O Crack e suas metáforas

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“É a entrada de um mercado de pulgas. Não se paga ingresso. É grátis. Gente mal-ajambrada. Vulpinos, brincalhões. Por que entar? O que você espera ver? Estou vendo. Estou constatando o que há no mundo. O que sobrou. O que foi descartado. O que não se quer mais. O que teve de ser sacrificado. O que alguém pensou que poderia interessar a outro alguém. Mas é lixo. Se existe algo aqui ou ali, já foi peneirado. Mas lá pode haver algo valioso. Não exatamente valioso. Mas algo que eu que eu poderia querer. Querer resgatar. Algo que me fale. Que fale aos meus anseios. Que fale com alguém, fale de algo. Ah…”Susan Sontag. O Amante do Vulcão.

Quando Susan Sontag lançou em 1989, no Brasil, “A Aids e suas metáforas’, julgávamos que a doença que acabara de invadir o mundo ia dizimar a população e aí toda uma fobia ligada a sexo, religião, morte. De lá para cá, e lá se vão mais de 20 anos,  a epidemia que enche agora a América Latina de vergonha e medo chama-se crack. Ao vir pelo mercado Thales Ferraz, no centro de Aracaju, no dia em que a presidente Dilma era recebida  pelo Governador Déda, num famigerado encontro na Barra dos Coqueiros, helicópteros cruzavam os céus, batedores fechavam o trânsito e  eu parado no sinal olhando o rio Sergipe. Ao mesmo tempo em que a parafernália da Madona da ditadura militar emoldurava o quadro de segurança ostensiva, três garotos cheiravam crack abaixo da balaustrada da rua da Frente. A cena, um filme de Visconti, mas podia ser facilmente filmada pelos irmãos Coen “Onde os fracos não têm vez”. Ali, parado, absorto, vendo aquela sombra-morta da presidente avançar rumo ao aeroporto deixando o governador e os seus colegas governadores no Hotel, vislumbrei do outro lado a lata de coca-cola na mão de um dos  garotos, enquanto um, já sem olhar nenhum, mordia a própria língua e enfiava o dedo no nariz com profunda violência. Permaneci ali 10 minutos vendo o teatro, e segui depois que o guarda disse: madame Lula já foi. Ri para o guarda(adoro tacadas inteligentes!) e não vi mais os garotos fumando crack que a esta hora já tinham adentrado no manguezal ao lado.  No mesmo dia, fui surpreendido, surpreendido não (nada me causa susto), por uma matéria veiculada na Tv local, dando conta que um radialista amigo havia sido preso porque empurrara a mãe querendo uma pedra de crack. Pedras à parte, monstruosidades que a TV coloca no ar, sem ouvir o outro lado, fui até a delegacia onde depois de uma fiança de mais de hum mil reais, pago pelas irmãs do radialista, pude levá-lo até sua  casa. No caminho fui quase que seqüestrado, porque o mesmo queria dar um teco numa pedra. Assustado pela primeira vez, já que nada me assusta, disse: “vá, fume que eu quero ver o que é isso”. Numa cena dantesca, o sujeito colocou a cinza de cigarro em cima da latinha, meiou a pedra que já virara quatro pedaços em sua mão  e pronto: teco, teco, teco. Foi se acalmando, quase que dormindo no gozo da droga e admiti: tinha que interná-lo. Levando-o à casa da irmã, ele não ficou na clínica 15 dias e de lá pra cá nunca mais o vi. A grande lição, ou a pequena lição, diante de nossas mazelas pessoais e humanas, tradicionalmente vistas como condenar a tudo aquilo que não se conhece,  ao voltar para casa perplexo, diante de uma droga tão chula e tão nociva, pronta  para liquidar o favelão-Brasil,comecei a lembrar do músico da banda Reação de Aracaju, que morreu com 12 facadas, o André, porque foi acordar o traficante depois da meia noite. Depois disso, fui enumerando casos de roubo, violência familiar e até prostituição infantil, para obter a droga.

Paralelamente à Aids e suas metáforas, de Susan Sontag, o crack é a pocilga da droga brasileira, embora, hoje, a mesma já não distingue classes operárias e populares de jovens abastados e intelectualizados. O crack é uma epidemia não mais silenciosa,é  barulhenta e mortal, que conduz o viciado para o abismo, aquilo lá de dentro do outro, que nunca conseguimos chegar. O mais aviltante é que a polícia, aparelho do estado com status quo de ajuda social de mentira, sabe os pontos de venda, é vendido crack a céu aberto, e  operacionaliza hoje uma ação e amanhã outros pontos já estão espalhados no mesmo local. Consequentemente, negros e pobres e bastardos de toda sorte, são os que mais sofrem com esta bomba- relógio, serial killer que tem dizimado famílias inteiras, como aquelas crianças dos semáforos querendo fazer sexo oral por uma nota de dez reais.

Não há como não vê no olhar sem horizonte de um viciado, um caminho menos certo que a morte ou mesmo a própria auto-punição, amordaçamento e revolta por estar num mundo de hipócritas governantes, com políticas públicas ineficazes, a quem não foi dado oportunidades iguais nem de um salário mínimo. Ricos que fumam, fumariam qualquer outra coisa, porque gostam do “barato”. O crack e suas metáforas, vai além daquilo que chamamos morte súbita de nossos próprios créditos de princípios. Jogar pessoas na lixeira, subestimar a vítima e oferecê-la uma clínica sem dar nada em troca, assim que ela sair de lá, nos remete a uma prisão de almas, cárcere de nossos próprios egoísmos – mito de sísifo: vamos nos jogar da montanha abaixo com a pedra na cabeça.

O discurso midiático, quase todo ele, insuflado por culpados e desajustados: matou a avó, vendeu a filha, trocou o celular por uma pedra, todo ele é nocivo e ainda que o repórter deseje sempre o pior no ‘off’, a história acaba por chegar também à sua casa. O que nos deixa apáticos é o crack chegando à mesa das crianças como café da manhã, bolacha de goma ,enquanto se discute insumos do que deve se servir nas cantinas dos colégios. Pauta para o jornal: meninos fumam crack, água para elefantes. Os irmãos Coen talvez estejam certos: no mundo não há lugar para os fracos.

 

*Araripe Coutinho é colunista do portal Infonet. Autor de 12 livros.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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