O empréstimo que incomoda.

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Não se fala em outra coisa. O governo de Sergipe quer tomar dinheiro emprestado e a Assembleia Legislativa reluta em conceder-lhe o aval. Tudo igual aos governos a partir da envilecida Nova República, desde as agonias terminais do PDS, passando pelos Liberais modernosos, os Tucanos verbosos e agora com os Petistas de saudosa desmemória, não tão raivosos como no antanho de barbaria, hoje em falta de barba, pé-de-atleta e hidrofobia, por renovada pose, com finesse e perfumaria.

Desfigurado assim, o governo do PT é igual a todos os que o antecederam, sem exceção, nos métodos de aliciamento, de compadrio, de negociações palacianas, de perseguições sempre negadas, em que o de cima nunca cospe quem lhe fica abaixo, sem autoritarismo, raiva ou ódio.

Tanto é verdade que na eleição de 2002 em que João Alves foi eleito Governador do Estado no 2º Turno a bancada de Deputados Estaduais ficou assim fragmentada: PMDB – 3, PFL – 3, PPS -3, PDT – 3, PMN -3, PL – 2, PSDB 2, PSC – 2, PT – 1, PPB – 1 e PSB – 1, ditada por coligações díspares; uma de apoio ao candidato vitorioso, João Alves, outra ao seu maior adversário, o Senador Eduardo Dutra do PT e a terceira ligada à candidatura do Dr. Francisco Rollemberg, apoiado pelo Governador Albano Franco do governista PSDB. Naquele quatriênio, o governo não elegera a maioria, no entanto aprovou tudo o que queria.

Já na eleição de 2006, em que Marcelo Deda venceu João Alves numa polarização definida em 1º Turno, a composição do Legislativo Estadual se alinhou em duas coligações. Aquela de seu apoio, traduzida pela reunião do PT/PTB/PMDB/PL/PSB e PC do B, elegeu a bancada minoritária de 9 Deputados Estaduais, enquanto a bancada Alvista, ditada pela aliança PP/PSC/PFL e PSDB fez a maioria, 12 Deputados, que deveria constituir, em tese, uma oposição ferrenha ao novo governo, aquele de brilhoso discurso de mudanças.

Repetindo os velhos métodos o brilho nacarou rápido e o novo Governo, sem reclames, continuou a distribuir cargos e benesses, de molde a negociar apoio em maioria e aprovar mais do que queria.

Na eleição de 2010, o discurso mudancista foi bisado. Marcelo Deda venceu de novo no 1º Turno, João Alves foi o perdedor, mas a Câmara Estadual restou uma salada de partidos, todos governistas em quase unanimidade, PT – 4, PSC – 4, PMDB – 2, PDT – 2, PSL – 2, PSB – 2, PSDB – 1, PT do B – 1, PTC – 1, PV – 1, PP – 1 e o DEM com 3 Deputados, em distribuição tão randômica quão tragicômica, em anisotropia menos louca que treslouca, sempre a conceder a aprovação governista em folgada maioria.

Acontece que houve uma cisão e o Governador foi peitado por sua bancada. A explicação foi uma luta pela Presidência da Assembleia e a disputa por uma cadeira na Corte de Contas, que, em tese, deveria ser preenchida no mais alto mérito e honorabilidade, aferidos com uma prova de português, outra de aritmética, com conta, composição e ditado; no mínimo!

Como tal mínimo só é exigível em ingresso nas castas menores do serviço público, de serventuários e garis, a cisão aconteceu sem que o sonho rimasse como o medonho, e o governo pareceu acabar antes do tempo, sem imposição da matemática ou da ortografia.

O Governo das mudanças perdera a chance de ter sido diferente. Lamentavelmente norteou-se pela “governabilidade”, este vocábulo terrível que prescinde da verticalidade e da impessoalidade republicanas, e restou igual a todos os que lhe antecederam.

Ah, mas esse governo não roubou, não perseguiu, não matou! E que governo assim se comporta, se as denúncias sempre se fazem verbosas e vazias, e os processos odiosos por razias?

