“O homem que amava os cachorros” .

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Acabei de ler “O homem que amava os cachorros”, publicação do cubano Leonardo Padura (1955), que eu adiara a leitura já por alguns meses, afinal enfrentar um tijolo de 589 páginas é um desafio à persistência, sem falar que impõe o afastamento de outras leituras, sobretudo estudos e ensaios não ficcionais, temas de minha maior predileção

O Homem que amava os cachorros. Um tijolo que vale a pena ler.

Segundo o apresentador Gilberto Maringoni, Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e professor de Relações internacionais da Universidade Federal do ABC, “Padura escreveu um ‘thriller histórico’”, livro apresentado também por Frei Betto, alguém cujo pensar sempre semeia inquietações e muitas turbulências.

Quanto ao sossego e à tranquilidade em sonhos e realidade, quem era bem calmo e delicado, segundo Padura, era o seu personagem tema; um homem que amava os cachorros, mas que exibia uma ferida incurável e inolvidável em sua mão esquerda, como se fora uma mordida sinistra e misteriosa.

Um desassossego a conflitar com a suavidade descrita na trama irreal, porque o personagem, embora não seja traçado assim, é um fingidor em covardia e perversidade, alguém que sempre consegue enganar em cores amenas, de modo a esconder sua razões e intenções, chegando mesmo a suscitar encômios obscuros ou compreensões indulgentes para suas  funestas encenações.

Uma montagem bem construída por Padura, por bem concebível na textura ficcional, sobretudo para suster o leitor do começo ao fim do livro, porque este homem apaixonado por cachorros não era nem um vampiro, nem um fantasma.

Era um homem real, com nome e sobrenome. Vários nomes aliás.

Lev Davidovich Trótski, hoje um esquecido revolucionário.

Chamava-se Ramón Mercader (1913-1978), mas atendia por outros nomes como Jacques Mornard, ou Frank Jacson, ou tantos outros bem assumidos, ou menos referidos pelo sicário matador de Leon Trotsky (1879-1940), o grande revolucionário comunista, que também amava os caninos, morto a golpe de picareta na cidade do México em 1940, a mando de Josef Stálin (1878-1953), o poderoso czar vermelho que imperou na Rússia Soviética de 1924 a 1953, alguém que bem sabia se sustentar no poder, sem pejo de aniquilar quem lhe rosnasse à sua volta.

Hoje poucos lembram de Trotsky. Há dúvidas em relação a sua pregação de um socialismo de face amena. Uma amenidade que nunca transpareceu perante a divergência ao seu pensar, enquanto leão, rosnando ameaçador ao seu derredor.

Lev Davidovich Trotsky fora o talentoso orador da revolução comunista russa de 1917, segundo os textos de John Head (1887-1920), contidos em “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”, tema do filme “Reds” (1981), dirigido (Oscar 1982) e estrelado por Warren Beatty.

Um livro formidável.

E também, sem filme, nem Oscar, no bem notável e fascinante estudo daqueles feitos revolucionários, antecedências e consequências de que trata o ensaio “Rumo a Estação Finlândia” de Edmund Wilson (1895-1972).

Isso para falar apenas dessas duas obras. Uma festejada pelo mundo e outra mais por mim, mais isolado do grande mundo.

Se em Head ninguém desconfia qualquer animosidade surgida entre os primeiros revolucionários bolcheviques, em Wilson compreende-se até a futura inimizade entre  Stalin e Trotsky, embora seja impensável um desfecho a golpes de picareta desferido por um homem que bem amasse cachorros.

Para Wilson,  que só tratou a história com imparcialidade e esmero, Vladimir Lênin (1870-1924) era aquele que se identificava “a si próprio com a história”, enquanto Leon Trotsky fora a “jovem águia que identificou a história consigo próprio”.

O livro de John Reed que resultou filme.

Quanto a Josef Stalin, muito pouco citado, Wilson não o analisou em suficiência.

Pareceu-lhe um personagem menor, como sói os tecelões e sapateiros na intriga nos bastidores, ou sem desejar ir mais além das próprias botas.

