O Chile é uma ilha.

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Hoje não vou falar da CPI.

Está um saco, embora muitos não larguem a TV.

Irei falar do Chile.

O Chile é uma ilha.

Não é uma ilha no sentido geográfico primário: um monte de terra cercado de água por todos os lados.

Mas o Chile é uma ilha, isolado por todos os lados, o que é bom em termos geográficos em termos de defesa frente a seus vizinhos.

Enquanto ilha, o Chile ao norte se separa do Peru pelo Deserto do Atacama, uma das regiões mais secas e inóspitas do mundo.

No lado Leste e partindo do Peru está a longa Cordilheira dos Andes limite com a Bolívia de quem lhe retirou o acesso portuário ao Oceano Pacífico, e a Argentina, que a acompanha até o extremo Sul, em vizinhança do Cabo Horn, no estreito de Magalhães, porque foi por ali que o navegador Fernão de Magalhães realizou a primeira viagem de circum-navegação da Terra.

Em lonjura descrita acima, o Chile começa em Arica, no deserto do Atacama, se estendendo desse início Setentrional por 4500 km ao extremo Sul, Meridional, em Punta Arenas, quase no cabo Horn, onde o continente acaba e ali faz a curva brusca, em ângulo estreito, pontiagudo, misturando as águas do Pacífico com as do Atlântico Oceano, águas geladas e cheias de icebergs, focas, pinguins e leões marinhos, daí só chegando às terras Antárticas, onde possui também um território a explorar, obtido por concessão amigável das nações.

Se a Cordilheira dos Andes limita o extenso lado oriental da Bolívia à Argentina, o lado ocidental, constituído de infinitas ilhas, múltiplos fiordes e entrecortes litorâneos, é banhado pelo Oceano Pacífico, uma região portuária nem sempre tranquila, porquanto o Chile se apoia numa placa tectônica inquieta, sempre sujeita a repentes sísmicos e erupções vulcânicas.

O Chile, portanto, é uma ilha, em pouco e difícil acesso.

Se os limites geográficos impuseram ao Chile uma independência frente aos desejos territoriais dos vizinhos, sobretudo a Argentina, bem mais ambiciosa enquanto predomínio continental, por estar apertada entre o monte e o mar, o Chile alongou-se ocupando terras da Bolívia e do Peru, na assim chamada Guerra do Pacífico.

Essa guerra aconteceu porque aquele região inóspita do Deserto do Atacama se revelou sobremodo rica em Nitrogênio, Potássio e Fósforo, o famoso NPK, tríade de elementos que se fizeram notáveis na adubação dos solos.

Descobriu-se que essa riqueza era resultante do depósito de guano, como assim restou conhecido o adubo oriundo das fezes e excrementos de aves marinhas, casadouro ideal espalhado e espraiado no deserto de Atacama.

Por origem, aquele território desértico espanhol pertenceria ao Peru e à Bolívia, mas eram chilenos aqueles que exploravam o guano.

 

Como a Bolívia não aceitou vender o território aos chilenos, sobreveio uma guerra em que o Peru e a Bolívia saíram derrotados, cabendo à Bolívia o maior prejuízo, porque junto ao dano territorial, perdeu também o seu acesso portuário ao não tão pacífico, oceano.

A extensão e a estreiteza do Chile comparada ao Brasil. Em certas latitudes o Chile, entre o mar e a montanha, é mais estreito que o Estado de Sergipe.

 

Se a anexação dos territórios de Arica, Iquique e Antofagasta deixou o Chile para sempre, em maus olhares de Peruanos e Bolivianos, houve tempo em que os arroubos militares dos Chilenos e dos Argentinos se eriçaram por disputas no extremo Sul, coisa de generais enrubescidos e enraivecidos por ilhas no cabo Beagle, geladíssimo, quase tecendo força e indo em bravatas, à guerra.

 

 

Mas, eu não quero falar de guerras, nem de terras!

 

 

Eu quero falar de coisas mais ternas: de viagens, de lembranças e de leituras!

Inés de Suarez, mulher soldado, co-fundadora do Chile com Pedro de Valdivia.