Por acaso não é assim, por revanchismo e razia, em pose de vítima de perseguição covarde, que os réus do chamado “mensalão” se intitulam, negando um desfalque já devidamente apurado e quase transitado em julgado, enquanto camarilha ou quadrilha que se apoderou da República e seu erário?

“Não, todos os réus do mensalão são inocentes. Até o dinheiro na cueca tinha que se esconder assim para promover o caixa dois da ampla revolução social que este país carece”.

Outros dirão ainda: “Rapinar um galinheiro só é feio quando não se está do lado da raposa”, afinal já dizia o Barão de Itararé: “bom negócio é aquela negociata à qual não fomos convidados”.

E mais: esta “gente que partiu num rabo de foguete” inspirando musicistas e poetas jamais subtrairia em “tenebrosas transações” a nossa pátria mãe gentil, sempre muito sonolenta e nunca desperta em tardia distração.

Mas, se alguns governos não roubam, nem corrompem, o rotineiro é o esquartejamento da máquina pública, onde os cargos são distribuídos a apadrinhados incompetentes, excesso de cargos em comissão desimportantes e inúteis, farta orgia de gastos, em premiação de preguiça e lauta remuneração de ociosidade mediante contracheque via email.

E haja empréstimos para fechar a conta a fundo perdido. Ou não está também assim o Governo das mudanças?

Ah! Isso é tolice. O ônus da missão do estado é alimentar tais parasitas também, é sustentar essa canalha em recidiva.

Neste particular, não há diferença entre a recidiva liberal verde-azulina, dos charmosos sociais democratas amarelinhos, rosáceos socialistas, dos vermelhos barbudinhos, afinal em perspectiva mudancista, vira-se o casaco¸ renova-se o aplauso e reafirma-se a má e própria serventia, contanto que não falte a esta canalha, o seu lugar no caçuá escanchado sobre a mula estatal, sobrepesando-lhe a cangalha com o impróprio salário, fruto da sinecura segura, e de sua imprópria mordomia.

Ora, pela imobilidade e vitaliciedade com que desfruta o seu mordomado, essa gente parece com os móveis palacianos; intocáveis, imutáveis, insubstituíveis e inerciais. São seres indiferentes ao aroma, cheiro e gosto das flatulências lançadas nos paços e nos hiperespaços palacianos, de quem adquirem o bioma e a conspicuidade.

Mas, se o assunto mais importante não resvala pela austeridade de custos e métodos, o amplo opinar jornalístico assinala uma grande ameaça ao futuro de Sergipe.

Não! Não é um terremoto, um tsunami, um cataclismo ou furacão, que Deus e as placas tectônicas assim nos protegem!

O perigo não vem de turbulências sísmicas, mas das aerofagias cismáticas.

É coisa de crença e malquerença, em muitas denúncias de heresia, com direito a acusações de lesa-terra, por carência de amor telúrico, só por causa de um empréstimo que o Governo deseja, e os Deputados Estaduais lhe postergam o aval.

E o estuarino opinar editorial só falta erigir fogaréus e regurgitar a granel: “Sergipe! Ame-o ou deixe-o!” Em delírios de pogroms, como a querer incinerar judeus em trapo de aleluia.

E a discussão que deveria ser séria, com a necessária apreciação do endividamento estatal, passa por coisa grupal, do gosto ou do desgosto paroquial.

É quando os governos se igualam e não há ideologias que os separem. Nenhum deseja ter responsabilidade de gastos, ser contido ao próprio orçamento, restringir-se às próprias receitas. Se todos assim bem pudessem, mandariam até pras cucuias a “funesta e indigesta” Lei da Responsabilidade Fiscal.

Não é bom alienar o futuro para a orgia do agora, orgasma-se aquele gestor que prefere  endividar a ter suas contas ajustadas, legando débitos em pior exemplo a perder de vista?

Eis então um empréstimo que incomoda. Sobretudo porque será aprovado; como sempre e com as negociações de sempre! E viva o Sergipe das mudanças!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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