Nesse tempo Stalin era Sosso, ou era Koba apenas.  Um simplório camponês da Geórgia, filho de sapateiro, encantador por sorridente e brincalhão que gostava de brincar com as pessoas fazendo-as infantis, jogando-lhes cascas de laranjas nos encontros sociais, mas que se confirmou depois como o mancal mestre da continuidade revolucionária, em pose de Saturno a deglutir os filhos de não seu agrado.

A Guerra Civil de muitas atrocidades de ambos os lados. Todos esquecidos, menos no mural de Cuernica, segundo a visão de Picasso, como a esquerda sempre gosta: posar de herói e chorar de qualquer cascudo retribuído.

O filme famoso de Warren Beatty e Diane Keaton, como charmosíssimos idealistas, John Reed e Louise Bryant, que na vida real eram menos atraentes.

Se a leitura de “O homem que amava os cachorros” impõe o afastamento de outros textos, devo acrescentar que no meu caso, fui estimulado a ler também “Trótski” de Bertrand M. Paternaud, da Zahar editoras, “Stalin – A Corte do Czar Vermelho”, da Companhia das Letras, outro tijolo de 860 páginas; A Guerra Civil Espanhola” de Josep M. Buades, da Editora Contexto; e até “A Guerra Particular de Lenin” de Lesley Chamberlain, publicação da Record editora. Obras que entendi merecerem a necessária inserção no acompanhamento da temática de Padura.

Ou seja: rever a revolução soviética; o expurgo de Trotski fustigado da Turquia à Noruega e findando na terra Asteca; vadear a Guerra Civil Espanhola onde Ramón Mercader e sua mãe Caridad foram participes derrotados; conhecer melhor as célebres perseguições do regime comunista sob Josef Stalin, matando milhões nos campos gelados na Sibéria, ou abrindo o canal que leva seu nome, entre o Mar Báltico e o Mar Branco, lá no Círculo Polar Ártico, canal que une o Rio Neva aos lagos Ladoga e Onega, e outros lagos menores. 

Bom estudo sobre Stalin, que é ainda, diga-se de passagem, muito querido na Rússia. Ele, Ivã IV, o terrível, Pedro, o Grande, Catarina II, Lenin e agora Putin, encarando o restaurador da antiga glória da Mãe Rússia.

Um canal que não consegui visitar em recente viagem àquela região, cuja construção durou 20 meses e empregou sob coação irresistível 150 mil detidos, para serem “reeducados mediante trabalhos corretivos”, entre muitos escritores, estudantes e artistas recalcitrantes e artistas, que jamais retornaram.

Sosso Stalin e Leão Trotski

Sem falar dos julgamentos sumários de  Grigori Zinoviev, Lev Kamenev e Nikolai Bukharin, e tantos outros revolucionários de primeira cepa, fruto de festejadas “delações premiadas”, só para usar um nome da moda atual, brasileira, onde longe de merecerem encômios coletivos e discutíveis perdões judiciais, tais delações por arremate, levavam os réus ao agradecimento até da bala que bem e melhor os mataria “enquanto erva daninha a ceifar para que a vida social pudesse florescer vigorosa e tranquila”.

Tudo o que me pareceu ou parece ainda à Cuba de Fidel Castro e narrada por Padura, onde os estudantes como ele próprio, ou seus múltiplos personagens; Daniel, Ana, Frank, Anselmo, Gisela, etc…, denunciam o cansaço, o desejo de  “descanso e paz”, quando não de fuga daquela ilha, onde escritores ou não, têm sido censurados e tolhidos por aquele regime, onde tantos não foram quebrar pedra, nem abrir canais no gelo, porque Cuba é uma ilha ensolarada, mas foram “cortar tanta cana de açúcar quanto fosse possível o seu patriotismo, a reeducação o exigisse e a safra recorde fosse conquistada”.

Ou seja: muitos crimes que veem sendo apurados com extrema dificuldade, afinal as “Comissões da Verdade” sempre entendem justos e louváveis quaisquer delitos cometidos em nome da luta revolucionária, a “única que é capaz de realizar a libertação da classe obreira”.

Mas, se em “O Homem que amava os cachorros”, parte dessa miséria se apresentava assim, passei a ter curiosidade de conhecer a realidade, não de Cuba, mas da Rússia in loco. Saber como o mundo se comportava ali.

Assim, como já disse antes, em meio a outras leituras, fui à Rússia. Mas isso é outra história.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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