O crime mais rumoroso de Aracaju

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O Brasil é um dos países mais violentos e Sergipe não escapa da epidemia de homicídios que aterroriza a todos. A outrora pacata Aracaju é hoje até citada como uma das cidades mais violentas do mundo, o que é contestado pelas autoridades.

Mas no passado aconteceram crimes que marcaram a história da cidade. O caso mais famoso foi o assassinato do médico e político Carlos Firpo, que ficou conhecido como o Crime da Rua Campos. Já há mais de 50 anos, no dia 25 de maio de 1958, o médico foi morto a facada enquanto dormia, no quarto de sua casa. O crime jamais foi inteiramente esclarecido.

“O impacto que provocou na sociedade foi superestimado sensacionalmente pela imprensa escrita e falada em proporções jamais vistas em Sergipe”, recorda o historiador Ibarê Dantas (“Os Partidos Políticos em Sergipe: 1889-1964”).

“Embora hoje se acredite que o homicídio foi motivado por razões passionais, as explorações desenvolvidas em torno do caso em pleno ano eleitoral foram de tal ordem que nunca ficou inteiramente esclarecido, permanecendo como um exemplo daqueles tempos tumultuados do primeiro governo udenista” de Leandro Maynard Maciel.

Vinculado à UDN, diretor do Hospital Santa Isabel, Carlos Firpo era apontado como provável companheiro de chapa de Heribaldo Dantas Vieira, que pleiteava candidatar-se ao governo do Estado. Seu desejo de candidatar-se contrariava interesses do seu partido.

Insinuou-se na época que o também prestigioso médico e então vice-governador José Machado de Souza teria relação com o assassinato, informação que foi prontamente rechaçada pelas demais autoridades estaduais, que chagaram a fazer uma manifestação de solidariedade e desagravo na porta de sua casa, na rua Pacatuba. Dr. Machado era amigo de Carlos Firpo.

Pires Wynne (“História de Sergipe: 1930-1972”) cita o caso de forma parcial, com o intuito de fazer a defesa do vice-governador, e transcreve um capítulo do livro Sergipe por um Óculo, do general José Lopes Bragança, que tampouco é imparcial e tenta tão-somente provar a inocência da viúva, Milena, e do então coronel da Aeronáutica Afonso Ferreira Lima.

Ela é filha do imigrante italiano Nicola Mandarino, sobre quem, pouco mais de uma década antes do crime, havia se abatido outra desgraça em Aracaju, quando o acusaram — injustamente, pelo que se sabe — de colaborar com os alemães que bombardearam navios na costa de Sergipe. Teve a casa depredada e quase foi linchado.

“No vandalismo, que então se praticou, todo o enxoval de Milena foi perdido. Para quem fosse supersticioso, isso seria considerado mau augúrio para o casamento”, escreveu o general Bragança.

O baiano Afonsinho, assim carinhosamente conhecido, era amigo e frequentador da casa dos Firpo. Ele foi do Grupo de Aviação de Caça, era boa pinta e brilhante profissionalmente. Chegou a ser um dos oficiais aviadores da Presidência da República, no governo João Goulart. Foi caçado pelo Ato Institucional número 1, após o 31 de março de 1964, sendo transferido compulsoriamente para a reserva, já como brigadeiro. É falecido.

Na noite do crime, a vítima estava só no seu quarto. Dona Milena dormia com as duas filhas, Julieta e Maria da Graça, pois uma delas estaria doente. O sogro Nicola e a doméstica Gilena também estavam na casa. O fio do telefone havia sido cortado criminosamente. Após as investigações coordenadas pelo próprio Leandro Maciel, a polícia mandou prender dois indivíduos que tinham sido indiscretos em suas conversas perante um motorista de praça que os transportava para a cidade de Paulo Afonso, terra natal de Afonsinho.

Um dos detidos, o magarefe José Euclides Timóteo de Lima, que na noite do crime teria ficado de atalaia na esquina da rua Campos com Dom José Thomás, foi espancado até a morte num terreno baldio da Jabutiana, após finalmente ter incriminado Afonsinho.

Foi torturado pelos policiais de vulgo Alemão, Zé Rosendo e Carniceiro, sob a “direção pessoal do secretário do Interior e Justiça, Dr. Heribaldo Dantas Vieira, atual senador por Sergipe, com a presença do atual deputado federal João de Seixas Dória, do secretário de Segurança Dr. Antônio Machado e do Dr. Humberto Napolioni Mandarino, cunhado do Dr. Firpo”, segundo relatou o general Bragança, no seu livro editado em Belo Horizonte poucos anos depois do crime.

“Apesar de terem conseguido essa confissão feita no estertor da morte, foi pedida a prisão preventiva para todos os que ocupavam a residência do Carlos Firpo no dia do seu assassinato, exceto suas filhas menores”.

Dona Milena passou dois anos no reformatório penal, após fazer uma confissão que também teria sido forjada. Ela teria confessado um suposto romance com o coronel aviador. Afirmando depois que não disse o que constava no depoimento, foi absolvida em juízo. Sua assinatura no depoimento a Heribaldo Vieira, inclusive, teria sido falsificada.

O clamor que se criou contra ela também provocou piedade. O poeta Antônio Garcia Filho compôs uma música em sua homenagem, “Injustiçada”, que foi gravada por Alcides Gerardi.

O outro preso em Paulo Afonso, José Pereira dos Santos, o Pereirinha, acabou sendo condenado a 20 anos de reclusão como autor material do crime. Ele teria esfaqueado o médico Carlos Firpo. Mas o verdadeiro mandante, que supostamente teria sido Afonsinho, até hoje permanece sob mistério. Suspeita-se que um cunhado dele teria contratado os assassinos.

Quase 51 anos depois o crime permanece um mistério.

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