exemplares do meu trabalho. Para garantir o meu ingresso por concurso tive que me submeter à temida banca examinadora.
     A temida banca examinadora a que se refere Costa Pinto era formada pelos médicos Oscar Nascimento, Clóvis Conceição e Garcia Moreno, todos patronos deste sodalício, além do professor Alfredo Montes. Não imaginava o nosso homenageado que muitos anos depois viria a ser patrono dessa mesma academia que hoje lhe reverencia. Patrono da cadeira 26 da Academia Sergipana de Medicina em 1994, que tem como fundador o Dr. Cleovansóstenes Aguiar.
    Em 1946, Costa Pinto é nomeado médico do Departamento de Saúde do Estado de Sergipe pelo Dr. Walter Cardoso, que comandava o órgão e é destacado para coordenar o serviço de controle das doenças sexualmente transmissíveis e nesse mesmo ano é destacado para representar o estado em um congresso de Medicina Preventiva em Buenos Aires. Decide então aproveitar a oportunidade e faz pós-graduação em cirurgia urológica na capital argentina. Retornando a Aracaju, torna-se o primeiro especialista em cirurgia urológica de Sergipe, permanecendo nessa condição durante 17 anos.
    Em 1947, atuando como médico sanitarista assume a secretaria municipal de saúde, atendendo convite do prefeito Marcos Ferreira de Jesus.
   Lucilo da Costa Pinto foi  um importante e destacado pensador cristão e militante da Ação Católica e da LUC – Liga Universitária Católica – ao lado do Monsenhor Luciano José Cabral Duarte, Antonio Garcia, Cabral Machado, Silvério Fontes, José Amado do Nascimento, Luiz Rabelo Leite, entre outros. Coloca assim a sua intelectualidade, religiosidade e fé a serviço da religião, contribuindo com estudos sobre os salmos bíblicos e o Santo Sudário.
    O movimento da Ação Católica encantou o médico Costa Pinto. Desenvolvida através de cinco movimentos principais, todos juventudes cristãs, a Ação Católica começou na Bélgica com o Monsenhor Cardjin, que fez as suas primeiras experiências com a Juventude Operária Católica e que logo se espalhou pela França e Canadá. Propugnava a formação na ação, utilizando o método “ver-julgar-agir”, que corresponde a estudo, diagnóstico e tratamento na metodologia do Serviço Social. Em Sergipe, desenvolveu-se, entre outras, a LUC – Liga Universitária Católica, formada por profissionais com curso superior. Foi iniciada em 1945, no tempo de Dom José Thomaz tendo Dom Avelar Brandão como o seu principal animador. Depois, ficou sobre o comando de Don Fernando Gomes e a assistência eclesiástica do padre Luciano Cabral Duarte, após regressar de seus estudos na Europa.
    A empolgação com a Ação Católica pode ser sentida pela declaração do padre Luciano Cabral Duarte em artigo publicado em A Cruzada em 1950. Para ele, a AC vem: Restaurar. Reacender as chamas mortas. Selar de novo os antigos e sacrossantos compromissos perjurados. Fazer os cristãos viverem de tal modo que a sua vida, para os outros homens, seja uma coisa inexplicável sem Deus. Apontar aos homens a velha e amiga estrada abandonada, a que conduz à Casa Paterna. Ensinar que não se é cristão por se haver perdido, mas por se haver achado. Reafirmar a cada passo, a cada solicitação do mal, a cada tropeço nas escarpas da vida, reafirmar com São Paulo esta coisa formidável:” Eu sei em quem acreditei”. É isto a Ação Católica. Somente isto. Tudo isto.
    Designado pela Diocese de Aracaju, Costa Pinto torna-se orador oficial em nome do clero sergipano no discurso de boas vindas ao Bispo Dom Fernando Gomes, em sua chegada a Aracaju, onde assumiria a Diocese. Milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Olímpio Campos, para a Missa solene a céu aberto, de ação de graças pelo novo Bispo.
     Reconhecido por suas qualidades docentes e grande dedicação ao ensino, além de ser portador de uma didática excelente, recebe convite para ser  professor da Faculdade de Filosofia, lecionando a disciplina de antropologia. A Faculdade Católica de Filosofia, fundada em 20 de setembro de 1950, no Colégio Nossa Senhora de Lourdes teve sua aula inaugural ministrada em 11 de março de 1951 pelo padre Luciano José Cabral Duarte. O Dr. Costa Pinto compõe o seu primeiro Conselho Técnico Administrativo, ao lado de Gonçalo Rollemberg Leite, Felte Bezerra, José Barreto Fontes, padre Euvaldo Andrade e Manoel Ribeiro.
