O Julgamento e a Paixão de Jesus II

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No livro O JULGAMENTO DE JESUS, O NAZERENO, o juiz da Suprema Corte de Israel Haim Cohn realiza uma confrontação dos quatro Evangelhos assinalando que nenhum deles inclui depoimentos de testemunhas presenciais dos eventos ali narrados. Neste campo reforça-se no fato de Lucas 1,2 afirmar em prólogo a existência de outros relatos e que o seu representa a transcrição de declarações que ouvira, transmitidas por “aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da Palavra”. Assim, revigora-se no fato de que Lucas não presenciara os feitos, o mesmo acontecendo com os demais Evangelistas, dado o caráter histórico da datação de seus primeiros relatos escritos.

 

Dos Evangelhos, crê-se historicamente falando, ser o de Marcos o mais antigo. Acredita-se que foi escrito no ano 70 d.C, antes da destruição do 2o Templo por Tito, isto é, aproximadamente quarenta anos após a morte de Cristo. O Evangelho de Lucas foi escrito no ano 85, o de Mateus em 90 e o de João, o que mais detalhe explicita a Paixão do Nazareno, é datado do ano 110, mais de três gerações depois.

 

Não tendo por meta descrever a história como acontecida, os autores dos Evangelhos preocuparam-se em difundir a fé cristã fortalecendo-a. Assim, o autor sugere uma preocupação com a conjuntura vigente, na qual a comunidade cristã, ainda pequena no império romano, buscava adquirir influência junto aos governantes. Daí a preocupação em salientar a santidade de Jesus, sua inocência de qualquer crime ou pecado, sua grandeza em suportar o sofrimento e as torturas, enfatizando sobremodo que o filho de Deus nunca fora contra Roma. Assim, como a pregação de Jesus nunca conflitara a lei romana, não fora esta a responsável pela sua prisão, o seu julgamento e a sua morte na cruz. Por outro lado, como os judeus nesta época estavam resistindo e criando embaraços ao domínio romano, insinua maldosamente o autor, que no cerne da pregação evangélica, buscou-se culpar os judeus de todo o sofrimento de Cristo, de maneira a angariar a simpatia de Roma. Uma simpatia conquistada em cima de uma campanha antijudaica. Primeiros passos da divergência judaico-cristã.

 

Quanto aos escritos históricos, Tacitus (55-115 d.C.), motivado pelo fato de odiar os cristãos fala apenas ter sido Cristo executado na época do imperador Tibério pelo governador Pôncio Pilatos, enquanto Flavius Josephus (37-97 d.C.), historiador judeu, afirma que embora a condenação tenha sido realizada por Pilatos, tudo foi originado por pressão dos cidadãos judeus mais importantes que exigiram a sua crucificação.

 

Todavia, o Dr Haim Cohn menospreza o relato de Flavius Josephus não o considerando uma fonte não cristã, menos ainda um relato independente. Insinua inclusive ser este trecho fruto de um acréscimo posterior, uma interpolação realizada por um editor cristão. Tal suposição deriva do fato de que Flavius Josephus, preocupado em agradar os romanos, não estendera seus relatos sobre o cristianismo e os cristãos, evitando despertar para si a ira dos imperiais.

 

Na ausência de outros relatos históricos, restam-nos os Evangelhos. O autor, porém rejeita o seu valor histórico e documental. Aceita de Rudolf Bultiman (1884-1976) serem eles apenas relatos religiosos imaginativos e legendários, uma vez que ali, retirados os adornos para a glória da fé, sabe-se pouco sobre a vida e a personalidade de Jesus.

 

Aceita pelo menos, como premissa, que Jesus viveu e foi crucificado, o que permite continuar sua missão de inculpar o povo judeu do seu padecimento na cruz. E assim prossegue, desta vez analisando as diferenças encontradas nos quatro relatos. Acompanhemos.

