O farol – parte II

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Quando aprendeu a nadar suficientemente bem, o pai e a mãe passaram a levá-lo em suas canoas quando vão pescar ou precisam ir até outro povoado. Adora os passeios, gosta de ajudar a remar, mas não gosta muito de ter que tirar água do fundo da canoa, aquilo era trabalho para criancinhas. Gosta principalmente de sair com o avô, que vai lhe contando as lendas do rio, ensina-lhe sobre os cantos dos pássaros e sobre as plantas que se estendem às margens. Mas agora, precisava ele próprio navegar sua canoa, queria decidir para onde apontar a ponta de seu barco e até onde poderia remar.

– Seu pai já começou a fazer sua canoa, não é? Espero que você o esteja ajudando, porque falta pouco. Já está na hora de você procurar o seu farol – disse o avô calmamente e se calou.

Ele estava ajudando o pai ansiosamente na construção daquela canoa, desde o dia em que ele chegara em casa com o tronco que em breve seria suas pernas de caminhar o rio. Contudo, não sabia que farol era aquele. Nunca ouvira falar de farol por aqueles lados, muito menos de que em qualquer lugar do mundo haja farol em um rio. Na escola aprendeu que farol é coisa que se dá ao mar e não aos rios. Tentou perguntar ao avô, mas ele já estava sorrindo o riso de fim de conversa. Esperou ainda um pouco mais, querendo que ele dissesse qualquer coisa a mais, embora soubesse que aquele riso significava que, por ora, a conversa havia terminado. Depois de mais uns minutos, levantou-se e caminhou para casa, olhando às vezes para trás e vendo o avô apequenar-se na sua visão, aureolado pela luz laranja do fim do dia. Que farol?

A canoa inacabada estava ao lado da pequena casa em que moravam. Na verdade, era ainda um tronco em que o pai começara a trabalhar, mas sequer se podia ver a canoa dentro dele. Foi até lá e, enquanto alisava a madeira e tentava ver a canoa em que ela se transformaria em breve, tentava, no fundo, descobrir que farol seria aquele que parecia tão importante. Por onde começar a procurar uma coisa que ele nem sabia direito como era?

Ficou ali até não ter mais luz no céu, e só entrou em casa quando os lampiões já tinham sido acesos. Os dois irmão menores brincavam no chão indiferentes aos seus dilemas. Os pais estavam na cozinha absortos em alguma conversa tola e também pareciam não perceber o quão ansioso ele estava. Sentiu um pouco de raiva por isso e ficou parado na porta da cozinha, tentando decidir se deveria perguntar ou não aos pais.

– Que foi, filho? – finalmente lhe perguntou a mãe. Ela sempre sabia quando deveria perguntar e o que deveria perguntar. Ele atribuía esse poder ao fato de ela ser mãe.

– É nada não – respondeu, envergonhado de querer perguntar uma coisa que provavelmente todo mundo já sabia a resposta. Será que seus irmãos menores já sabiam? Sentiu-se arrasado, envergonhado, a criatura mais burra da face da terra e dos rios. Como nunca ouvira falar sobre esse farol?

A mãe riu um riso condescendente e insistiu para que ele dissesse porque estava tão acabrunhado. Não tinha ainda olhado para o pai, com medo de ver qualquer sinal de reprovação em seu olhar. Sentia as faces ardendo de vergonha, como se tivesse cometido a maior das burradas de sua vida, mas já estava mesmo desgraçado e não se conteve:

– Mãe, como é que você achou o farol? – perguntou num fiozinho de voz quase inaudível.
Ela riu cúmplice para o marido e puxou o filho para um abraço.

– Veja só, meu bem, nosso menino já é quase um homem! Tamo é ficando velhos, viu?! – disse divertida. E olhando bem nos olhos do menino, tentou acalmá-lo – Não se preocupe, querido, você vai encontrar o seu farol quando for a hora – e deu-lhe um beijo na testa, que era a maneira dela de acalmar sua cria.

Contudo, ele não estava certo de que daquela vez a maravilhosa fórmula da mãe para acalmá-lo iria funcionar. Sempre ficara mais tranquilo depois de um abraço e um beijo na testa dados por ela, só que, dessa vez, o carinho veio acompanhado da fatídica frase: você vai encontrar o seu farol quando for a hora. Ou seja, a mãe confiava nele e tinha certeza de sua capacidade, mas ele era pouco capaz de confiar em si mesmo. E se a decepcionasse? Seria a infâmia! Teria que fugir do povoado, nunca mais se deixar ver, ficar para sempre longe de todos eles. Sentia-se esmagado por toda aquela responsabilidade. Como saberia que era a hora certa? Onde deveria procurar? Por que ninguém lhe respondia direito a perguntas tão claras?

Comeu pouco nesta noite e foi deitar-se muito cedo. Na cama, tentou encontrar uma maneira de deixar de crescer. Tudo parecia muito complicado agora. Antes, achava que seria mais simples: era só ter uma canoa e navegá-la. Por que é preciso achar um bendito farol? No dia seguinte, já não estava mais ansioso para ter 13 anos, na verdade, estava ansioso para continuar tendo 12 anos. Ele conseguia compreender muito pouco de tudo aquilo.

Passou a ajudar menos o pai na construção de sua canoa e até recusara alguns convites dos pais para ir com eles aos povoados vizinhos. Estava cada dia mais preocupado e calado. Não tocara mais no assunto do farol, nem mesmo com o avô. Pensou em talvez perguntar a um primo que completara 14 anos há pouco e já tinha uma canoa há um ano, deveria, pois saber sobre o farol, mas sentia-se envergonhado demais para isso. Sentia-se simplesmente aniquilado. Tantas vezes subira e descera aquele rio e nunca, jamais, havia visto qualquer coisa em suas margens que se assemelhasse a um farol. Como, então, iria encontrá-lo?

Ainda continua por mais uma semana! Leia aqui a coluna da semana passada O Farol – Parte I

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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