O Futuro da América e o Velho Porrete.

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Em 2008, por conta da eleição do Democrata Barack Obama, um mestiço de ascendência negra, primeiro desta linhagem ascendendo a Presidência americana, houve uma euforia nos Estados Unidos, alegria que se espalhou mundo a fora, afinal tal mudança sinalizava um novo discurso, uma ação ditada pela esperança de uma visão humana, aberta à tolerância e a boa convivência entre os povos, suas etnias, tradições e cultos.

Neste contexto o historiador Simon Schama entendeu a chegada de Obama, vencendo Hillary Clinton nas primárias de Iowa, como um ponto de inflexão entre um país que se desacreditava à luz do mundo e até mesmo em sua auto-imagem coletiva, retornando em promessas “à última esperança da Humanidade”, como assim se firmara e posara, em seus primórdios de fundação histórica, enquanto terra de liberdade.

Naquele momento, 3 de janeiro de 2008, no distrito 53, sediado na Escola Secundária Theodore Roosevelt, na zona oeste de Des Moines, o autor de Cidadãos, célebre ensaio comemorativo dos 200 anos da Revolução Francesa, empolgara-se com a Valsa de Iowa, tocada e cantada pelos convencionais em euforia com a vitória morena de Obama, num eleitorado branco e de olhos azuis a rejeitar de Hillary, sua imagem e seu próprio espelho. Dali viria o prólogo de sua obra mais recentemente festejada, “O Futuro da América”.

Para Schama, aquela valsinha solitária de primeira primária presidencial, iniciava uma debandada irresistível que daria aos Democratas a oportunidade de reverter a maré conservadora, já vigendo desde 1981, com a posse do caubói Presidente, Ronald Reagan, muitas guerras equivocadas e mal vencidas, reveses inexplicáveis como o ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas de Nova York, a sucedânea histeria coletiva, novas guerras, gastos excessivos em belicismo e intolerância, uma excedente fabricação de mártires, heróis, mais que bandidos em terra estranha, um déficit financeiro monumental e incontrolável com ampliação da pobreza, do desemprego, e a redução da não mais pujante produção americana.

O bolso esvaziado estava a exigir mudanças, daí a grande maré democrática, com derrubada magnífica dos Republicanos nos seus redutos e bastiões.

O mapa americano tingia-se sobremodo de azul, com os Democratas pintando de anil os espaços rubros Republicanos, banindo-os em expressiva maioria, elegendo não somente um Presidente de aura nova como Obama, como lhe dando superior maioria no Congresso, Câmara e Senado, permitindo-lhe mudar o mundo, desavessar o impermeável capote conservador, tornar possível o insaciável e incontrolável Wellfare State, fazer às expensas da nação a sua utópica realização, enquanto agasalho e proteção dos mais pobres e desvalidos; tudo ou quase isso que tem sido objeto de demagogia em promessas delinquentes de tiranetes e caudilhos nas nossas republiquetas americanas, com o Brasil, bem incluído.

Ora, o povo americano estava farto dos anos Bush e de tudo que nela fora forjado, e neste particular, até imaginar um seguro-saúde, era bem vindo, diante de gastos crescentes numa guerra interminável, contra inimigo tão vasto, quão camuflado e disseminado mundo a fora, em descrédito e mau apreço.

E a resposta conjuntural se fazia em desapreço total à própria história americana, seus feitos, lutas e conquistas, um lamento justificável, afinal no atentado de 11 de Setembro, na concepção crítica do romancista e historiador Gore Vidal, os USA haviam sido cúmplices daquele sicário golpe, quando a sua própria Suprema Corte, por 5X4, golpeara a constituição e a verdade, substituindo o presidente eleito popularmente, Al Gore, pela junta taurina de Cheney e Bush, bancada pelo lobby poluidor do petróleo e do gás.

Na verdade o governo Bush fora altamente desastroso. Sua posição maniqueísta; “nós somos o bem, e precisamos combater o império do mal”, fora referendada por aplausos intermináveis.

Depois, o apupo substituiu as palmas, quando a fatura da guerra começou a ser paga como o sucessivo repatriamento dos cadáveres heróicos, mistura de vilania e bravura, em terras tão distante, inóspitas e estranhas, quanto o Iraque e o Afeganistão, povos de cultura hermética e medieval, esquecida entre o bruto e a ignorância, que mais mereciam o esquecimento que o coroamento da atenção e do cenário.

Seria uma guerra injusta, perguntariam aqueles que não a usam como melhor hipótese de solução de conflitos? Porque das Guerras justas, poderá valer o poetar hoje equivocado de Charles de Péguy, afinal o Mercado Comum Europeu, unindo interesses e repartindo esforços tornou o seu verso tão heróico, idealista e belo, numa causa perdida, num esforço tolo, numa perda inútil de tanto sangue generoso.

Mas, vale repetir Péguy e seus versos, pelo conteúdo idealista e viril: “Felizes os que morreram pela terra carnal,… numa guerra justa, […] Felizes aqueles que morreram nas grandes batalhas, Adormecidos sobre a terra e à fronte de Deus […] Felizes as espigas maduras e os trigos colhidos”.

Se não existe a guerra justa, epitáfio de Péguy, infelizes são sobremodo os que morrem nas guerras injustas. Quanta inutilidade, quanta perda de sonhos e realizações! Quantas vidas inutilizadas e vocações desvirtuadas!

Theodore Roosevelt e a sua política do grande porrete.

Mas, a história americana tem sido um debate entre duas correntes manifestadas desde os Pais Fundadores daquela nação, mote revisitado por Simon Schama em esperanças ressuscitadoras da sua democracia.

Uma república aparentemente tão frágil em meio a tantas crises e nas mãos inseguras do Presidente Obama.

Eis, porém, o fôlego de Obama renovado só porque assassinou, ou justiçou Osama Bin Laden, seguindo à risca a velha tradição prepotente americana.

Não foi, mais uma vez, o eterno retorno à velha lição do Presidente Theodore Roosevelt; “Speak softly and carry a big stick; you will go far”, (Fale macio e use um grande porrete; você irá longe?

Se os Estados Unidos não mudaram, a fala macia de Obama estava escondendo apenas um grande porrete?

Eis um bom assunto para reflexão.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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