     Em seguida, com a inauguração da Faculdade de Serviço Social, em 27 de março de 1954, que nasce sob inspiração do Bispo Dom Fernando Gomes e o trabalho árduo de Albertina Brasil Santos para a sua  implantação, o Dr. Costa Pinto passa a integrar o corpo docente da instituição.
     Nos anos 50, Costa Pinto também participa ativamente do conselho editorial do jornal A Cruzada, ao lado do então Monsenhor Luciano José Cabral Duarte, Cabral Machado, Silvério Fontes, Antonio Garcia e José Amado Nascimento. A Cruzada foi um semanário de orientação católica que circulou em Sergipe durante boa parte do século XX. Criado em 1919 pelo primeiro bispo diocesano, D. José Thomaz Gomes da Silva. Com a JUC e a Faculdade de Filosofia compunha a tríade acadêmica e religiosa colocada como meta pelo bispo Dom Fernando. Em Sergipe, muitos leigos e padres despontaram para as letras através das páginas de A Cruzada. Entre os colaboradores mais assíduos do jornal , na época, aparecem Paulo Machado, Santos Mendonça, Garcia Moreno, Santos Souza, Goes Duarte, Garcia Rosa, Leyda Régis, Antonio Conde Dias, Passos Cabral, José Amado Nascimento, entre outros.
      Foi membro atuante do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe desde julho de 1950, quando também passa a atuar como médico no Instituto do Açúcar e do Álcool. Em sua integração com a sociedade integra o Lions Clube de Aracaju e funda, ao lado de combativos companheiros, o Iate Clube de Aracaju, do qual foi Comodoro. Torna-se sócio da Associação Atlética de Sergipe, da qual também foi presidente. Alargando os horizontes culturais participa da fundação da Aliança Francesa no Estado.
     Em janeiro de 1961, graças ao estoicismo e árduo combate de Antonio Garcia Filho, é fundada e instalada a Faculdade de Medicina de Sergipe e Costa Pinto, ao lado de Garcia, é uma dos mais entusiasmados pioneiros, tornando-se o primeiro professor da disciplina de urologia, disciplina esta que começaria a ser aplicada a partir de 1964.
     Atuando  mais decisivamente no Hospital Cirurgia, nas décadas de 50 e 60, foi diretor do Pronto Socorro desse nosocômio por longos nove anos. Passou a integrar o Centro de Estudos do HC desde a sua implantação, no inicio dos anos 50. Autor de diversos trabalhos científicos, publicou diversos trabalhos em revistas científicas, notadamente na Revista “Boletim do Centro de Estudos do Hospital de Cirurgia”, do qual foi editor. Entre as suas publicações, destacamos “Calculose e Carcinoma Vesical”, “Próstata Gigante”, “Carcinoma Prostático” e “Um Caso de Retenção Urinária”.
      Para o médico Marcelo Marinho Barreto, que foi o primeiro monitor da disciplina de urologia de nossa faculdade e acompanhou de perto o Dr. Costa Pinto, um dos seus mais destacados trabalhos publicados, pelo ineditismo, foi o denominado “Carcinoma Prostático com Esquistossomose dos Testículos”, que contou com a participação do anátomopatologista do Hospital de Cirurgia, o Dr. Konrad Schmitt. Nesse trabalho, os autores apresentam o primeiro caso da esquistossomose genital masculina no Hospital de Cirurgia, evidenciada casualmente em exame anatomopatológico dos elementos espermatogênicos de um paciente que sofrera orquidectomia sub-capsular bilateral, devido a carcinoma prostático.  Na verdade era um caso nunca relatado na literatura médica.
