O entusiasmo de viver

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Vida é a minha gatinha siamesa, assim chamada pelo fato de mesmo sendo pequena, ser a mais curiosa e valente dos meus quatro gatos.  Tem um miar insistente e fino, que se faz notar sobretuto quando nos quer dizer que tem fome. Gosta de conquistar, passo a  passo o seu território, mesmo que isto implique pequenas disputas com os restantes felinos da casa.

Uma vez sua curiosidade lhe pregou uma peça. Tomada por seu espírito desbravador, pulou a janela do quarto e desceu por uma árvore que tinhamos à frente da casa. Ficou sumida por uma longa e interminável semana. A tinhamos dado como perdida, quando foi resgatada por sua irmã que escutou seu miado e foi nos alertar. 

A inteligência e sabedoria destes animais podem nos espantar algumas vezes. Voltou magra, tímida e resignada. Mas, logo retomou a sua forma de antes, pequenina e elétrica, como se nada tivesse acontecido. O espírito de sobrevivência e capacidade de adaptação destes seres me causa inveja.

Acredito que a visão negativa dos gatos tenha a sua origem em preconceitos ancestrais, cujas raízes mergulham nas supertições medievais e nos mitos dos gatos associados à práticas de bruxarias. Não sei, mas a nossa “Vida” é mansa, meiga e muito sociável.

Às vezes penso: o mundo não é como gostaríamos que fosse. Mas, como se sabe, cada um o entende e o sente a sua maneira. E nós até podemos não saber para onde vamos, o que queremos e por que estamos, mas estamos em busca sempre.  Eu tenho muito claramente quais são as minhas preferências e gostos , conheço cada um dos meus defeitos e limites. Vivo em uma casa ampla para caber toda a minha individualidade, meus silêncios e minhas manias.

Assim como os meus gatos , preciso do meu espaço. Nunca achei o silêncio assutador. E talvez o necessite muito mais do que a maioria das pessoas que conheço. Adoro a minha companhia. E a solitude me revigora.

Na madrugada que escrevo este texto observo a “Vida”, atenta a tudo, nada lhe escapa, e mesmo sendo pequena é valente e atrevida. A coragem dela me é familiar. Algumas das histórias que vivi e que hoje fazem parte da memória dos meus afetos só aconteceram por um ato de coragem.

Prefiro pecar pelos excessos de atitudes, de palavras , de autenticidades do que viver meias verdades, meia vida, meias vontades . Posso até me expor demais, falar demais, porém, se faço ou digo coisas erradas é por um único motivo: em mim a vida acontece, assim como a minha gata.

Foto: Natan Fox

Sou intensa e gosto de viver como se não houvesse amanhã. Afinal cabe citar um clichê: "só se vive uma vez".

Por que será que a maioria das pessoas está mais preocupada em controlar a vida do que viver? Isso não seria o mais provável?

Mostra que eu cada vez entendo menos desse mundo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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