 

Sobre a prisão, Marcos afirma que estava Jesus no local chamado Getsêmane “quando chegou Judas Iscariotes, um dos Doze, e com ele um bando armado de espadas e cacetes, enviado pelos sumos sacerdotes, escribas e anciãos”. Judas com um beijo indica Jesus, que é preso, com a reação de um circunstante que decepa com uma espada a orelha de um servo do sumo sacerdote. Em seguida Jesus reclama da sua prisão como bandido quando durante o dia pregara no meio deles sem que o prendessem. Trata-se de uma prisão na calada da noite para não chamar atenção. E Jesus é levado à casa do sumo sacerdote onde se reuniram todos os sacerdotes escribas e anciãos.

 

Mateus afirma que Judas chegou a Getsêmane com uma multidão de gente armada de espadas e cacetes enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. No mais tudo é igual, o beijo de Judas, a orelha do servo decepada, exceto os diálogos, inclusive a condenação aos que ferem com espadas e afirmação de que tudo acontecia para que as Escrituras fossem cumpridas. E Jesus foi levado preso à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e anciãos do povo.

 

Lucas fala que Jesus, como de costume retirou-se à noite para o monte das Oliveiras, quando chegou uma multidão de gente; e a testa deles vinha um dos doze que se chamava Judas. Desta multidão participavam os príncipes os sacerdotes, os oficiais do templo e os anciãos. Há o beijo de Judas. Há também a reação com espada decepando a orelha direita do servo do sumo sacerdote. A novidade é que Jesus toca a orelha, curando o ferimento. No mais, prendem-no e o levam à casa do sumo sacerdote.

 

Na narrativa de João, Jesus retirara-se para além da torrente de Cedron, onde havia um jardim, conhecido também de Judas, o traidor, que ali chega com a coorte e os guardas de serviço dos pontífices e dos fariseus com lanternas, tochas e armas. Não há o relato do beijo de Judas. Há um diálogo repetido duas vezes: – A quem buscais? – A Jesus de Nazaré. – Sou eu. Em João, aparece o nome de Simão Pedro como o responsável pelo ferimento a espada da orelha direita do servo do sumo sacerdote que aí é identificado como Malco. Também é identificado entre os que o aprisionaram, a coorte, o tribuno e os guardas dos judeus que o amarraram e o levaram primeiro à casa de Anás, sogro de Caifás o sumo sacerdote daquele ano.

 

Arrimando-se apenas no último relato, o de João, o Dr. Haim Cohn apaga todos os outros, eximindo qualquer responsabilidade dos judeus na prisão de Jesus. Aliás, é o único fato que aceita de João; se há a presença da coorte e do tribuno romano na escolta da prisão de Jesus, era porque se estava cumprindo um mandado romano e não judeu.

 

Isto, porém, não é de todo provável, porquanto o preso não fora conduzido a uma prisão controlada pelos romanos. Jesus é entregue às autoridades judaicas, evidenciando que os judeus determinaram a sua prisão, e não o governador romano. Os judeus também realizariam o seu interrogatório. É pouco provável que o invasor romano caçasse um peregrino, um vagabundo judeu, um indivíduo desconhecido e absolutamente desimportante, e o entregasse sob custódia aos chefes dos judeus para um mero interrogatório, ou uma gentileza qualquer.

 

Mais prático é aceitar aquilo que era a real função das coortes. O exército romano só era empregado quando se desejava prender bandidos perigosos que estivessem submetendo uma região. Neste caso a incursão era breve, dura e violenta. Não era o caso de Jesus que pregava pacificamente na cidade durante o dia. Mais fácil é crer que o Nazareno e sua pregação se tornaram perigosos para o sumo sacerdote, os príncipes e anciãos, daí encetarem a sua prisão usando a guarda do templo.

Começava então o julgamento de Jesus pelos judeus, mas isto é assunto para um outro dia.

Segunda-feira Santa

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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