       Para Marcelo, Costa Pinto era uma figura admirável, um professor de uma didática ímpar, bem humorado, contador de casos e histórias pitorescas para os alunos, mas rigoroso e exigente com os seus alunos. Diz Marcelo: “Conheci o professor Costa Pinto quando ele operou o avô da minha esposa, o Dr. Lauro Hora. Criamos uma amizade muito forte a partir desta ocasião. Comecei então a acompanhá-lo no serviço de urologia tornando-me seu assistente a partir de 1971. Posteriormente, fui o primeiro aluno a realizar a prova para monitor da cadeira de urologia, sendo aprovado em primeiro lugar. Dr. Costa Pinto era dono de uma didática fabulosa e de uma experiência muito grande na vida profissional, tendo a facilidade de transmitir seus conhecimentos com simplicidade e elegância”.
     Desde estudante no Recife, Costa Pinto participa ativamente da vida política, sempre como um líder de oposição. Combate o Estado Novo ainda em Pernambuco. Em Sergipe, liga-se de imediato à UDN, à época um partido de oposição, atendendo convite de Leandro Maciel, que conhecera através de uma apresentação feita pelo senador Walter Franco, a quem entregara uma carta de recomendação enviada por um amigo de seu pai em Recife.
    Para o historiador e professor Jorge Carvalho do Nascimento, o médico Lucilo da Costa Pinto sempre foi um nome muito respeitado em Sergipe. Na constituinte de 1946 não conseguiu eleger-se, mas a condição de suplente lhe garantiu ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Sua atuação independente desagradou as principais lideranças partidárias, fazendo com que ele retornasse à condição de suplente. Nas eleições de 1962 para a prefeitura de Aracaju, recebe a indicação da UDN para concorrer, mas não logra êxito. Vence a disputa o Dr. Godofredo Diniz. Em campanha acirrada, com os dois lados em disputa intensa, o seu jingle de campanha, dizia:
"Costa Pinto, prefeito de Aracaju, Paulo Silva para ser vereador, Nairson deputado estadual, João Machado federal, a UDN já ganhou".    
   Na sua campanha, Costa Pinto destaca como prioridades para a cidade, a sua pavimentação, arborização, urbanização, construção de escolas, postos médicos, prontos-socorros e saneamento básico. E diz: "Hipoteco minha confiança no eleitorado. Prefeito, darei o melhor do meu talento e das minhas energias pelo bem estar do povo aracajuano", em texto contido no seu material da campanha.
    Aracaju não ganha o prefeito que precisava, mas continua a contar com o médico humanitário, que não desiste da luta política. Tinha disposição para trilhar os mais difíceis caminhos sem nenhuma hesitação. Como o pássaro, nas palavras do médico, professor e membro desta Academia, também um poeta de rara sensibilidade:
     A certeza do apoio invisível confere ao pássaro a incrível coragem de se arremessar contra o abismo.
     Permanece na União Democrática Nacional até a sua extinção, com o golpe de 1964 e participa ativamente da fundação do MDB com ficha de inscrição número nove. Como dissemos anteriormente, tinha uma vocação pelas siglas da oposição. Algumas lideranças políticas ligadas à antiga UDN assumiram posição pendular, oscilando entre os antigos correligionários e a possibilidade de assumir a postura oposicionista e partir para o enfrentamento da ditadura. Não foi o caso de Costa Pinto e de outros, como Umberto Mandarino, Eraldo Lemos, Edson Mendes de Oliveira. Como o pássaro ressaltado no poema de Garcia, eles assumiram o projeto liderado por José Carlos Teixeira.
     O MDB foi abrigo também para militantes de outras siglas partidárias, notadamente do PCB e  oriundos dos movimentos estudantis. Nesse diapasão, nomes como o de Jackson Barreto, José Augusto Gama, Benedito Figueiredo, Wellington Mangueira, entre outros, foram importantes para dar consistência ao programa do partido.
      Podemos dizer que Jackson Barreto e José Carlos Teixeira foram lideranças fortes e importantes no MDB, com objetivos convergentes, mas com estratégias distintas. Duas pessoas diferentes que deram vida e encarnaram o projeto do Movimento Democrático Brasileiro. Singulares.
      Em 1966, a oposição encontrou grande dificuldade para lançar um nome para o Senado. Ninguém aceitava a indicação. José Carlos Teixeira então convenceu o seu pai, o empresário Oviedo Teixeira, a aceitar a candidatura. Mesmo assim, não se encontrava um nome para suplente. O médico Lucilo da Costa Pinto teve o seu nome lançado, na última hora, depois que várias personalidades recusaram a indicação. A dificuldade foi enorme para compor a chapa. Segundo José Carlos Teixeira, todas as pessoas lembradas para a suplência ficavam muito honradas, mas declinavam. “Lembramos do nome de Lucilo Costa Pinto, médico, professor de prestígio. Mas ele estava viajando, estava no Rio de Janeiro e chegou a Aracaju, na véspera do encerramento do prazo de prorrogação. Fomos todos aguardá-lo na Rodoviária Luiz Garcia. Para surpresa geral, ele aceitou. Alívio!