 

Eu quero falar do Chile, de Santiago, sua bela cidade, fundada por Pedro de Valdívia e sua Bela Inês, Inês de Suárez, só para explicitá-la de outra Inês, bela também, e mais famosa, Inês de Castro, o amor galego de Pedro, o Primeiro, de Portugal, e não do Brasil, famoso, pelo Grito do Ipiranga e por ser namorador e femeeiro, o que não lhe cabia bem, mas daquele que por amar demais, restou Justiceiro e Cruel, porque mandou desenterrar o cadáver de sua Inês, e fê-lo beijado e reverenciado por toda corte, sendo caçados os seus assassinos, lhes retirando o coração vivo, palpitando, erguendo para ela um  mausoléu destacado no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal, ao qual visito toda vez em que por ali apareço.

 

Inês de Castro, a amada mulher de Pedro I, o Cruel, o Justiceiro, Rei Borgonha de Portugal e Algarves

Já essa Inés, de Suárez, estou a citar para dizer de  um livro, perdido nas minhas estantes, “Inês del Alma Mia” de Isabel Allende, porque o Chile me lembra Valparaiso, Viña del Mar, cidades marinhas e lacustre como Puerto Varas e Puerto Montt, paisagens do vulcão Osorno, dos Lagos Lianquihue, Petrohue, Nahuel, águas verde-esmeralda em demanda a Bariloche ou Vila La Angostura, já na Argentina, só para falar de uma viagem magnifica pelos lagos andinos, que fiz e repeti, porque gostei.

 

Mas o assunto de agora, não é memória, não é história, embora bem caiba dizer que Inês de Suárez, nascida em 1507 na Espanha, veio ao Chile à procura de seu marido, Juan de Málaga, que seguira com Francisco Pizarro na conquista de Cuzco aos Incas.

Inês, que ao chegar ao novo mundo vê-se viúva, e dona de terras na Cuzco conquistada, proprietária também de uma “incomienda” de indígenas.

Inês de Suarez, mulher soldado, degolava em próprias mãos seu inimigos.

É quando conhece Pedro de Valdívia, “com quem manteve uma escandalosa relação sentimental, por dez anos”, até que depois, contrai um segundo casamento, desta vez com Rodrigo de Quiroga, “sendo-lhe uma devota esposa e piedosa mulher”.

 

Pois bem! Como apoio de Pedro de Valdívia, Inês se revelou uma guerreira, chegando a executar os seus inimigos com as próprias mãos, sendo co-fundadora de Nueva Extremadura, cidade onde está hoje Santiago.

 

Vem, portanto de Nueva Extremadura, a Santiago de agora, a notícia que o Chile está dando posse a uma inusitada Constituinte, composta de 155 membros: 78 homens e 77 mulheres, uma maravilha!

Leio louvores da imprensa internacional, que a Assembleia Nacional Constituinte do Chile, reunida no domingo, 4 de julho, elegeu Elisa Loncon Antileo, 58 anos, por 98 votos entre 155, presidente da convenção constituinte que redigirá a nova constituição chilena para substituir à vigente atualmente, redigida em 1980, durante a ditadura de Augusto Pinochet.

Elisa Loncon é  de origem Mapuche, um grupo étnico indígena que há muito tempo resiste aos colonizadores espanhóis.

Além do destaque anterior, 78 homens e 77 mulheres, paritários, os assentos foram reservados para representantes dos povos indígenas e seus membros, e cerca de 40%, pertencem a agremiações independentes, uma evidência de que os chilenos rejeitaram nas últimas eleições os partidos tradicionais, tanto à direita, quanto à esquerda, que têm governado o país, desde o fim do regime de Pinochet, sem alterar fundamentalmente o funcionamento de um Estado diretamente inspirado nas teorias econômicas neoliberais da Escola de Economia de Chicago.

A convocação dessa convenção constituinte veio como resposta aos protestos iniciados no final de 2029, deflagrados por insatisfação crescente a partir de um aumento do bilhete de metrô.

Estive no Chile em duas oportunidades.

Na primeira, julho de 2006, reinava ordem e o Chile revelava um progresso de uma nação que parecia estar em vias de um futuro alvissareiro.

Anos depois, não lembro a data, a visita não me pareceu igual.

Santiago estava agitada com rebeliões estudantis, as chamadas “tomas”, em que os jovens invadiam seus colégios, reivindicando do Estado a criação de Faculdades Públicas.

Soube então que não havia no Chile Universidades públicas, e o ensino superior estatal era um sonho almejado pela juventude, que com “tomas”, ruidosas e danosas, provocava a polícia, assustando turistas e o cidadão comum.

Nesse tempo, salvo engano, governava o país Michele Bachelet, militante de esquerda em discurso oposicionista à Ditadura de Pinochet.

