O homem que vendeu a alma

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O Fausto, de Goethe, é um poema trágico sobre a soberba de um erudito que faz um pacto com o diabo. A obra-prima da literatura universal materializa o mito do homem moderno, na eterna busca do significado da vida, da compreensão de todo o conhecimento e, por analogia, do desejo de amealhar alguma fortuna e ficar famoso. Certo de não estar fazendo o mal a ninguém, Doutor Fausto aceita um acordo tramado por Mefistófeles: este fará tudo o que ele quiser na Terra e, em troca, terá de servi-lo no Inferno.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Na suposta busca da verdade, mas em troca de realizar o seu desejo pessoal, Doutor Moro vendeu a alma a Bolsonaro.

Fausto usou a magia para tentar chegar ao conhecimento ilimitado. Como chefe da força-tarefa, o ex-juiz e hoje ministro coordenou a Operação Lava Jato usando um truque para atrair a atenção da opinião pública: alimentou um relacionamento privilegiado com parte da imprensa, principalmente com a Rede Globo, sustentado por vazamentos ilegais de documentos, gravações de áudios e outras informações exclusivas que rendiam manchetes bombásticas quase diariamente.

Valia tudo em nome da guerra à corrupção, mesmo cometendo ilegalidades. O fim justificando os meios. Assim foi construída a imagem de paladino da ética e da moralidade, alimentando o messianismo que envolve o seu nome. Para os muitos seguidores dele — por coincidência, quase todos eleitores de Bolsonaro —, se você é contra o super-herói Sérgio Moro, você é contra o país e a favor da corrupção.

Mefistófeles apostou com Deus que poderia conquistar a alma de Fausto. E finalmente chegou ao acordo, que foi selado com sangue. Ainda não se sabe exatamente quando Moro e Bolsonaro fizeram um acordo. Se é que realmente houve esse acordo ou, por afinidade, apenas aconteceu um entendimento tácito.

Certo é que, agora o The Intercept de Glenn Greenwald deixa claro, Moro comandou uma conspirata para eleger o atual presidente, encarcerando aquele que era apontado como eventual vencedor da eleição de 2018. Certamente movido pelo mesmo sentimento alimentado pela elite branca e endinheirada, ele não disfarça sua motivação política e pessoal contra Lula. Nem sua mulher escondeu a simpatia pelo capitão de pijama, quando ele se fortaleceu como adversário mais ferrenho do lulopetismo. Sabendo o preço que teria de pagar, Bolsonaro bancou a aposta e foi eleito presidente.

Agora, ao colocar a Polícia Federal na cola do jornalista britânico, cuja vida financeira estaria sendo vasculhada, o ex-juiz também comete crime de abuso de autoridade.

O vaidoso Fausto enamorou-se da bela Gretchen e pediu que Mefistófeles a conseguisse para ele. Foi a desgraça da vida dela.

O soberbo Moro sonha em vestir a toga de ministro supremo e sentar-se numa daquelas poltronas de couro amarelo do STF. Nada demais para um magistrado já coberto de glória se a máscara não tivesse caído quando assumiu seu viés político e entregou-se a Bolsonaro, aceitando ser o todo-poderoso ministro da Justiça e da Segurança Pública.

Não foi por outro motivo senão por motivação política que ele ordenou a escuta telefônica ilegal entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, diligentemente vazada para o Jornal Nacional. Para Moro, as obrigações da magistratura e a nobreza da função não o impedem de ferir a Constituição, o Código de Processo Penal, o Código de Ética da Magistratura. Ele está acima da lei.

A Constituição determina que, para ser imparcial e garantir igualdade entre acusador e réu, o juiz tem que estar distante das partes, ao mesmo tempo que estabelece como uma das funções institucionais do Ministério Público (Art. 129, inciso I) “promover, privativamente, a ação penal pública”.

O Código de Processo Penal prescreve: “Art. 254. O juiz dar-se-á por suspeito, e, se não o fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes: I – se for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer deles; (…) IV – se tiver aconselhado qualquer das partes.”

E, corroborando os mandamentos legais quanto à rigorosa exigência de imparcialidade, o Código de Ética da Magistratura não deixa dúvida: “Art. 8º. O magistrado imparcial é aquele que busca nas provas a verdade dos fatos, com objetividade e fundamento, mantendo ao longo de todo o processo uma distância equivalente das partes, e evita todo o tipo de comportamento que possa refletir favoritismo, predisposição ou preconceito.”

Admitindo a parcialidade de Sérgio Moro, por instruir a operação, por não manter a devida equidistância em relação a uma das partes, com a qual realizou ações coordenadas, juristas reconhecem nos processos conduzidos na Lava Jato o vício insanável da nulidade. Doa a quem doer, é caso de anular condenações.

Crente da sua superioridade moral, o juiz-justiceiro buscou a qualquer custo a condenação de Lula para também exibi-lo como um troféu, um totem que energiza a sua vaidade. Um prêmio que poderia levá-lo ao topo do mundo, àquele palácio de vidro de Brasília, que é guardado pela idealização da justiça esculpida na porta por Alfredo Ceschiatti.

Um senhor de mais de 70 anos, ex-presidente da República, querido por uma parcela importante da população, um militante das causas sociais reconhecido dos Estados Unidos à China, preso e condenado sem convicção, como confirmam os diálogos revelados pelo The Intercept, sem ter contra ele uma única prova direta e objetiva da acusação.

Com o desgaste do desmascaramento do super-juiz, o destino de Moro está definitivamente nas mãos de Bolsonaro. Está nas mãos de um homem vacilante, que não consegue sustentar a própria opinião, que muda de ideia aos sabores dos filhos tresloucados, dos gurus profanos e dos quartéis arrependidos.

A alma de Fausto será levada somente quando Mefistófeles criar uma situação de felicidade tão plena que faça com que Fausto deseje que aquele momento dure para sempre. Isso não aconteceu na ficção. Acontecerá na vida real?

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