A candidatura de Oviedo Teixeira foi uma necessidade que se impôs ao partido, uma vez que o nome natural para disputar a vaga de senador, o de José Carlos Teixeira, ficava impossibilitado uma vez que ele não contava ainda com a idade mínima de 35 anos, exigido pela Constituição.
     Na capital, a campanha foi coordenada e comandada por Costa Pinto enquanto Oviedo assumiu a coordenação da campanha no interior. O primeiro comício foi realizado em Propriá, organizado pelo médico Octavio Penalva, patrono da cadeira 30 deste sodalício, em 24 de setembro de 1966. Discursaram, além de Penalva, o candidato ao Senado Oviedo Teixeira, o suplente Costa Pinto, os candidatos a deputado federal José Carlos Teixeira e Ariosto Amado e mais alguns candidatos a deputado estadual. Sobre este comício, Costa Pinto, irreverente, lembrou um fato interessante ao jornalista Osmário Santos: “Neste comício, o povo estava de braços cruzados. O povo de lá é duro pra comício. Falaram onze oradores. Um amigo, que era do partido contrário, da Arena, disse-me: muitos discursos e o povo não bate palma. Costa, eu sei que você é um bom orador popular, mas aposto uma garrafa de uísque como você não arranca as palmas do povo de Propriá. E eu apostei. Saí rapidamente de lá e fui à casa onde estava hospedado, próximo ao palanque. Lá tinha na parede uma espada. Perguntei à filha do dono da casa de quem era a espada. Foi do meu avô que era da Guarda Nacional, disse ela. Peguei a espada e uma toalha e prometi trazê-los de volta. Quando subi no caminhão, que era o palanque. Oviedo me disse: Que armada está aprontando, Costa? O que é esse negócio enrolado na toalha? Eu, calado. Quando chegou a minha vez, pra encerrar o comício, o locutor Jaime Araújo passou o microfone. Pedi pra ele segurá-lo peguei a espada e apontei para o povo e gritei: eis o símbolo da revolução que nos tortura. Foi um delírio geral.”
     Nas eleições de 1970, o MDB voltou a ter grande dificuldade para compor chapa ao Senado e mais uma vez Oviedo Teixeira foi o candidato e somente em 1974 conseguiu eleger surpreendentemente Gilvan Rocha, numa eleição memorável onde o médico consegue derrotar de um só golpe dois grandes caciques da política sergipana, os ex-governadores Leandro Maciel e Arnaldo Rollemberg Garcez.
     Em 1976 o MDB realiza convenção municipal, numa sessão comandada pelo presidente do Diretório Municipal do partido, Lucilo da Costa Pinto. Ficam definidos 51 candidatos. Eleitos: Antonio Mesquita, Arnóbio Patrício de Melo, Francisco Leite Neto, Genelício Barreto, Gidenal Ferreira, João Alves da Silva, Jonas Amaral, José Batalha de Góes, Reinado Moura, Soares Pinto e Lucilo da Costa Pinto, sendo o terceiro candidato mais votado.
     O MDB, com a ampla maioria que formou, conseguiu eleger Costa Pinto presidente da Casa em fevereiro de 1977. Nesse período, o partido demonstrou grande maturidade política e sob a liderança de Costa Pinto, fez oposição dura, porém ética ao prefeito da capital e, apesar de sua numerosa base no parlamento, foi capaz por diversas oportunidades de aprovar projetos de interesse da cidade, oriundos do executivo.
    Em 27 de março de 1980, organizado em 42 diretórios nos municípios sergipanos, é instalado em Sergipe o PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro, com as presenças do deputado Ulisses Guimarães e do senador Teotônio Vilela, em solenidade que acontece na Assembleia Legislativa. Em jantar oferecido aos visitantes no Restaurante Adega do Antonio, faz uso da palavra o médico Lucilo da Costa Pinto.