Augusto Pinochet governou o país com mão ferro de 1973 a 1990, mediante um Golpe Militar, em que foi morto no Palácio La Moneda, o Presidente democraticamente eleito, Salvador Allende.

Com Pinochet, o Chile conheceu destaque econômico na América do Sul, seguindo orientação dos Chicago Boys, economistas da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, casta a qual pertence nosso atual Ministro da Economia, Paulo Guedes.

O Chile era tido como um exemplo de organização econômica, com sustentáveis níveis de crescimento, respeito orçamentário e baixo nível de inflação.

Pinochet, por excesso de autoritarismo, restou execrado mundo afora, tendo sido aprisionado numa visita à Inglaterra, por determinação de um juiz espanhol, que o acusou de “crime contra a humanidade”, essa coisa que vai e vem, por conveniência arbitral.

Nesse tempo, o General atrabiliário já era um farrapo humano, indefeso e em fim de vida, um doente que viajara ao velho mundo em tratamento de saúde, e em Londres tivera a sua prisão decretada por um juiz, não dali, mas de Madri, mais por vingança política, que propriamente por um julgamento ajuizado em prévia acusação.

Londres depois o libertou, valendo também os esforços de Margareth Thatcher, de quem o General era um velho amigo, e aliado, no Conflito das Falklands-Malvinas.

Tempos depois, Pinochet foi processado no Chile, mas não angariou condenação, considerado senil e incapacitado mentalmente, falecendo em 2006 aos noventa e um anos.

A vida, porém, é assim, e com ela as ditaduras vão e vem.

E depois ninguém sabe porque elas vão e voltam.

Se vão e voltam, é porque o homem gosta de perquirir tais descaminhos, achando que o mal de ontem não pode ressurgir.

Do Chile de ontem, em agitação social e igualitarista pregada por Salvador Allende e cantada em versos por Pablo Neruda, sobrou o bombardeio do Palácio La Moneda.

Indiferente às agitações humana, os móveis do La Moneda agasalharam vários Presidentes, todos eleitos em pleitos disputados e em eleições consideradas livres e justas.

O Chile, por seu noticiário recente e pelas “Tomas” assistidas por mim, estão a revelar que o povo estava insatisfeito com o fastígio econômico que não era do seu agrado.

Eis então a Constituição de Pinochet abominada, necessitando imediata substituição, porque tudo restará benéfico, apagando da memória o entulho autoritário.

E nesse tom libertário, contemplo-me nos idos de 1963, eu estudante do Atheneu, um tolo, seguindo outros mais tolos, debutando numa greve estudantil, quase uma espécie de “Tomas” chilenas, querendo fechar os Colégios Particulares daquela época, contra o aumento das mensalidades escolares: isso em 1963, em prévias anárquicas do que não queríamos, mas que depois vingou.

No noticiário de agora, o Chile está festivo com a posse da convenção constituinte na qual 40% dos representantes não pertencem a nenhum partido de esquerda ou de direita que foram esmagados pelas listas independente.

Não importa, diz o noticiado,  que as primeiras reuniões da convenção tenham sido agitadas.

No dia da eleição de Elisa Loncon como presidente, a reunião foi interrompida por três horas para protestar contra a repressão policial de uma manifestação que acontecia na mesma hora no centro de Santiago.

Foi preciso até que alguns constituintes deixassem a assembleia para exigir a retirada das forças especiais da polícia das ruas da capital chilena.

Como os constituintes poderiam discutir calmamente sabendo que  havia uma repressão acontecendo?

Leio na imprensa europeia que a Presidente Elisa Loncon deseja: “Uma constituição multinacional que garanta a participação das nações originárias com os seus direitos e que pressuponha a preexistência desses direitos”.

Nesse contexto, “a nação Mapuche também tem direito à autonomia e autodeterminação, à terra e ao território, como todas as nações do mundo”.

Em seu discurso inaugural, Elisa Loncon agradeceu “as diferentes coligações” que permitiram eleger uma “pessoa Mapuche, uma mulher para mudar a história do país”.  Também dirigiu um agradecimento à “diversidade sexual, às mulheres que marcharam contra o sistema patriarcal de dominação” permitindo uma nova “forma de ser plural, democrático e participativo”.

Disse também que “esta nova assembleia transformará o Chile em um estado plurinacional e intercultural.  Um Chile que não violará os direitos das mulheres e que cuidará da mãe terra ”.