    Durante a sua passagem pela passagem pela casa legislativa, Costa Pinto manteve-se fiel aos princípios da honestidade, simplicidade e justiça, valores próprios do seu caráter e de sua educação. Aos poucos o tempo vai se encarregando de afastá-lo da vida político-partidária. Ele permanece com suas atividades médicas no Hospital Cirurgia e no consultório particular agora localizado na Rua Geru, em casa alugada para esse fim.
    Em 1983, aos 70 anos, pela força da compulsória aposentadoria, afasta-se das atividades profissionais e permanece ministrando esporadicamente aulas na faculdade, já não operava e dedicava as suas horas de lazer nos cuidados com a sua criação de periquitos australianos, uma paixão adquirida para suprir o seu ócio criativo.
   Em 1988 sofre com a morte da querida esposa Célia de isquemia cerebral. Outro duro golpe vem com a morte do filho Marcos Túlio, em 18 de dezembro de 1994. Costa Pinto, fumante contumaz, começa a apresentar sinais de doença obstrutiva crônica e vem a falecer em 1º de fevereiro de 1995, em Aracaju/SE, com 81 anos, sendo sepultado no Cemitério Santa Isabel. Em 30 de junho de 2004, a família sofre a perda de Carlos Gilberto, segundo filho de Costa Pinto e Célia.
   Para seus filhos, Lucilo da Costa Pinto, “foi um grande médico, intelectual, político, cristão, homem do povo e acima de tudo um grande pai. Em sua trajetória de vida, deixou exemplos a serem seguidos. Seu legado nos enche de orgulho e muito nos honra ter vivido e convivido ao seu lado. Hoje temos certeza em afirmar que fomos agraciados e abençoados com sua presença entre nós. Obrigado, Costinha, por tudo”, esse o relato feito por seus filhos.
   Para mim, em particular, foi desafiador falar sobre uma pessoa que conheci por volta de 1976, quando fui seu aluno de urologia no curso de Medicina. Naquela oportunidade, pude perceber o fascínio que ele exercia sobre os estudantes. Mas pouco convivi com o querido professor. Por isso não sei dizer-lhes que forças me levaram a aceitar o desafio de buscar no passado a história do velho professor. Era uma força estranha que me impulsionava de forma incontrolável a procurar caminhos, portas e fontes. Por isso, não poderia deixar de agradecer aos filhos de Dr. Costa Pinto, em especial a Rosa, com quem tive a honra e o prazer de trabalhar no Projeto Rondon, ela na condição de diretoria executiva da instituição, na década de 70, pelas informações fundamentais. Aos historiadores Jorge Carvalho e Antonio Samarone, pelo apoio nos assuntos políticos, à Sra. Carmem Duarte, diretora do Instituto Dom  Luciano José Cabral Duarte, ao jornalista Osmário Santos, autor de Memórias de Políticos de Sergipe no século XX, ao médico urologista Marcelo Marinho Barreto e finalmente aos membros da Academia Sergipana de Medicina e em especial ao nosso presidente Fedro Portugal, pela escolha do meu nome para essa dignificante tarefa.
     Muitas coisas poderiam ser acrescentadas a respeito do nosso saudoso Lucilo da Costa Pinto, sobre a sua pessoa e as suas realizações. Mas foi o melhor que pude. Nos versos da poetisa paranaense Helena Kolody há uma bela imagem que pode ser aplicada à trajetória de vida do Dr. Lucilo da Costa Pinto.
      Deus dá a todos uma estrela, uns fazem da estrela um sol. Outros, nem conseguem vê-la.
Para encerrar, gostaria de homenageá-lo como também a sua família, com o poema de Ivan Petrovitch:
Feliz é o homem
que sabe trocar
a superficialidade
pela essência das coisas.
Na leveza do existir
não se deixa influenciar
pelas aparências.
Sabe que o valor do vôo
não é medido pela decolagem
velocidade
muito menos, pelo itinerário.
O valor do vôo

( Discurso pronunciado pelo acadêmico Lúcio Antonio Prado Dias, por ocasião da celebração do Centenário de Nascimento do Dr. Lucilo da Costa Pinto, patrono da cadeira 26 .da Academia Sergipana de Medicina, em sessão solene ocorrida em 25 de setembro de 2013, no auditório da Sociedade Médica de Sergipe )

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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