Na notícia que me chegou, não vi uma prece exaltada ou pronunciada em início de sessão, valendo mais significativo o minuto de silêncio respeitado em memória “das vítimas da violência policial, da repressão aos indígenas, da ditadura de Pinochet e dos feminicídios”.

Floclore do Chile

A Presidente, Elisa Loncon, nasceu em 1963 numa modesta cidade no sul do Chile.

Ela tem 6 irmãos, sua mãe participou de experiências de autogestão na décadas de 1970 e sua família lutara contra a ditadura de Pinochet.

Ela, desde a adolescência, foi uma ativa militante dos movimentos estudantis e Mapuches.

É uma linguista reconhecida, uma professora de inglês e Mapuche.

Ela obteve um Mestrado em Linguísticas pela Universidade Autônoma Metropolitana do México, um Doutorado em Ciências Humanas pela Universidade de Leiden, na Holanda, e um Doutorado em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de Santiago, Chile e foi escolhida para um dos 17 assentos reservados aos representantes dos 10 povos originários e assim reconhecidos do Chile

Assim como os Mapuches, também fazem parte da Constituinte os Diaguitas, os Kollas, os Rapanuis, e outras comunidades indígenas reconhecidas, um grupo excluído da Constituição em vigor.

Elisa Loncon vem das camadas populares e é a primeira vez que uma mulher Mapuche assume um posto de tamanha importância na política chilena.

Entre suas metas, pretende defender a transmissão da cultura indígena por meio da educação reabilitando as línguas indígenas, além de continuar seu trabalho em defesa dos direitos das mulheres indígenas.

O seu discurso de posse teve forte conotação feminista e anticolonial, destacando a ecologia enquanto tema que possui uma ressonância particular, sobretudo entre os povos indígenas, por defesa da terra e estendendo a água como bem comum.

Nesse contexto, o Chile é o único país cuja Constituição define a água como um bem privado.  Sendo aí um tema muito sensível, porque é preciso achar um consenso para tornar o acesso à água um direito público

Em outros pontos, Elisa Loncon pretende discutir o “Estado Plurinacional”, tema considerado muito “divisionista” com bastante resistência, afinal revolve demandas das comunidades indígenas, que suscitam reparações históricas, algo complexo para alguns setores, porque afetam aos direitos de propriedade, sonhos de recuperação de terras.

Inclusive há quem veja nesse discurso de “reconstruir a nação” um desejo de vingança contra a colonização espanhola.

Em verdade há demandas que se julgavam superadas, mas que ressurgem nos diversos países como Bolívia, Equador, inclusive no Canadá, permitindo uma discussão que valorize a diversidade étnica, pensada a partir de um multiculturalismo que compreenda uma integração satisfatória para todos.

Como inserir numa Constituição o direito à autodeterminação, a autonomia, e o autogoverno, num estado unitário? Eis a questão!

Quer-se no Chile um modelo diferente do atual.

E eu pensava, pelo que vi em visitas, que era um país notável, vencendo a natureza, o gelo e as pedreiras

E quanto aos empedernidos partidários da direita,  em  minoria na Constituinte, serão convencidos no voto?

Eu desconfio de uma prática, em que seja possível quadrar a roda, mudar o verniz que rebrilha a casca da barata, e suaviza o zumbido azoado do besouro?

Eis então o desafio: fazer o carro andar retirando-lhe os pneus, os mancais e a gasolina poluente, por não lhes ser em bom agrado.

Das minhas viagens ao Chile, lembro do Côngrio, saborosíssimo, das paisagens do Vale Nevado, do Cerro San Cristóbal, das vinhas bem cuidadas de Concha e Toro, dos cordeiros patagônicos degustados em Peulla, servidos por um povo tão impensado, quanto empezado, por infeliz.

Infelicidades à parte, para se brindar um bom Pisco, um cálice de Alma Viva, raspar o cobre das montanhas e ralar as borras fecais do guano é preciso disciplina, minha gente, quando a ordem se faz desordem, o cosmético pode restar assimétrico, sem lápis lazuli, nem edulcoro de buquês a infelicidade aí vem.

Ao Cassillero del diablo, vingou mais que Dom Malcher, o Marquês de Casa Concha Y Toro, a concha ousada de Dona Inês, agora aviltada, porque se fez bravia e guerreira nessas terras tão apertadas, quanto espremidas, entre o mar e a secura, o gelado e as cordilheiras.

E agora,… Sei lá!  Fazendo besteiras!?

 

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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